|


O que é o cargo
Fale com a
Ombudsman
Mural
Colunas
Anteriores
FiloFolha
Dúvidas mais
Frequentes
Bate-papo
|
 |
|
Efeito Brahma-Antarctica |
 |
|
São
Paulo, domingo, 28 de abril de
1996
MARCELO LEITE
Um comentário comum entre jornalistas, nos últimos tempos, é que
os jornais diários estão muito parecidos.
Não concordo muito, mas as recentes reformas gráficas da Folha
e do "Globo", aliadas à generalização do uso da cor, parecem contribuir
para essa impressão.
É falso que esses dois jornais tenham hoje muito em comum, seja
do ponto de vista gráfico ou jornalístico. A reforma do "Globo"
afetou a própria edição, privilegiando textos mais longos e articulados.
Uma boa notícia.
O mesmo não aconteceu na Folha, que permanece o mesmo diário,
apesar das letras diferentes e das páginas coloridas.
É na praça de São Paulo que a aproximação se mostra mais visível
_e perigosa. Folha e "O Estado de S.Paulo" temem o chamado
"efeito Brahma-Antarctica", ou seja, que consumidores passem a considerar
indiferente comprar este ou aquele produto, em função de uma similaridade
real ou imaginária _pouco importa.
Na quinta-feira, leitores paulistas tiveram boa amostra dessa incômoda
uniformidade. Reagindo de forma previsível a um assunto tão cacete
quanto anticlimático, sapecaram na manchete: "FH(C) faz reforma
no Ministério". Toda a diferença se resumia ao "C" de Cardoso, que
só a Folha usa. A indiferenciação não representa necessariamente
prejuízo para o público. Em grande medida, resulta da adesão a regras
centenárias de bom jornalismo, como independência, pluralismo e
disposição investigativa. Começo a acreditar que os leitores devem
temer é a tentativa de diferenciação a qualquer preço.
Expulsão sem diplomacia
Na Folha, isso tem algo a ver com outra discussão, bem mais
importante, sobre a "desestatização" do noticiário. A idéia é torná-lo
menos dependente das movimentações palacianas.
Anteontem, por exemplo, o jornal deu destaque no alto de sua primeira
página à expulsão de um aluno por uma escola particular de São Paulo.
O título era pretensioso: "Aluno expulso vira caso diplomático".
A reportagem ocupava toda a capa do caderno São Paulo/Cotidiano.
Segundo a secretária de Redação Eleonora de Lucena, o objetivo ao
privilegiar assunto tão paroquial foi o de levantar uma discussão
sobre disciplina nas escolas. Nas suas palavras, "sair um pouco
da linha oficial e, mesmo correndo risco de ter exagerado, trazer
(para o jornal) casos do cotidiano dos nossos leitores".
Na minha avaliação, a reportagem não alcançou o objetivo, pois limitou-se
ao bate-boca entre alunos, pais e administradores da escola. Incapaz
de induzir discussão de fundo, o texto passou para leitores somente
a impressão de arbitrariedade editorial.
"Máfia da Saúde"
Sensação semelhante deve ter causado nos leitores do "Jornal do
Brasil" a manchete de quinta-feira: "Máfia da Saúde mata em Brasília".
Afinal, naquele dia quase todos os jornais do Brasil davam destaque
para a reforma ministerial.
Com esse título, o "JB" por certo conseguiu destacar-se nas bancas.
Até onde pude verificar, nenhum dos três principais diários _Folha,
"Globo" e "Estado"_ publicou no mesmo dia a história do misterioso
assassinato do empresário Alcides Peres. Foram 12 tiros em "um dos
mais conhecidos fornecedores de remédios para o Ministério da Saúde",
à luz do dia.
Não se trata somente de mais um caso policial. A investigação pode
contribuir para desvendar algo do submundo brasiliense das licitações.
Em poucas palavras, é notícia em estado puro. Não para a Folha.
Tudo que o jornal apresentou sobre o caso a seus leitores, anteontem,
foi um "colunão" (nota). Mesmo assim, só para os leitores de São
Paulo. Tudo no microtexto era burocrático, a começar pelo título:
"Polícia de Brasília investiga assassinato".
É um vício antigo do jornalismo, "derrubar" (menosprezar editorialmente)
um tema apenas porque se trata de um "caso" de concorrente. O "JB"
pode até ter errado na mão ao elegê-lo para manchete, mas bem mais
grave é o pecado da Folha. Na gíria jornalística, isso se
chama "brigar com a notícia".
É a pior maneira de diferenciar-se da concorrência.
O outro lado da moeda
Domingo passado, por outro lado, a Folha destacou-se na imprensa
diária com um recurso de que há muito não lançava mão, o editorial
de primeira página. Sob o título acima, prometeu uma série de reportagens
sobre iniciativas exequíveis no campo social.
É o que o leitor mais espera de um jornal como a Folha: iniciativa.
Não a crônica sonolenta das idas e vindas do Planalto, mas debate
das grandes questões nacionais, como soluções para a miséria aceitável
apenas para os ideólogos do Plano Real.
Isso sim é desestatização, e faz toda a diferença.
Leia mais
Na ponta da língua
Colunas
anteriores
21/04/1996 - Zeros
à esquerda
14/04/1996 - Legislando com o fígado
07/04/1996 - Vacas loucas, jornalismo
anêmico
31/03/1996 - O peso dos números
24/03/1996 - Por favor
subir

|
|
|