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São
Paulo, domingo, 26 de maio de
1996
MARCELO LEITE
Parece que os jornais brasileiros vão muito bem, obrigado. Enquanto
na maioria dos países a circulação cai, por aqui cresce.
De 1994 para 1995, houve um aumento de 22%, segundo pesquisa da
Federação Internacional de Editores de Jornais _agora presidida
por um brasileiro, Jayme Sirotsky_ noticiada no ''Jornal do Brasil''
de quarta-feira passada. A receita com anúncios cresceu ainda mais,
embalada pelo Plano Real: 34,3%.
Se no front dos negócios a imprensa vai bem, também não tem do que
se queixar no do público. Segundo pesquisa Datafolha com 629 paulistanos
divulgada há 12 dias, é uma instituição com ''muito poder'' na opinião
da maior parcela de entrevistados (71%). E "muito prestígio" (68%).
Nos dois quesitos, bate todas as outras: Igreja Católica, sindicatos,
Judiciário, empresários, Executivo, Legislativo, o diabo.
É certo que a pesquisa suscita alguns questionamentos. Em primeiro
lugar, só foram ouvidos paulistanos (em dezembro passado, tinham
sido 11 capitais). Em segundo, 71% dos entrevistados dizerem que
a imprensa tem muito poder não significa que na sua opinião seja
a instituição com maior poder.
Além disso, a questão crucial da confiabilidade só foi levantada
na comparação entre os órgãos de imprensa, não entre instituições.
Não ficou portanto excluída a hipótese de que as pessoas considerem
que a imprensa seja menos confiável do que a igreja, por exemplo,
ou de que faça mau uso do poder que tem, ou de que seu prestígio
seja imerecido.
Perda de independência
Não importa. O que esses números mostram, assim como os de faturamento,
é que jornais brasileiros, apesar de ruins ou por isso mesmo, vivem
fase de maré alta. Trata-se de um mercado (ainda) imune à tripla
infecção de globalização/downsizing/novas mídias. Nos Estados Unidos,
ela já tirou 800 mil leitores dos jornais, sempre segundo o "JB".
No caso brasileiro, muitos jornalistas temem por uma perda mais
preocupante _de credibilidade_ com a aceitação sem traumas da imprensa
no clube do "big business". A idéia é que as empresas de comunicação
perderiam a independência. Por exemplo, quando passam a negociar
direta e continuamente com as três vacas malditas do país (bancos,
empreiteiras e o Estado) para participar do festim da telefonia
celular.
Em outros palavras, estariam conspurcando o prestígio outorgado,
não deveriam continuar multiplicando o numerário que consumidores
e anunciantes põem nas suas mãos. Ora, ganhar dinheiro, mesmo do
grosso, não é pecado, nem existem párias intocáveis entre detentores
de capital.
O problema não é moral, mas estratégico. Ao menos no longo prazo,
órgãos de imprensa dependem de credibilidade para sobreviver. E
só um cego não vê riscos para ela nesse salto de patamar da imprensa.
O fato de que formadores de opinião dêem por certa a perda de independência
é sinal de que o processo de erosão já se iniciou.
Se vai terminar ou não numa voçoroca, é outra história. E é muito
cedo para dizer. O momento impõe vigilância sobre os meios de comunicação,
para verificar como se saem nessa situação inédita de conflito de
interesses. De um lado, o dever de informar, inclusive sobre os
bastidores e as manobras da privatização e das telecomunicações.
De outro, a necessidade empresarial de manter segredo sobre as transações.
Transparência é a saída
Só se conhece um instrumento para desatar o nó górdio, que é a espada
da transparência. Dar conhecimento ao leitor da existência desses
interesses, para que ele passe a desconfiar da qualidade da informação.
No caso da telefonia celular, a Folha noticiou com destaque,
desde o início, sua participação num consórcio para concorrer na
área de telefonia celular. Seus parceiros são uma das maiores e
portanto mais visadas empreiteiras (Odebrecht), o banco que assumiu
o Nacional sob o guarda-chuva generoso do Proer (Unibanco) e a empresa
norte-americana de serviços de telecomunicações Air Touch.
Mais recentemente, o jornal se viu na contingência de ter de relatar
e comentar decisões que podem afetar, ao menos teoricamente, os
interesses da empresa que o controla. Foi há duas semanas, quando
o ministro Sérgio Motta e o PFL se desentendiam quanto à regulamentação
da abertura dos mercados de telefonia celular e satélites para a
iniciativa privada. Em pauta, limites para a participação de capital
estrangeiro nos consórcios.
Nas críticas internas da edição, venho cobrando mais informações
da Folha sobre os bastidores da disputa.
Como leitor, quero saber a quem interessa _e por quê_ que se façam
restrições aos estrangeiros (posição defendida pelo ministro e pela
Folha, em editorial) ou não se façam (ponto de vista do PFL
e do jornal "O Estado de S.Paulo", que também participa de um consórcio).
Não preciso dizer que fiquei no ora-veja, por enquanto.
Em letras minúsculas, "Folha"
Propus ainda na crítica interna que o jornal adotasse, por via das
dúvidas, algum aviso-padrão sobre sua condição de interessado no
assunto, sempre que uma reportagem tratasse dele. Poderia ser um
box curto, mas com destaque, dizendo que a Folha considera
imprescindível lembrar ao leitor que o jornal está envolvido no
negócio (defendo também que editoriais sobre a questão citem obrigatoriamente
a situação da Folha).
Chegou a sair um quadro com todos os consórcios já formados. No
meio, em letras minúsculas, a Empresa Folha da Manhã S/A. Procedimento
semelhante foi seguido pelo "Estado".
É melhor que nada, mas insuficiente.
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