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São
Paulo, domingo, 14 de abril de
1996
MARCELO LEITE
Encontra-se
na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados um
projeto de Lei de Imprensa que saiu pior do que o soneto. Seus maiores
defeitos são limites astronômicos para indenizações por ofensa e
a ressurreição das penas de prisão para jornalistas. Com estas características,
jamais favoreceria uma prática jornalística mais responsável, a
única coisa que interessa ao público.
Não é segredo para ninguém que parlamentares endureceram o texto
em represália contra denúncias de fisiologismo nas votações da Previdência
e da CPI dos Bancos. Os jornais não se cansam de bater nessa tecla.
O limite para indenização de 10% do faturamento anual da empresa
é mesmo uma exorbitância. Bastaria a condenação por esse valor em
um único processo para liquidar qualquer órgão de comunicação. Seu
objetivo manifesto é domesticar o jornalismo investigativo, não
ressarcir proporcionalmente o ofendido.
Por outro lado, o limite proposto pela Associação Nacional dos Jornais
(ANJ), de R$ 100 mil, pode mostrar-se irrelevante para algumas megaorganizações.
Ou seja, perderia seu papel inibidor da negligência e da irresponsabilidade.
Onde fixar a fronteira do razoável?
Questão de proporção
Não é a mesma coisa xingar alguém na rua e nas páginas de um jornal.
A diferença está no efeito multiplicador da imprensa. Assim, soa
aceitável uma lei para disciplinar especificamente esse meio, capaz
de provocar tanto dano.
Em 10 de setembro do ano passado, defendi aqui que a indenização
seja proporcional à tiragem ou audiência do veículo ofensor. Poderia
ser uma fração do preço de capa multiplicada pela tiragem, mas o
critério não serviria para emissoras de rádio e TV.
Ocorreu-me há poucas semanas, durante debate sobre o tema promovido
pelo jornal ''O Povo'' (Fortaleza-CE), que a base de cálculo poderia
ser a própria tabela de publicidade do veículo. Por que não dar
ao ofendido a mesma quantia que teria de desembolsar caso decidisse
defender-se com um anúncio no mesmo espaço?
Negligência e dolo
Contra a pena de privação de liberdade, o melhor argumento está
em que raramente é aplicada. Ou seja, os juízes reconhecem na prática
o caráter excessivo dessa punição para os chamados delitos de opinião.
Como ombudsman, posso testemunhar que a fonte da maior parte dos
erros jornalísticos é negligência ou ignorância, não a intenção
de ofender.
Já se tornou lugar-comum, porém, denunciar o ''denuncismo'' da imprensa.
É um tema recorrente na opinião pública, ainda que muitas vezes
ressurja com a pior das intenções: questionar a ''impunidade'' da
imprensa para garantir a própria.
De qualquer modo, a sociedade parece desejar alguma consequência
para jornalistas que abusem da liberdade de informar que lhes delega.
Mas não foi ainda dessa vez que se mostrou capaz _por intermédio
de seus representantes_ de encontrar um meio-termo entre a inoperância
do autoritarismo anterior e a mordaça pecuniária desenhada por quem
não suporta a luz do dia.
Sua Vez
Com a reforma gráfica inaugurada em 3 de março, a Folha criou
um caderno novo para a versão Nacional da edição de domingo. Batizado
de Sua Vez, o produto tinha a missão de levar reportagens de quatro
cadernos de classificados dominicais (Veículos, Empregos, Imóveis
e Tudo) aos leitores de fora de São Paulo, já que não recebiam os
dois últimos.
Em lugar de elogios, o que estou ouvindo são muitas queixas. Os
35 leitores do interior e de outros Estados que ligaram ou escreveram
entendem não que ganharam reportagens, mas sim que perderam os anúncios
classificados de Veículos e Empregos, que todos recebiam.
A direção da Folha defende Sua Vez como um aprofundamento
da tendência para a segmentação do mercado. Em resposta ao ombudsman,
o diretor-adjunto de Circulação, Matias Soares, afirmou:
''Assim como a Folha, os principais jornais do mundo acreditam
que a regionalização da imprensa é o caminho para se prestar um
melhor serviço, levando até o leitor mais informações sobre a área
em que vive.
(...)
''Como em toda mudança, houve ganhos e perdas. Ganhos, porque o
leitor passou a receber informações do caderno Tudo, que há tempo
deixou de circular fora da cidade de São Paulo; Veículos passou
a ter uma nova tabela de preços de carros, bem mais completa. Naturalmente
houve uma diminuição nas ofertas de classificados, por serem estes
direcionados, conforme exigência do mercado anunciante''.
105 vezes mais
''Diminuição'' é um eufemismo. Pelo menos por ora, o que se viu
foi um virtual desaparecimento. Nas 18 páginas do ''Sua Vez'' da
semana passada, encontrei 79 anúncios de empregos e 131 de imóveis,
além de 4 de veículos (em formato grande, sendo três da mesma concessionária).
No mesmo dia, a capa da edição São Paulo anunciava ''22.056 ofertas
em 72 páginas de classificados''. Dito de outro modo, 105 vezes
mais que no singular Sua Vez.
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