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São
Paulo, domingo, 8 de setembro de
1996
MARCELO LEITE
O jornalismo
cultural da Folha, que já fez época com a Ilustrada,
foi sacudido esta semana do marasmo em que se encontra há meses,
anos. Na terça-feira, Bia Abramo, ex-editora do caderno (até 1995),
teve artigo publicado no alto da pág. 4-5 que trazia já no título
uma declaração de guerra: "'Vacas sagradas' orientam jornalismo
cultural".
Abramo atacava entrevista sobre o filme ''Tieta'' com Caetano Veloso
(autor da trilha sonora) e João Ubaldo Ribeiro (roteirista), publicada
no último dia 29. Para ela, ''um blá-blá-blá inócuo, onde Caetano
e Ubaldo trocam gentilezas, fazem seu merchandising pessoal''.
A resposta do editor Sérgio Dávila saiu no dia seguinte, sob o título
''Leitores, torcedores e jornalistas''. Com fleuma, concluiu que
''a jornalista não suportou ler uma entrevista isenta sobre um filme
que odiou''. Dávila defendeu a separação entre opinião e reportagem
como receita para o jornalismo cultural.
Para discutir se essa é mesmo uma opção para a Ilustrada,
ou se representa seu empobrecimento, convidei para uma entrevista
o próprio editor. Dou assim cumprimento à promessa feita aqui em
12 de maio, de recorrer à palavra original de editores para contar
como é e se faz este jornal. Daquela vez foi com o editor de Opinião,
Hélio Schwartsman. Agora, passo a palavra a Sérgio Dávila, 31 anos
completados hoje. Eis os principais trechos da conversa:
*
Pergunta - Qual é a equipe da Ilustrada? Quantas pessoas
trabalham lá e qual seu perfil?
Sérgio Dávila - É uma das maiores equipes do jornal se você
contar os colaboradores indiretos. Contando tudo, são 30 pessoas.
Colaboradores, mais metade disso, 15.
Pergunta - Qual é o perfil dessas pessoas que estão na redação
da Ilustrada? Na cúpula, ali, é gente mais jovem ou mais
experiente?
Dávila - O editor-adjunto é o Paulo Vieira, um jornalista
que eu trouxe da ''Veja'' e se formou comigo na PUC. Tem 29 anos.
O assistente é o Lúcio Ribeiro, que tem 32 anos e formação profissional
no ''NP'' (''Notícias Populares'', do mesmo grupo que edita a Folha)
e em revistas de música, também estudou comigo na PUC. E a Sylvia
Colombo, que já está no jornal há uns dois anos e estava já na Ilustrada
quando eu assumi.
Tem 24. Eu estava fazendo essa conta outro dia... um pouco mais
da metade não estava na editoria na virada do ano.
Pergunta - Isso é um problema ou é uma vantagem?
Dávila - Confesso que no começo achei que poderia ser um
problema, mas se revelou uma vantagem. Porque os vícios do jornalismo
cultural, e como a Ilustrada é o maior caderno cultural,
tinha muito ali...
Pergunta - Fale de sua formação intelectual e de sua carreira
jornalística.
Dávila - Me formei em 88 na PUC, estudei também Letras na
USP e História. Só me formei em jornalismo.
Até me formar, trabalhei como revisor free-lancer para revistas
da Abril. Em 88 me formei e fiz o tal do curso Abril. Em janeiro
de 89 eu comecei na revista ''Playboy'', fiquei dois anos, de onde
saí quando era repórter especial. Fui para a ''Veja São Paulo'',
como subeditor e lá fiquei também dois anos. Aí vim para cá, para
a Revista da Folha. Em janeiro deste ano fui para a Ilustrada como
adjunto, depois interino e editor efetivo, em junho.
Pergunta - Quais são os horários de fechamento da Ilustrada?
E na batalha do fechamento, quanto você consegue ler do material
publicado?
Dávila - A Ilustrada tem duas edições, Nacional e
São Paulo. A Nacional fecha às 14h; a São Paulo, às 21h.
Das 21h até as 2h da manhã dá para fazer trocas. O editor-adjunto
e uma redatora dão plantão. A Ilustrada fica sem gente praticamente
só da 1h até as 7h da manhã. Eu procuro ler sempre a capa e a contracapa,
os artigos, as colunas como Simão, e as matérias mais polêmicas.
Política cultural, alguma denúncia.
Pergunta - Como é que você recebeu o artigo da ex-editora
Bia Abramo? Não estava mesmo faltando na Folha mais debate
sobre os rumos da Ilustrada?
Dávila - Eu acho esse artigo muito bem-vindo. Estávamos precisando
dessa oxigenação, desse pluralismo, discussão. Jornalismo cultural
é pouco discutido, se for pensar bem. Muito se discute sobre a maneira
como os jornais cobrem a eleição, os crimes, a Escola Base, PC Farias,
e pouco se discute sobre como os jornais cobrem a Bienal, o Free
Jazz, a Mostra de Cinema.
