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São
Paulo, domingo, 25 de agosto de
1996
MARCELO LEITE
Fosse uma eleição disputada, talvez caísse uma chuva de protestos.
Com o clima de ascensão letárgico-meteórica do candidato malufista
Celso Pitta em São Paulo, poucos leitores se abalaram a questionar
duas manchetes recentes da Folha: a de quinta-feira (22/8), "Rossi
cai e Pitta amplia vantagem", criticada por três pessoas; e a do
dia 10, "Pitta ultrapassa Erundina em SP" (um leitor).
Como tudo que se produziu nas pesquisas de intenção de voto este
mês, esses títulos são obviamente positivos para o candidato da
situação. Eles representam no entanto uma interpretação dos resultados
sujeita a dúvida, por causa da famosa "margem de erro" das pesquisas.
(Famosa, diga-se, porque a Folha tratou de popularizá-la,
quando bancou outras manchetes-pesquisa ousadas e abriu os argumentos
estatísticos em que se alicerçava.)
No primeiro caso, o "amplia vantagem" atribuído a Pitta resumiu
um crescimento de apenas dois pontos percentuais (de 35% para 37%).
Ocorre que a margem de erro, mencionada no texto da capa, era exatamente
essa: dois pontos, para cima ou para baixo. Outro crescimento da
mesma ordem foi omitido no título, o de José Serra (de 9% para 11%).
Doze dias antes, quando a pesquisa captou a mudança de liderança
no páreo (a isso se reduziu a democracia pelo voto), ocorreu problema
semelhante. Pitta apareceu pela primeira vez acima, com 29%, contra
24% de Erundina. Mas a própria chamada informava:
"A liderança de Pitta ocorre dentro da margem de erro: três pontos
percentuais para cima ou para baixo. Assim, ele e Erundina poderiam
estar empatados na faixa de 26% e 27%."
É importante lembrar que essa manchete, simultânea à do concorrente
"O Estado de S.Paulo" (Ibope), teve grande impacto simbólico. Àquela
altura, ainda não se sabia que o malufista alcançaria os 43% que
podem lhe dar a vitória no primeiro turno.
Curva ascendente
Questionei na crítica interna do dia que a menção à margem técnica
não combinava com o verbo categórico do título, "ultrapassa". Passaram-se
alguns dias e acabou chegando uma justificativa da Secretaria de
Redação (SR): apesar da margem de erro, fora levada em conta também
a tendência dos candidatos. Podia-se falar em ultrapassagem porque
Pitta tinha trajetória ascendente e Erundina, descendente.
Ao reproduzir a resposta da SR na crítica interna, terça-feira (20/8),
comentei: "Se a questão foi discutida com os técnicos do Datafolha,
dou a mão à palmatória, mas acho que o conteúdo dessa discussão
deve chegar também ao leitor, por iniciativa da própria Redação".
Nada de semelhante apareceu no jornal dois dias depois, quando Pitta
"ampliou vantagem". O mesmo raciocínio da curva ascendente se aplicava
à nova conclusão, mas a Folha não se deu ao trabalho de abrir
o jogo com seus leitores. Isso apesar de já haver uma discussão
interna sobre o problema.
O jornal de ontem trouxe enfim um texto abrindo a caixa-preta da
estatística, como se diz. Uma providência imprescindível para manter
intacta sua própria credibilidade. Da estatística e do jornal.
Meteorologia também
Outro caso que se arrastou durante meses é igualmente ilustrativo
da importância dos detalhes estatísticos. Diz respeito à previsão
do tempo, mais relevante para muita gente do que o espetáculo das
eleições. Enchentes matam, mas o furacão Pitta só levanta poeira
publicitária.
Começou com uma carta do pesquisador Alberto Setzer de 24 de outubro
de 1995, apontando falhas na previsão do tempo publicada pela Folha
quatro dias antes. O que era para ter sido chuva fraca virou temporal
com granizo em 24 cidades de São Paulo e Paraná. Houve até uma morte.
Setzer perguntava se o jornal não deveria publicar na sua página
Atmosfera uma explicação sobre o grau de falibilidade das previsões.
A Redação respondeu inicialmente que ele tinha se enganado com relação
às datas, resposta esta que Setzer só recebeu em maio de 1996, por
causa de longa permanência sua no exterior.
Esta semana, enfim, o caso foi encerrado _dez meses depois. Resumindo,
a editoria de Cidades informou que as falhas apontadas não conflitavam
com a margem de acerto definida pelo Centro de Previsões do Tempo
e Estudos Climáticos para sua previsão de quatro dias (que a Folha
passou a publicar em 4 de outubro de 1995).
Ela é de 90% nas primeiras 24 horas (contra 60% da previsão até
então publicada) e de 60% a 70% nos dias seguintes.
Sobre a hipótese de incluir na página essas explicações, o editor
Vaguinaldo Marinheiro escreveu: "Acho que não é necessário publicar
um aviso sobre a falibilidade da previsão do tempo, por ser óbvio".
Óbvia, na minha opinião, é a fragilidade do argumento. Não se trata
de avisar da falibilidade, mas de determiná-la: é tanto. Para que
o leitor possa avaliar até onde deve acreditar em mais essa verdade
contingente, provisória e mutante que o jornal lhe oferece todos
os dias.
Mais erros
Há no escritório do ombudsman dezenas de casos sem resposta de leitores
que apontaram possíveis erros de informação na Folha. Pelo
menos dez datam ainda de junho e julho. O prazo acordado com a Redação
para esse tipo de manifestação é de dois dias úteis.
Eis alguns dos que têm mais de um mês:
* Rui Carlos Peruquetti, da Universidade Federal de Viçosa, disse
que reportagem de 23/6 errou ao chamar o barbeiro (vetor da doença
de Chagas) de mosquito, pois se trata de um percevejo;
* Ricardo Monteiro, gerente de Qualidade, apontou provável erro
de tradução num texto do caderno Mais!, do mesmo 23/6, que explicava
que "uma liga vale três milhas" (légua, em inglês "league");
* Nelson Brilhante, de Manaus, alertou para legenda no caderno Turismo
de 15/7, "Participante da festa faz últimos reparos em um dos carros
alegóricos", quando "na verdade, a foto mostra a evolução de uma
alegoria, durante a apresentação do boi".
Há outros, mas falta espaço para registrar. E falta cultivar mais
na Redação a noção de que jornalismo é uma atividade pública e jornalistas,
portanto, também devem satisfações ao público.
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