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São
Paulo, domingo, 12 de maio de
1996
MARCELO LEITE
A série
de editoriais de primeira página da Folha, iniciada em 21
de abril com o memorável ''O outro lado da moeda'', chamou atenção
para um dos setores menos transparentes do jornal: Opinião. Em um
ano e meio como ombudsman, notei que o leitor não faz a menor idéia
de como são pautadas e escritas as páginas 2 e 3 do primeiro caderno,
publicadas sob essa rubrica.
São cinco os elementos básicos dessas páginas:
* Editoriais - textos não assinados que saem em duas colunas na
parte esquerda da pág. 1-2;
* Colunas - três fixas, no centro da mesma 1-2, cujos titulares
são Clóvis Rossi, Fernando Rodrigues e Carlos Heitor Cony, e outra
vertical e variável, à direita, com um nome para cada dia da semana;
* Tendências/Debates - artigos da pág. 1-3 escritos geralmente a
convite do jornal;
* Painel do Leitor - seção de cartas, inclusive aquelas que caracterizem
o chamado direito de resposta;
* Erramos - espaço para retificações de erros da Folha.
Para explicar que nem tudo nessas duas páginas reflete a opinião
da Folha, entrevistei o editor de Opinião do jornal, Hélio
Schwartsman, 30. Tomei a idéia emprestada de Lynn Feigenbaum, a
ombudsman do diário norte-americano ''Virginian-Pilot'', que há
poucas semanas apresentou em sua coluna um bate-papo didático com
o ''op-ed'' de seu jornal.
Pretendo de tempos em tempos repetir essas conversas com editores,
para dar idéia um pouco mais concreta sobre como é feito o jornal.
Passo agora a palavra a Schwartsman:
*
Pergunta - Quem escreveu os editoriais de primeira página
de 21 e 30 de abril?
Schwartsman - O primeiro quem fez a base foi o Clóvis (Rossi),
e o segundo foi o Marcelo Coelho, que por acaso são do Conselho
Editorial, mas essa não é a regra.
Pergunta - Quem redige regularmente editoriais na Folha?
Quantas pessoas são e qual é o perfil delas?
Schwartsman - Varia. Eu sou um que está aqui todo dia e aí
há um reforço. Hoje (1º de maio), por exemplo, tenho o Gilson Schwartz,
36 anos, economista que está dando aulas na USP (no Programa de
Relações Internacionais). Também tem o Demian Fiocca, um pouco mais
jovem, 27 anos, que está fazendo um mestrado na FEA, também economista.
E o Luiz Paulo Labriola, 38 anos, formado em letras na USP, mas
que agora está fazendo uma pós-graduação em filosofia.
Pergunta - Além desses?
Schwartsman - Há um bom corpo de assessores. Por exemplo,
para qualquer assunto jurídico, estamos sempre consultando o Ives
Gandra Martins, o Walter Ceneviva, o Luís Francisco de Carvalho
Filho.
Pergunta - Fale mais de sua formação intelectual e carreira
na Folha.
Schwartsman - Minha formação básica é filosofia, mas fiz
vários outros cursos na Letras da USP: quatro anos de grego clássico,
como ouvinte, dois anos de latim, um semestre de sânscrito. Agora
estou teoricamente cursando árabe, mas não estou conseguindo ir.
Pergunta - E na Folha?
Schwartsman - Hoje exatamente, 1º de maio, completo oito
anos de Folha. Comecei como redator de Exterior. Entrei no
jornal por engano, achei que ia ser tradutor. Já trabalhei em Exterior,
afundei o finado Folhetim, fui o último editor dele. Trabalhei no
Letras, em Ciência, ajudei a escrever... como você, fiz parte da
comissão do ''Manual'', fui editor de Exterior e depois vim para
cá, há cerca de três anos.
Pergunta - E como são aprovados e discutidos os textos de
editoriais, atualmente?
Schwartsman - Quando o sr. Frias (Octávio Frias de Oliveira,
publisher da Folha) chega, propomos uma pauta. Quando terminamos
(de escrever), passamos para ele, e depois ele vem com observações,
ou passa direto. Ou tem de refazer alguma coisa, ou então a gente
começa a brigar, até sair o editorial aprovado.
