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São
Paulo, domingo, 02 de junho de
1996
MARCELO LEITE
Pode-se dizer o que quiser dos parlamentares de Brasília, mas eles
sabem das coisas. Vários caíram na risada, quarta-feira, quando
o presidente do BNDES, Luiz Carlos Mendonça de Barros, apontou a
Folha como jornal contrário às reformas propostas pelo governo
FHC. Mau sinal.
Por que riram? Poderiam só ter discordado. O riso, aqui, é indicativo
de que Mendonça de Barros não cometeu um erro, disse uma bobagem.
Qualquer leitor de jornais sabe que estes concordam em tudo que
é essencial no programa de FHC. Foi o que disse na minha primeira
coluna, em 2 de outubro de 1994 ("Pobre imprensa"), e repeti no
último dia de 1995 ("Os sete pecados capitais"). Continuo achando
que a imprensa brasileira é fernando-henriquista.
Por outro lado, abundam as manchetes negativas, do massacre de Eldorado
para cá. Da subitamente descoberta omissão na área social à venda
da Light para uma estatal francesa, tudo é motivo para dar pau no
Planalto. Até a Rede Globo decidiu lembrar no "Jornal Nacional"
que a mão do candidato FHC tinha cinco dedos.
Juros e câmbio
O paradoxo é aparente. Não há rompimento à vista entre FHC e o chamado
"establishment". É na impaciência com os rigores da contenção da
atividade econômica ou com a defasagem cambial que se devem procurar
as raízes adventícias de tanta combatividade empresarial. Basta
ver o caráter de campanha que a insistência na questão dos juros
adquiriu nos jornais.
Insistência não quer dizer capacidade de esclarecer. Com relação
ao fato mais importante da semana _sai Serra, entra Kandir_, os
jornais ofereceram um espetáculo de confusão.
A Folha chegou a publicar na mesma edição (30/5) textos com
interpretações opostas. Para um, Antonio Kandir é contra juros altos
e vai bater de frente com Pedro Malan. Para outro, o ministro da
Fazenda ganha um aliado. O leitor que se vire.
A imprensa parece menos interessada em desvendar o governo FHC do
que em influenciá-lo. Se possível, acuá-lo com essa contrafação
da soberania popular que são as pesquisas de popularidade. Para
tanto, pode ser útil fazer alarido só com o acessório, mantendo
inquestionado o essencial.
Acessório é, por exemplo, gastar tinta _colorida ou não_ com o saco
preto de não sei quem. Ou ainda, tratar como questão de Estado picuinhas
como o tamanho da comitiva ou a inclusão nela dos netos do presidente.
Não se trata de dizer que nada disso é notícia, mas de notar que
elas ocupam o lugar de coisas mais relevantes, que os jornais não
querem ou não conseguem mostrar.
Implicância com o MEC
Com frequência, esse superficialismo crítico assume a forma de viés
implicante, quase um mau humor. Vou dar um exemplo recente, que
nem é tão importante, mas representativo de uma queixa comum em
meio a entrevistados pela Folha.
Dia 24, o jornal publicou na pág. 3-4 da edição São Paulo/DF a reportagem
"MEC não vai recolher livros reprovados". Na pág. 3-3 da edição
Nacional, concluída 1h30min mais cedo, a mesma reportagem tinha
outro título: "MEC se recusa a divulgar lista de livros".
Procurado pelo ombudsman para opinar sobre a acuidade da reportagem,
o ministro Paulo Renato Souza soltou os cachorros. Qualificou o
trabalho como "inacreditável", pois exigia do ministério o impossível:
"Não tenho o poder mágico de transformar livros que já foram escolhidos
em junho de 95. São 110 milhões de livros. O dever do jornal é ser
realista".
Paulo Renato tem motivos para estar com os nervos à flor da pele,
nessa história dos erros em livros didáticos. Abriu uma caixa de
Pandora e parece não saber o que fazer com ela. Não divulgou ainda
a lista dos livros defeituosos, providência mais do que devida à
opinião pública por ele mesmo alertada.
Dito isto, e posto entre parênteses, não é difícil ver que a reportagem,
em particular na sua versão para paulistanos, pega no pé do ministro.
No antepenúltimo parágrafo, justamente de onde saiu o segundo título,
dizia:
"Apesar de ainda faltarem seis meses para o fim do ano letivo, o
MEC afirma não ter como retirar de circulação os livros que foram
distribuídos no ano passado."
Ao menos logicamente, está implícito aí que era possível, sim, fazer
o recolhimento dos livros. Foi o que ponderei à Redação, depois
de falar com Paulo Renato: "Se o jornal não tem argumento para contrapor
ao ministro, neste aspecto, acho difícil de sustentar a crítica
implícita no título" (o da edição SP/DF).
"Aspas literais"
As respostas que recebi da Redação foram evasivas. A repórter Daniela
Falcão se escudou no mito da objetividade perfeita ("a fonte foi
o próprio MEC"; "as aspas do ministro são literais"), como se jornalistas
não tivessem intenções ao escrever e toda edição fosse inocente.
Sobre a frase criticada, ofereceu lição de moral:
"Isso é um fato e o leitor merece saber. Não há motivos para esconder
da população que os livros com problemas estão nas escolas e ficarão
até o fim de 96. Tal informação pode até ajudar os professores no
sentido de que fiquem mais atentos para detectar e corrigir eventuais
falhas."
O editor Vaguinaldo Marinheiro seguiu o mesmo diapasão: "A matéria
não é negativa nem positiva. É informativa, como deve ser". Disse
mais: "Se não é possível recolher os livros com problemas, é muito
possível confeccionar erratas e distribuí-las às escolas ou, mais
barato ainda, publicar os nomes dos livros com problemas, quais
os erros encontrados e a correção".
As explicações seriam boas se a reportagem tivesse falado de erratas
ou orientação aos professores. Não falou. Falou de recolher livros.
É um detalhe, mas justamente por isso a Redação poderia admitir
que avançou o sinal, só para tornar a reportagem ainda mais crítica
do que já era.
De um imperativo, a crítica vem sendo rebaixada à condição de mania,
na Folha.
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