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de ostra e gráficos do Pinel |
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São
Paulo, domingo, 15 de setembro de
1996
MARCELO LEITE
Nunca
é demais reiterar à Folha a importância de tratar números
corretamente. Assim como no caso da gramática, a responsabilidade
dos jornais nesse campo é enorme. Ainda mais quando os erros são
cometidos em material de projeção, como gráficos ou testes dirigidos
a jovens.
São dois casos recentes, um do último dia 9 (gráfico "Os juros pagos
pelo Brasil de 1990 a 1996", publicado à pág. 1-13), outro do dia
2 (a segunda metade do quadro "Dê uma testada no seu intelecto",
à pág. 5-6, Folhateen).
A importância desses dois exemplos não está neles mesmos. Foram
escolhidos porque são representativos da displicência que muitos
jornalistas dedicam às quantidades.
A idolatria com que os profissionais da informação encaram os números
é inversamente proporcional à sua capacidade de manipulá-los com
propriedade. Dito de outro modo: quanto maior a ignorância matemática,
maior a veneração, ou o fetichismo.
Gráficos do Pinel
Na segunda-feira passada, a pág. 1-13 trazia gráfico com evolução
dos gastos do país com juros entre 1990 e 1996 (veja reprodução
no alto). Na crítica interna daquele dia, apontei como erro que
a linha não poderia unir os dados de 1995 e 1996, porque este era
parcial (até julho). Ou seja, a queda representada pela linha descendente
inexiste, porque implica comparação de um total de 12 meses com
outro de apenas 7 meses. A rigor, a tendência é ascendente, como
revela uma conta simples: US$ 7,2 bilhões divididos por 7 meses
realizados e multiplicados por 12. Isso dá mais de US$ 12 bilhões,
valor maior que o de 1995. Depois de uma breve polêmica, a Redação
deu razão ao ombudsman e avisou que o padrão (ou a falta dele) vai
ser abandonado.
Escalas ao léu
Aproveito para denunciar outro problema grave dos gráficos da Folha,
o uso arbitrário de escalas.
O que importa num gráfico de fluxo é o aspecto geométrico da curva,
se esta sobe, ou desce, e em que ângulo.
São essas informações visuais que permitem ao leitor "sentir" a
tendência de um conjunto de números, num lance de olhos. Isso deixa
de funcionar se a escala usada nos eixos de referência das quantidades
não for proporcional.
Veja o caso dos gráficos de intenção de voto nas pesquisas Datafolha.
Os intervalos de tempo entre uma pesquisa e outra nem sempre são
regulares, mas os resultados são apresentados _no eixo horizontal_
como se decorresse o mesmo número de dias entre um levantamento
e outro.
Essa ausência de proporção pode afetar o ângulo de subida ou descida
da curva. Crescer cinco pontos percentuais em três dias é bem diferente
de galgar o mesmo degrau em sete dias. Um bom teste seria perguntar
a candidatos se essa informação é relevante ou não.
Também ocorrem distorções nos eixos verticais dos gráficos, tanto
nos de linha quanto nos de barras. Para ganhar espaço, despreza-se
tudo que não esteja incluído na variação dos números. Por exemplo,
se o maior dado é 119, e o menor, 101, os primeiros 100 ficam de
fora do eixo vertical e se representa somente o intervalo entre
0 e 20. O resultado é que o gráfico mostrará a diferença entre 1
e 19, não entre 101 e 119. As barras mais longas ficarão muito maiores
do que deveriam ser, se fossem proporcionais.
Outro expediente usado para ganhar espaço é apertar a escala num
dos eixos. Brincadeira de criança, com ajuda de computadores. Foi
o que ocorreu na quarta-feira passada com gráficos da pág. 1-4 (intenção
de voto em capitais de cinco Estados _RJ, MG, PR, SC, RS). O intervalo
de 60 pontos percentuais foi espremido em 1,9 cm de altura. No eixo
horizontal, havia 2,5 cm separando as três datas das pesquisas.
Resultado: curvas que mais pareciam retas, de tão achatadas.
Assim como no caso dos indifolhas, que ninguém mais leva a sério,
publicar gráficos com essa qualidade e nada é a mesma coisa.
QI de ostra
O outro desastre ocorreu com o teste de QI (quociente de inteligência)
no Folhateen da semana retrasada. Leia as perguntas reproduzidas
acima e anote as respostas corretas, na sua avaliação.
Dois leitores ligaram dizendo que, no caso da pergunta 11, a resposta
correta seria 16 (alternativa "c"). O gabarito publicado, no entanto,
assinalava a alternativa "a" (ou seja, o número 1). Sem olhar para
o gabarito, achei também que era 16.
As duas pessoas que ligaram para o ombudsman implicaram ainda com
a questão 15. Para elas, trata-se de uma sequência de números primos
(divisíveis somente por 1 e por si mesmos). Portanto, o próximo
termo da série deveria ser 13 (alternativa "a"). O gabarito apontava
"b" (15).
Os testes de QI estão completamente fora de moda, como disse ao
ombudsman um representante da Vésper Estudo Orientado (que teria
pedido, por essa razão, para a escola não ser citada como fonte
do teste; a Redação nega que o pedido tenha sido feito). Eles sobrevivem
por obra da mais que crédula imprensa, mas essa ambiguidade de 2
questões num total de 15 (13%) já deveria pôr por terra um teste
que pretendia dizer se o leitor era "superdotado" ou tinha "inteligência
normal". Pretensão e água benta...
O bom senso requerido de quem perdeu tempo com o teste esteve em
falta na sua própria elaboração. A explicação apresentada para o
gabarito da questão 11 foi a de que 1 está para 4 assim como 8 está
para 32.
Ora, contra-argumentei, pode-se também dizer que 4 está para 16
assim como 8 está para 32. Faz até mais sentido, porque se observa
neste caso uma ordem mais convencional (da esquerda para a direita
e de cima para baixo).
O mesmo vale para a outra solução, da pergunta 15. Relevantes, aqui,
seriam as diferenças entre os termos da série 2, 3, 5, 7, 11...,
ou seja, 1, 2, 2, 4... Daí não se segue necessariamente, ponderei,
que a próxima diferença deva ser 4 (o que levaria ao número 15 e
à alternativa "b", supostamente correta). Poderia ser também 8,
numa hipotética série de diferenças 1, 2, 2, 4, 8, 8, 16, 32, 32...
Isso para não dizer que a solução via números primos é muito mais
elegante (simples).
Setitraz, idapede
No caso do teste, também, a Redação reconhece que houve erro e que
não há muito sentido na publicação desses questionários _isso depois
de começar endossando, sem muito senso crítico, as explicações oferecidas
pelos formuladores do teste. O Folhateen avisa que, se questionários
como esses voltarem a ser publicados, virão acompanhados da resolução,
vale dizer, respostas comentadas.
Para quem se sentiu meio idiota por não conseguir decodificar palavras
estranhas de outras perguntas, aqui vão elas: setitraz (tristeza),
afeldista (falsidade), egarila (alegria), idapede (piedade), Bilmer
(Berlim), rednetse (estender), redneterp (pretender), rednetne (entender).
É gembabo para ninguém botar tofeide.
Ilustrada
Como o assunto é precisão, preciso desfazer uma confusão na entrevista
da semana passada sobre o número de jornalistas que atuam no caderno
Ilustrada. A edição de uma resposta do editor Sérgio Dávila deixou
a impressão de que são 45 profissionais, aí incluídos os colaboradores.
Na realidade, são 31, 16 fixos e cerca de 15 colaboradores.
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