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São
Paulo, domingo, 11 de agosto de
1996
MARCELO LEITE
Cinco
semanas afastado do acompanhamento diário dos jornais provocam um
choque, na volta das férias. Eles são espantosamente superficiais.
Isso fica evidente em relação às eleições municipais: a menos de
oito semanas do certame, quase nada se sabe ou se discute de substancial
sobre o destino das inabitáveis metrópoles brasileiras.
Escrevi ''certame'', e não ''pleito'', porque a julgar pela imprensa
se trata de um concurso, não de expressão da vontade geral pelo
voto. Fulano está na frente, sicrana tem alto índice de rejeição,
x respondeu ontem na TV ao que y disse anteontem na TV, a mulher
de beltrano é a mais prendada etc. Colunistas deblateram, graves,
contra o predomínio do marketing, mas nada muda.
Mesmo as propostas e realizações contam como produtos, valem seu
peso em eficácia comunicativa e não pela melhora real e durável
na qualidade de vida da população que ensejem. Já se foi o tempo
em que jornais e revistas combatiam essa tendência para a transformação
de eleições exclusivamente em espetáculo (algo que elas também são,
não há como negar). Hoje eles se assemelham mais a uma peça importante
dessa engrenagem.
Em outras palavras, são veículos de mistificação política e não
de esclarecimento. Sim, esclarecimento, o velho ideal do Iluminismo.
Reconhecer suas vicissitudes nos tempos de hoje não autoriza jornalistas
a abrir mão dessa idéia reguladora. Jornais são inúteis sem ela.
PAS e Cingapura
Em São Paulo, pelo menos, o jornalismo parece ter renunciado a influenciar
a agenda eleitoral, anexando-lhe temas reais de política urbana.
Recebeu e parece contentar-se com o prato feito cozinhado pelo prefeito
Paulo Maluf: PAS e Cingapura. Tudo nessa campanha para as retinas
gira em torno desses ovos de Colombo sociais. É pobreza demais.
Por cálculo mais publicitário do que político, mesmo quem é contra
as criaturas malufianas não as critica frontalmente, diz que vai
melhorá-las. Até o PT tem seu Cingapura, na proposta de renda mínima.
Todos são a favor.
Pelo visto, é a essa modorra insuportável que se resume a tão propalada
morte das ideologias. Não é certamente original falar da geléia
geral em que se transformou a eleição paulistana, mas essa constatação
sempre é feita em tom fatalista, conformado.
Como se a responsabilidade por esse estado de coisas fosse só dos
candidatos e suas maravilhosas máquinas publicitárias.
Menos um ombudsman
O ombudsmanato de imprensa no Brasil acaba de ter uma de suas poucas
vagas fechada. Foi na ''Folha da Tarde'', diário editado pelo mesmo
grupo da Folha. Encerrado o mandato de meu vizinho Antenor
Braido, a vaga não será preenchida, conforme foi anunciado na edição
da ''FT'' do último dia 29.
Depois de cinco anos, interrompe-se assim a experiência na ''FT'',
mesmo tendo sido considerada ''muito positiva'' pela direção do
jornal (a razão apresentada pela empresa foi a mesma de alguns jornais
dos Estados Unidos, onde a função é bem mais difundida: contenção
de despesas). Na Folha, que introduziu a figura do ombudsman
no Brasil, ela continua.
Na roda
Ao menos em São Paulo, todos parecem ainda atordoados com o misto
de sucesso e fracasso do rodízio de carros. Num dos maiores experimentos
urbanos do mundo, o poder público conseguiu tirar das ruas cinco
ou seis centenas de milhares de carros (20% da frota), a cada dia.
Mas foi também a semana mais poluída do ano.
Há muita coisa por explicar, é evidente. Não tanto sobre a adesão
à medida, obtida com o tacão das multas (outro legado malufiano),
mas no resultado paradoxal. Os jornais mal começaram a fazê-lo,
despreparados que estavam para algo diverso do mecanicismo clássico
da causa e do efeito (tiram-se os carros, diminui a poluição).
A química da atmosfera urbana é infernalmente complexa. O governo
estadual tucano deu sua contribuição para complicar ainda mais as
equações, deixando de fora do rodízio caminhões e ônibus, geralmente
movidos a diesel. Ninguém sabe avaliar quanto aumentou o número
de viagens por carro. É uma senhora confusão. O único consenso é
que o trânsito melhorou (o que já não é pouco).
Até que a imprensa consiga auxílio técnico para descobrir o caminho
físico-químico das pedras, prevalecerá a explicação oficial de que
condições meteorológicas adversas (falta de ventos e de chuvas)
respondem sozinhas pela piora da poluição. Pode até ser. Mas é dos
jornais e dos cientistas que os aflitos leitores paulistanos querem
ouvir essa conclusão.
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