|


O que é o cargo
Fale com a
Ombudsman
Mural
Colunas
Anteriores
FiloFolha
Dúvidas mais
Frequentes
Bate-papo
|
 |
| Chapas
brancas e chapas negras |
 |
|
São
Paulo, domingo, 23 de junho de
1996
MARCELO LEITE
Otimismo e pessimismo são muito relativos, ainda mais num ano eleitoral.
O governo federal abandonou o refrão da estabilidade ameaçada pela
falta de reformas e agora bate mais na tecla da retomada econômica,
sem soar tão ridículo quanto há seis meses. A greve, se era para
ser geral, fracassou. Até os economistas concordam em que o segundo
semestre será de alívio.
Sem dúvida está diminuindo a oferta de negativismo na praça. Meios
de comunicação e jornalistas, desorientados nesse lusco-fusco, só
têm olhos para si mesmos. Batem boca, acusando-se mutuamente por
excesso de otimismo ("chapas brancas") ou de pessimismo ("chapas
negras").
A temperatura aumenta, surgem cortinas de fumaça, ninguém enxerga
nada com clareza. Não se sabe se os sinais de reaquecimento resultam
de liberalidade eleitoral do governo FHC ou de processo mais profundo
de ajuste da economia, início de um ciclo auto-sustentável. A imprensa
não informa, ocupada com o cordão umbilical que a liga à placenta
do Planalto. Para o bem ou para o mal.
A Folha, por exemplo, foi acusada no programa "Bom Dia Brasil",
da Rede Globo, esta semana, de ser cronicamente pessimista. Motivos:
o tom negativista da notícia de terça-feira sobre estudo da ONU
avaliando desenvolvimento humano no Brasil e da manchete do mesmo
dia, "Cesta básica bate recorde no Real". Um dos expletivos empregados
foi "espírito de porco".
O jornal retrucou com notas na seção Painel de quinta-feira. Disse
que a Globo e o governo continuavam "afinadíssimos", pois o ministro
Clóvis Carvalho (Gabinete Civil) fizera críticas no mesmo tom. É
difícil dizer quem tem menos razão.
Copo vazio, copo cheio
Governismo e otimismo não rimam com jornalismo. Não se questiona
o direito da Globo de privilegiar aspectos positivos da economia
sob FHC, como faz também "O Estado de S.Paulo". A própria Folha
não esteve longe disso, na fase política e economicamente mais rentável
do Real, ainda que com maior propensão a pegar no pé dos tucanos
(mais no acessório que no essencial, já escrevi).
Noves fora, ainda é melhor para a opinião pública ter jornais mais
empenhados em revelar do que em relevar. Se não houvesse outra saída,
só arengar que o copo está meio cheio (chapas brancas) ou meio vazio
(chapas negras), seria preferível ter jornais repetindo a ladainha
do copo vazio, para contrabalançar a reza brava do governo.
O caso é que há uma alternativa, muito negligenciada pela imprensa
nacional: medir, efetivamente, quanto há de líquido no copo do Brasil.
Não é fácil. A tarefa costuma fracassar já na calibragem dos instrumentos.
A Folha, por exemplo. Não foi só o "Bom Dia Brasil" que criticou
aquela manchete de terça-feira sobre a cesta básica. Seu ombudsman
também o fez, na crítica interna da edição, sem saber ainda do patrulhamento
global:
"Manchete da Folha é um exagero (...). Tecnicamente correta, mas
jornalisticamente superdimensionada, na linha do pessimismo. Basta
comparar o aumento de 5,42% com a inflação _algo básico, que o jornal
deixou de fazer_ para constatar que o saldo é favorável mesmo para
os pobres.
"Essa opção preferencial pelo pessimismo pode até ser a correta,
mas deve apoiar-se em fatos. Ficou ainda mais acentuada com a manchete
do 'Estado': 'Mais setores aceleram crescimento'.
" Brasil pior X 3 "brasis"
No caso do estudo da ONU, a própria Folha parece ter-se arrependido
do enfoque inicial. Pelo menos, alterou-o drasticamente entre a
edição Nacional concluída às 20h30 e a São Paulo/DF (22h).
No primeiro caso, trata-se de exemplares enviados para fora da capital
(inclusive ao Rio, sede da Globo). O título da pág. 1-6 era bem
negativo, como de hábito quando se noticiam relatórios internacionais:
"Situação do Brasil piorou, aponta ONU".
A mesma pág. 1-6, hora e meia depois, era mais neutra, descritiva.
E também mais iluminadora: "ONU revela a existência de três 'brasis'".
O texto foi reescrito, da cabeça ao pé. Ganharam destaque as informações
realmente inovadoras sobre a paisagem socioeconômica do país. Para
encurtar: a Globo atirou no que viu e acertou no que não viu.
A Folha se discute e se corrige, com rapidez desconcertante.
Pode-se acusar seu pessimismo de errático, volúvel, ciclotímico
até, mas não de obeso. Monolitismo, governista ou otimista, descreve
melhor seus concorrentes.
Leia mais
Na ponta da linha
Colunas
anteriores
16/06/1996
- Os extremos da tragédia
09/06/1996 -
Subindo a Serra
02/06/1996 - Manhas e manias
26/05/1996 - Conflito de interesses
19/05/1996 - Questões de sobrevivência
subir

|
|
|