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São
Paulo, domingo, 9 de junho de
1996
MARCELO LEITE
A campanha
eleitoral para a Prefeitura de São Paulo já está nas ruas _e nos
jornais. O fato novo das últimas semanas foi a tardia definição
do candidato tucano José Serra. Como era de esperar, foi o que mais
apareceu nas páginas dos diários. Está na hora de o leitor começar
a conferir se ele _ou qualquer outro_ não está aparecendo demais.
Em alguma situações, o tucano pode até aparecer de menos. Foi o
que aconteceu na Folha de quarta-feira passada.
A passagem do bastão de ministro do Planejamento para Antonio Kandir
transformou-se num comício de Serra, em que o presidente da República
fez as vezes de cabo eleitoral. O evento foi descrito como tal na
capa dos jornais do Rio, ''O Globo'' e ''Jornal do Brasil''. Na
pág. 1-6 da Folha, a mesma interpretação: ''Posse de Kandir
vira palanque de Serra''.
A conversa da primeira página era bem outra. Na sua vitrine, o jornal
escolheu destacar uma passagem do discurso de Fernando Henrique
Cardoso: ''FHC diz que é preciso introjetar Deus''. Palavras sem
dúvida expressivas, mas laterais.
É uma velha mania da Folha, pôr a informação anedótica no
lugar da informação relevante. Que chama a atenção, lá isso chama.
Esquizofrenia
Admita-se, para efeito de raciocínio, que essa ordem de prioridades
_chamar a atenção, depois informar_ seja legítima. Ainda assim,
a Primeira Página deveria ter pelo menos algum eco do tom crítico
do título interno. Uma frase que fosse, sobre o caráter eleitoral
da cena no Palácio do Planalto. Nada.
É por essas e por outras que a Folha tem fama de ser um jornal
esquizofrênico. A comparação no sentido inverso, capa-miolo, reforça
a hipótese. A passagem sobre a introjeção de Deus, tão fundamental
que ganhou quatro colunas na capa, é quase invisível na pág. 1-6.
Não foi destacada em nenhum título ou sobretítulo.
Pode ter sido mera descoordenação entre os editores da Primeira
e do caderno Brasil, algo mais frequente do que se imagina. Alguns
leitores entenderão, porém, que foi uma maneira de proteger Serra
(o que seria pouco inteligente, porque o titulão interno não deixa
dúvidas sobre a disposição do jornal para criticá-lo).
Não foi a única vez que o candidato tucano esteve em evidência no
jornal, esta semana. Na terça-feira, ele tinha sido agraciado com
mais de meia página de entrevista ''pingue-pongue'' (perguntas e
respostas).
Questões incisivas, ainda que por demais concentradas em temas macroeconômicos
(desemprego, Proer, privatização), e muitas respostas evasivas.
Foram 107 cm de texto, contra 36 cm do último pingue-pongue com
Luiza Erundina, publicado em 22 de abril, e 33 cm para Francisco
Rossi (mesma data).
Acordos não-publicáveis
Na segunda-feira, o alto-falante tinha sido posto nas mãos da velha
guarda tucana. O deputado Franco Montoro teve os dois terços de
página da Entrevista da 2ª para explicar como tinha convencido Serra
a largar o osso duro de roer do Planejamento. Pontificou também
sobre por que ele (Montoro) considerava que o acordo PFL-PPB em
São Paulo não era ''publicável''.
Não bastasse isso, Montoro ainda ganhou quase um quarto do Painel
do Leitor (seção de cartas) para desfiar o rol de qualidades do
seu ungido. Numa mesma edição, e apenas duas páginas antes da entrevista,
era demais, como anotei na crítica interna.
Faço estas constatações para mostrar que as opções editoriais eram
questionáveis já do ponto de vista jornalístico. Seria prematuro
afirmar que a onipresença de Serra representa um viés a seu favor.
É inegável que foi no seu quintal que se produziram as notícias
da semana.
Por outro lado, também é fato que os dois primeiros colocados nas
últimas pesquisas de intenção de voto do Datafolha, Luiza Erundina
e Francisco Rossi, andam desaparecidos dos jornais (uma exceção
foi a entrevista de página inteira que ''O Estado de S.Paulo'' dedicou
a Rossi na sexta-feira).
Corrida de cavalos
Rossi e Erundina devem estar na muda, esperando a poeira baixar,
ou a próxima pesquisa Datafolha. Quando esta sair, vão fazer de
tudo para ocupar espaço, na Folha e em outros jornais, proporcional
a seu peso político-eleitoral aferido nesses simulacros estatísticos
da vontade geral.
Com toda a razão. Afinal, foram os próprios jornais que inventaram
de transformar campanhas eleitorais em corridas de cavalos (quem
está na frente de quem). E a cavalo pesquisado, como se sabe, não
se olham dos dentes.
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02/06/1996 - Manhas
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