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São
Paulo, domingo, 01 de setembro de
1996
MARCELO LEITE
A melhor coisa que poderia ter acontecido com o julgamento dos acusados
pela morte de Daniella Perez foi seu adiamento. Era assustador o
consenso que se formava na massa _não no público_ a favor da condenação
de Guilherme de Pádua e Paula Thomaz. A imprensa, renunciando à
missão de esclarecer, esfregava as mãos com ''o show'', como foi
batizado por uma revista.
O adiamento pôs água fria nessa fervura. No mesmo dia saiu a segunda
melhor notícia do caso: a TV, onde militavam dois dos atores do
triângulo que terminou na morte absurda, foi banida do tribunal.
Um sinal de que a Justiça nem sempre se rende à pressão da ''mídia''
(neste caso, uma boa palavra, bem comercial). Não colou a conversa
de ''direito à informação'' ou ''clamor público''.
A semana trouxe ainda uma terceira boa notícia para leitores de
jornal, ainda que os familiares da vítima possam discordar. Rompeu-se
a frente única espetacular e apareceram as primeiras reportagens
_Folha à frente_ questionando se tanto barulho tinha alguma
coisa a ver com um julgamento justo.
Todo o formalismo da Justiça, que tanto irrita vítimas e pessoas
tomadas de pânico cívico, tem como objetivo proteger os direitos
dos réus. Justiça não é vingança, retaliação (ao menos na cultura
jurídica ''ocidental''). É o menos imperfeito e o mais civilizado
dos meios para lidar com a violência e a transgressão sem cometer
outras atrocidades, só que em nome da sociedade.
A imprensa não pode perder de vista esse horizonte. Como ramo da
indústria cultural, não pode por certo ignorar a curiosidade da
massa, mas tem de servir no mesmo prato também o biscoito fino da
consciência jurídica. Foi na Folha que encontrei os melhores
exemplos desse jornalismo menos sensacional e mais sensato.
Imparcialidade do júri
Na quarta-feira, a pág. 3-5 da edição São Paulo/DF foi aberta com
um título até certo ponto óbvio: ''Pressão pode afetar a imparcialidade
do júri''. Quatro criminalistas ouvidos pelo jornal concordaram
em que o julgamento corria ''o risco de não ser imparcial por causa
da intensa mobilização pública em favor da condenação''.
Não chegava a ser um mea-culpa. Para explicar ''pressão'', aludia-se
a ''mobilizações públicas pró-condenação''. Quando Pádua falou em
''massacre da mídia'', o jornal distanciou-se com aspas e o adjetivo-coringa
''suposto''. Mas o recado estava dado.
Não se trata de tomar partido a favor dos réus, mas de não tomar
partido contra eles. É importante assinalar que a Folha não
deixou de noticiar a utilidade do adiamento nem da exclusão da TV
para a defesa de Pádua e Thomaz.
Responder em liberdade
O segundo texto da Folha digno de nota saiu com menos destaque
na pág. 3-4 da edição São Paulo/DF de quinta-feira. O título, cuidadoso,
dizia que ''Acusados poderiam estar em liberdade'' (na realidade,
deveriam). Aqui, também, a constatação era óbvia: Pádua e Thomaz
recebem um tratamento incomumente duro da Justiça. Réus primários,
estão presos há três anos e oito meses _''num país onde há cerca
de 15 mil homicidas soltos, aguardando julgamento em liberdade'',
dizia o texto da colaboradora Eunice Nunes.
''A grande ilegalidade nesse processo é a prisão cautelar de quase
quatro anos'', resumiu o criminalista Maurides Ribeiro. Reportagens
como essas seriam improváveis, por exemplo, no jornal fluminense
''O Globo''. O braço gráfico das Organizações Globo não esconde
seu interesse no caso, levando-o à manchete por dias seguidos.
No domingo passado, recorreu à hipérbole: ''Julgamento da morte
de Daniella mobiliza o Rio''. Na segunda, montou ligeiro no que
parecia um torpedo certeiro contra os acusados: ''Legista derruba
tese da defesa de Guilherme''. No dia seguinte, manchete anticlimática
registrava que o torpedo tinha alvejado também o partido da acusação:
''Novo laudo adia julgamento de Paula e Guilherme''.
A imprensa brasileira já progrediu algum tanto no reconhecimento
de que sua ação prejudica pessoas. Existe até uma certa cultura
facilitária da autocrítica, como nos casos da Escola Base e, mais
recentemente, do caso PC Farias. Está na hora de partir para a prevenção
e de pôr em prática a terceira máxima do mais sucinto código de
ética jornalística que conheço:
Agir com independência;
Buscar a verdade;
Minimizar o dano.
Ainda Maluf
A mais de um mês da eleição municipal, a Folha parece que
vai encontrando o caminho da crítica mais substancial das candidaturas.
Rompe-se, assim, a barragem de pautas no circuito fechado das pesquisas
e dos publicitários.
Como em São Paulo, base do jornal, quem disparou nas pesquisas foi
o candidato de Paulo Maluf, ele está na mira. Foram pelo menos dois
petardos, como gostam de se expressar os jornalistas, da mais pura
e competente reportagem (ainda que em estilos muito diferentes).
O primeiro apareceu na quinta-feira como submanchete do jornal (segundo
título da Primeira Página): ''Malufistas dão carteira do PAS a eleitor
em comitê''. Foi uma reportagem do velho estilo flagrante, que Luis
Henrique Amaral e Xico Sá aplicaram no renitente clientelismo brasileiro.
(Isso para quem pensa que São Paulo é antônimo de atraso.)
Na edição seguinte, outra submanchete perfurante: ''Maluf gasta
mais com obras nas áreas ricas de SP''. José Roberto de Toledo e
Mario Cesar Carvalho se atracaram com quilos de números do orçamento
municipal para concluir que o marketing social do prefeito está
mais para as aldeias de papel do príncipe Potemkin do que para programa
habitacional de Cingapura.
Divertimento
Só essas duas reportagens valem mais do que tudo que já se escreveu
nesta campanha sobre Duda Mendonça e colegas de profissão. Elas
falam do que interessa ao público _daquilo que ele precisa saber_,
não do que diverte a massa ou o círculo social dos jornalistas.
Vou encerrar com uma citação muito a propósito, de um livro do norte-americano
James Fallows que causou certo furor na imprensa dos EUA (''Breaking
the News'', Pantheon Books):
''Os jornalistas de hoje podem escolher: querem somente entreter
o público ou comprometer-se com ele? Se quiserem entreter, vão continuar
fazendo o que fizeram na última geração _concentrar-se no conflito
e no espetáculo, erigir celebridades e demoli-las, apresentar uma
crise ou problema com o volume no máximo, apenas para abandoná-los
e voltar-se para a próxima emergência. (...) E enquanto fazem isso,
serão cada vez mais odiados e menos úteis para o público cuja atenção
estão tentando atrair.''
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