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São
Paulo, domingo, 18 de agosto de
1996
MARCELO LEITE
Já se
disse que a função do jornalismo é dissolver unanimidades. Existe
porém outra função, não menos nobre mas oposta, que é desatar o
nó górdio de alguns debates públicos estéreis.
Infelizmente, os jornalistas hesitam demais em fazer uso da espada.
(Na verdade, seria mais adequada a imagem de uma serra ou de uma
lima, para acentuar o imperativo da persistência, nesta profissão.)
É o que pretendo mostrar a partir de dois casos: a investigação
da morte de PC Farias e a suposta onda de violência em São Paulo.
Sanguinetti x Badan
Na disputa de vedetes que se criou com a divulgação do laudo do
legista Fortunato Badan Palhares, em primeira mão, pela revista
"Veja", parece que os jornalistas ficaram do lado do perito alagoano
George Sanguinetti. Ele é o maior esteio de todos os que não aceitam
a versão de homicídio seguido de suicídio.
Sem Sanguinetti, o mistério PC morre de morte natural. Ele é o único
com ousadia para continuar no jogo alto de Badan Palhares, e parece
ter alguns trunfos _não muitos_ na mão. Foi o que transpareceu da
entrevista-acareação entre os dois legistas publicada quinta-feira
no jornal "O Estado de S.Paulo" (outro furo invejável).
É uma pena que Sanguinetti tenha "piscado", como se diz na gíria
do pôquer. No final do debate na sede do "Estado", dirigiu esta
frase reveladora a Badan: "Tudo isso poderia ter sido evitado se
o senhor tivesse me convidado para trabalhar no caso".
Os jornalistas, por seu lado, não têm sido felizes como coadjuvantes
de Sanguinetti. Na segunda-feira, durante o programa "Roda Viva",
Badan, o polêmico perito da Unicamp, até que se saiu bem do bombardeio
cerrado. O clima estava impregnado por uma reportagem-denúncia da
revista "IstoÉ", que apostou sua própria credibilidade numa "versão
campineira da farsa alagoana". Badan disparou contra ela e para
todos os lados com a arma que deveria estar na mão dos repórteres:
conhecimento minucioso do laudo.
É fundamental, para a opinião pública brasileira (se é que isso
existe), que jornalistas questionem o laudo de Badan. Mas não basta
juntar meia dúzia de objeções pontuais a seu trabalho, assopradas
por especialistas alijados do palco. É preciso ver se algum deles
está minimamente próximo de uma reconstituição alternativa coerente,
ou se apenas acrescentam um grão de sal ao caldo ralo da teoria
da conspiração.
Não se deve descartar de antemão que isso possa ter ocorrido. No
entanto, é errado que jornalistas se convençam a priori de que as
mortes resultaram de um complô. É algo fantasioso acreditar que
dezenas de envolvidos _dos seguranças de PC ao impassível Badan_
estejam mancomunados com um gênio do mal a controlar os fantoches
_a partir da Flórida, talvez? Nunca se sabe.
Falta investigação jornalística digna do nome. Seria bom começar
tentando explicar a facilidade com que legistas de renome se prestam
a atacar o autor do laudo, como faz seu ex-colega de Unicamp Nelson
Massini ("conheço a cobra que criei", disse ele a "O Estado de S.Paulo").
A própria biografia de Badan e sua atuação em outros casos de conotação
política podem dar boas pistas.
Na ausência disso, o público continua no seu estado normal _confusão,
como bem diagnosticou o leitor Luiz Carlos Mendonça em carta ao
ombudsman:
"Eis que no contexto babélico então formado surgiu a figura carismática
e espirituosa do doutor Sanguinetti, dotado de conhecimento técnico
e bom comunicador, dizendo aquilo que os jornalistas e a maioria
da população estavam querendo ouvir. Pronto, juntou-se a fome com
a vontade de comer e o legista alagoano transformou-se, instantaneamente,
em celebridade nacional."
Foi esse, com efeito, o resultado prático do fraco desempenho jornalístico
em torno do caso PC: mais uma personalidade e nenhuma verdade confiável.
Vítimas x d. Paulo
Bastou a concentração fortuita de alguns crimes estupidamente violentos
envolvendo a classe média paulistana para eclodir um movimento logo
batizado de Reage São Paulo. A iniciativa generosa partiu de familiares
das vítimas, mas veio acompanhada de algumas vozes nada pacificadoras.
Para muita gente em São Paulo, a culpa cabe ao arcebispo da cidade,
d. Paulo Evaristo Arns. Ele é identificado como o cérebro de uma
outra conspiração, que defenderia "só os direitos humanos dos bandidos".
Isso equivale a dizer que o problema só se resolve com a pena de
morte. De preferência, aplicada na rua mesmo pela Polícia Militar.
Há muitas pessoas de classe média nostálgicas da Rota, mas elas
se esquecem da mobilização há 20 anos contra o reinado dessa unidade-símbolo
da truculência, quando andou executando alguns filhos dessa mesma
classe média.
A obtusidade do argumento não impediu o próprio prefeito Paulo Maluf
de proferir variantes dele (ainda que, de meu conhecimento, não
tenha mencionado o cardeal). Desculpável apenas na boca de quem
perdeu um familiar, essa besteira torna-se um verdadeiro delito
de lesa-cidadania quando serve ao mero oportunismo eleitoral.
Na minha opinião, deveria ser condenado com veemência pela imprensa.
É o tipo da situação em que não basta acomodar-se na contraposição
de declarações bombásticas. Mesmo que se conceba a política e o
espaço público atuais como um teatro, um jogo vertiginoso de palavras
e imagens, é preciso alertar: quando campeiam sentimentos regressivos
como o de vingança, corre-se o risco de ver triunfar a bestialidade,
mais eficaz nesse domínio, e não a razão.
A Folha traz hoje em sua capa um editorial sobre a questão
da violência urbana. Por sua tradição, será certamente um texto
tolerante, equilibrado, destinado a produzir mais luz do que calor.
Fica aqui um cumprimento antecipado pela tomada de posição e votos
de que ela frutifique em muitas reportagens e outros editoriais,
para esclarecimento dos leitores.
Mais um
A comunidade de advogados do público ganha mais um membro em São
Paulo, e num veículo em que não conta com nenhum representante no
mundo, segundo a Organização de Ombudsmans de Imprensa: o rádio.
A emissora Bandeirantes AM, em que predomina a programação jornalística,
escolheu o jornalista Marco Barrero, 43, para a função.
Boa sorte.
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