Pergunta - E o Conselho Editorial, tem alguma influência
sobre os editoriais? As pessoas acham que os membros do Conselho
são os que fazem ou discutem os editoriais.
Schwartsman - Não, isso certamente não, exceto o Marcelo
Coelho, que escreve com pouca frequência, e Clóvis Rossi, que escreve
regularmente. O nosso contato com eles é que têm um almoço por mês
e vêm tomar depois um cafezinho aqui com a gente. É claro que junto
à direção do jornal, ao Otavio (Frias Filho, diretor de Redação)
e ao sr. Frias, eles têm, devem ter alguma influência. O professor
Rogério (Cézar de Cerqueira Leite) é outro que a gente ouve muito,
nos editoriais que de alguma forma mexem com ciência ou educação...
Pergunta - ... e Sivam...
Schwartsman - ... e Sivam.
Pergunta - Qual é a relação entre editoriais e noticiário?
Schwartsman - Olha, a gente procura não desmentir o noticiário,
embora às vezes detecte erros, numa leitura mais atenta ou após
consulta a especialista. Os editores têm a orientação óbvia de ler
os editoriais, mas manter uma independência, no noticiário, de procurar
ser o mais objetivo possível. De vez em quando se vê que a Folha
editorializa um pouco as matérias, talvez indevidamente, ou então
acaba publicando sem grifo (itálico) algo que deveria sair em grifo,
como um sinal de que é algo mais opinativo e menos noticioso.
Pergunta - Com a reforma gráfica ficou mais difícil, pois
não há mais a possibilidade de usar o texto comum em grifo, fora
das colunas de opinião.
Schwartsman - É, isso é verdade.
Pergunta - E na mão inversa, as informações da Folha
são a sua principal fonte ou vocês se socorrem cotidianamente de
outras publicações?
Schwartsman - Sempre checamos e rechecamos, por mais sólida
que pareça a matéria. Por exemplo, se cita um artigo de lei, vamos
ver se é aquele mesmo, vamos ouvir um advogado para ver se não há
gente que acha diferente.
Pergunta - Mas outros jornais também são usados?
Schwartsman - Também, por exemplo a ''Gazeta'' (Mercantil),
na parte econômica, que costuma ser mais completa. Agora, quem também
tem colaborado com a gente, mas mais na parte de sugestões e discussão,
sem escrever, é o Celso Pinto.
Pergunta - Outra confusão frequente se dá entre editor de
Opinião, Conselho Editorial e a pág. 3, onde saem Tendências/Debates
e Painel do Leitor.
Schwartsman - Direto. O que eu recebo de telefonema e fax
por engano... Não há relação nenhuma.
Pergunta - E sobre o texto do editorial _formulação, estilo,
vocabulário?
Schwartsman - Varia muito. Às vezes tem notícia que sai às
7h30 da noite, a gente quer pôr no editorial. Aí, óbvio, sai um
texto um pouco menos refinado, eventualmente até com erro de português,
o que é muito ruim. Agora, quando começamos a escrever cedo e não
há maiores percalços, procuramos ser um pouco mais cultos do que
a linguagem normal do jornal, mas também sem cair no preciosismo.
Pergunta - Dos grandes jornais brasileiros, qual faz os melhores
editoriais?
Schwartsman - A Folha é mais ousada, mais propositiva.
O Estadão é um pouco carrancudo, mas de vez em quando tem belas
peças ali, mesmo porque eles têm uma equipe bastante grande de editorialistas
e um espaço bem mais significativo, quase uma página inteira, enquanto
nós temos dois quintos de página.
Pergunta - Como leitor, sinto que a argumentação dos editoriais
do ''Estado'' é mais desenvolvida, obviamente por causa do espaço.
Schwartsman - Mas também tenho a impressão de que tem um
índice de leitura menor, são longos, talvez um pouco pesados. E
''O Globo'' é o jornal que mais abusa dos editoriais, na capa por
exemplo é frequente, e aqueles ''Opinião'' espalhados pelo jornal...
Pergunta - Você acha isso ruim?
Schwartsman - Não, acho interessante.
Pergunta - É que você falou em abuso.
Schwartsman - Na capa, na capa. A gente só coloca na capa
quando acha que é uma questão vital para o país
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