Pergunta - Entrando no mérito do artigo, você não acha que
existe de fato uma espécie de ''establishment'' protegido pelos
cadernos de cultura? Vacas sagradas, como Caetano Veloso? Existe
gente com coragem e estofo para criticá-lo?
Dávila - Com coragem, certamente. Ele é criticado, na própria
Ilustrada. Talvez Caetano Veloso seja emblemático dessa ira de alguns...
Ele não é uma unanimidade. Como editor, não tenho o rabo preso com
esse ''establishment''. A Folha também não. Os repórteres
também não, acredito eu. E se sei que tem, vou dar um jeito.
Pergunta - Sim, se critica pontualmente, há um show e se
diz que tinha defeito aqui e ali. Mas não haveria uma certa dominância,
talvez uma fraqueza da própria cena cultural, fazendo com que resquícios
de um movimento como o tropicalismo permaneçam por tanto tempo,
numa espécie de hegemonia?
Dávila - Sabe que eu ouço essa reclamação do outro lado,
desses remanescentes do tropicalismo, dos expoentes do cinema brasileiro?
Que o jornalismo cultural não fala deles, só fala das novidades,
do cinema americano, do novo pop, que eles não têm lugar, que precisa
de uma briga para eles aparecerem. Eu não digo a Ilustrada, mas
acho o jornalismo cultural muito mais reverente ou subserviente
ao Michael Jackson, ou à Madonna.
Pergunta - Jornalismo cultural é predominantemente crítica
intelectual ou serviço de utilidade pública? Seria essa a crise
de identidade de que você falou no artigo?
Dávila - É essa a crise de identidade. O jornalismo cultural
é um mix de serviço e crítica. Há também as boas histórias, que
você não citou, as reportagens, que não estão necessariamente ligadas
a agenda. Para ser um pouco cabotino, vou citar uma capa que a gente
deu, a ''Seattle dos Miseráveis'', um movimento punk que está surgindo
ali no Alto Zé do Pinho, na periferia de Recife. É uma história
que estava aí para ser contada.
Pergunta - Mas há uma espécie de juízo de valor aí, você
acha que é alguma coisa que vale pena. Não só porque a história
é boa, mas porque o produto cultural é relevante.
Dávila - É relevante, e é uma história que não está ligada
à agenda nem à crítica. A saída para o jornalismo cultural é um
mix dessas três coisas, esse é o projeto da Ilustrada. O
que vinha acontecendo é que era só crítica, era só opinião, as reportagens
vinham embaladas na opinião, no gosto do cara que estava escrevendo.
Pergunta - Eu fiquei com a impressão, no seu artigo, de que
você fazia uma separação drástica demais entre reportagem e opinião.
Parece esquisito um ombudsman falar isso, mas você não acha que
isso exclui a possibilidade de ter um jornalismo cultural de interferência?
Um trabalho de reportagem, sem dúvida, mas que contenha crítica,
também, análise, que entre no mérito?
Dávila - Um jornalismo de interferência, sim; um jornalismo
crítico, sim, que é o que a Folha quer. Mas crítico não é
''opiniático'', eu acho. Crítico, sim. O cara fala um absurdo e
você contrapõe ali, na hora, você está com o mandato dos leitores,
põe na parede, se for o caso. A gente não vai fazer release.
Pergunta - Vou dar um exemplo: O Nelson de Sá fez uma entrevista
com o (Ariano) Suassuna, na capa da Ilustrada, e você vê que ali
tem uma pessoa com conceitos, com idéias, com opiniões culturais
relevantes e que dialoga com quem está falando. Não está ali só
levantando a bola para ele cortar _como aliás eu acho que ocorre
com boa parte das entrevistas com a fulaninha que é artista de cinema,
ou com o cantor de rock que acabou de lançar um disco em Londres.
Dávila - É o ideal. É o que eu gostaria, o que estou montando
dia a dia, com a direção do jornal, mas é demorado. É mais fácil
para o repórter ouvir o disco e aí ele escreve 200 centímetros sobre
o que ele achou, como a guitarra ''lancinante'' era maravilhosa.
É mais fácil. Mas essa é uma crise do jornalismo todo, não é só
da área cultural.
Pergunta - A velha Ilustrada acabou, passou sua época?
Dávila - Foi importante, me formou, eu comprava e lia ardentemente.
Agora, era uma Ilustrada para menos pessoas, porque o jornal
vendia menos, eram outras pessoas, outra realidade. Você não tinha
Internet, não tinha 200 canais de TV paga, não tinha MTV. Hoje você
vai lá na banca do Largo 13 e compra a ''Time Out''. Antes ficava
dependendo do cara que ia para Londres e voltava com uma ''Time
Out'' debaixo do braço e escrevia umas 20 capas.
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