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| Os
extremos da tragédia |
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São
Paulo, domingo, 16 de junho de
1996
MARCELO LEITE
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Rodney
Suguita /Folha Imagem
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| Na
quinta, 13 de junho, esta foi a principal foto da Primeira Página |
Como leitor, a
segunda fotografia à direita não me sai da cabeça. Como ombudsman,
a primeira é que se torna difícil de esquecer. Este par de imagens
publicadas na Primeira Página, com apenas 24 horas de intervalo entre
elas, é um retrato fiel dos extremos de qualidade que o jornalisno
da Folha pode alcançar.
O retrato do bebê Bruno realizado pelo fotógrafo Eduardo Knapp, com
o pai
Reginaldo
Pereira da Silva, é perfeita (nos limites da perfeição que a escala
humana permite). Sem a histeria nem o sangue de tantas outras imagens
daqueles dias terríveis, pegajosos, ela vitrifica uma dor silenciosa
e perplexa. É fotojornalismo em estado de excelência.
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Eduardo
Knapp/Folha Imagem
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| Fotografia
publicada na capa da Folha de quarta-feira, 12 de junho |
Outro grande mérito
seu foi redimir o constrangimento do dia anterior. Quando todos os
leitores aguardavam drama e detalhes, a Folha lhes serviu ironia.
Uma ironia canhestra, fora de hora, que pôs em evidência não a agonia,
a destruição ou o salvamento, mas uma placa: "Prezado Cliente _ O
objetivo de nossa tarifa de segurança é dar mais conforto e tranquilidade
aos nossos usuários".
Melhor
dizendo, a edição dessa imagem evidencia a própria intenção de registrá-la
e publicá-la, não o que aparece na sua superfície e a legenda pseudo-ingenuamente
relata ("Soldado do Exército passa por placa..."). É o fotógrafo e
é o editor que se vê na foto, não o soldado, mero pretexto para a
"sacada" do jornalista. Sem este, como todos deveriam saber, não há
notícias...
Mau gosto
Vão dizer que é formalismo ou detalhismo, que foi um deslize sem maior
importância, que estou procurando pêlo em casca de ovo. Antes fosse.
Não, é o demônio de toda uma cultura jornalística que espreita nesses
detalhes, quando eles são projetados artificiosamente para o centro
das atenções.
Qualquer pessoa vê que a placa não tem nada a ver com a explosão,
muito menos o estacionamento. Não é a placa que está na foto, mas
a foto que está na placa. Por um único e fútil motivo: a palavra "segurança".
Para quem duvida de que se trata de um padrão que pipoca aqui e ali
na Folha, continuamente, cito dois títulos da mesma cobertura
que se destacaram mais pelo próprio mau gosto do que pela notícia
que deveriam sintetizar, ambos de quinta-feira: "Curioso aumenta 'quórum'
em cemitério"; "Noite teve pizza e desespero".
Não dá para engolir esse "quórum", muito menos a pizza com desespero.
Ficaria mais fácil se a Folha tivesse apresentado paralelamente
um bom desempenho informativo. Não foi o caso.
Se o jornal se permite ser espirituoso diante de uma tragédia como
a de Osasco, só se pode concluir que piadinhas sobre as hemorróidas
de Antonio Kandir são mesmo pouca porcaria.
Hemorróidas
Ao ombudsman não compete criticar a opinião de colunistas. A matéria-prima
de meu trabalho é o noticiário, o conteúdo informativo do jornal.
Se este fugir dos padrões que a própria Folha se impôs _ser
pluralista, crítica e apartidária_, chio mesmo. Não é problema do
ombudsman, assim, se um colunista do jornal é contra ou a favor do
ministro Kandir. Mas repare no que a Folha publicou na edição
da última quarta-feira, à pág. 3-2, sob o título fogoso de "Pimenta
no dos outros":
"O ministro Kandir teve problema de hemorróidas? Sinto muito por ele,
mas já era hora de alguém no governo experimentar a mesma sensação
que o pagador de impostos está acostumado a sentir".
De novo, esclareço que não estou a fim de abrir polêmica com este
ou aquele colunista. Sai todo tipo de barbaridades nas colunas da
Folha e sou o primeiro a defendê-las diante dos leitores que
ligam, irritados (melhor dizendo, o primeiro a defender a liberdade
de expressão dos que as escrevem).
Isso não impede, porém, que questione o próprio jornal. Se a fronteira
entre bom gosto e mau gosto é difícil de traçar de antemão, torna-se
fácil reconhecer quando foi ultrapassada. E não é verdade que não
deva existir. Até para o relativismo tem de haver um limite, sem o
qual se resvala para o cinismo.
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