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São
Paulo, domingo, 22 de setembro de
1996
MARCELO LEITE
Enfim a campanha eleitoral em São Paulo pegou fogo, mas quem se
aquece nas labaredas da polêmica são dois dos maiores órgãos de
comunicação do país, Folha e Rede Globo, não os candidatos.
Estes permanecem fiéis _fora um ou outro escorregão_ ao grande mandamento
mercado-ideológico desta eleição: "Não baixarás o nível".
A Folha marcou pontos para sua credibilidade com o resultado
do conflito em que se envolveu com a Globo. Na raiz da contenda
estava a inserção de "infomerciais" do candidato tucano José Serra
nos intervalos do "Jornal Nacional", posta em dúvida por outros
candidatos, fato noticiado pela Folha.
A Justiça Eleitoral considerou que a emissora "efetivamente transgrediu
a lei, no que se refere à propaganda eleitoral", desobedecendo esquema
de veiculação acordado com os partidos. Aplicou-lhe a multa máxima
prevista e concedeu direito de resposta à candidata Luiza Erundina.
No "Jornal Nacional" de sexta-feira, a Globo registrou confusamente
a decisão judicial (não mencionou a multa, por exemplo) e anunciou
que vai recorrer.
''Resposta ao monopólio''
A competição direta entre os grupos capitaneados pela Folha
e pela Rede Globo não se dá somente no plano da imprensa diária.
Ambos participam de consórcios para exploração de telefonia celular.
Concorrerão também no fornecimento de serviços via Internet, quando
esse novo meio se firmar comercialmente.
Certamente isso teve algum peso no tom da polêmica quando esta atingiu
seu ponto máximo. Título e subtítulo da nota publicada pela Folha
anteontem _na forma de comunicado-anúncio_ já arreganhavam os dentes:
"O que é bom para a Globo não convém ao Brasil"; "Resposta ao monopólio".
A nota, ácida, fazia referência direta à multiplicação de frentes
de concorrência: "(A Globo) Pretende agora estender seu monopólio
virtual sobre toda a comunicação, açambarcando também as novas mídias".
No dia anterior, a Globo também pegara pesado por meio do diário
"O Globo". Sua nota, igualmente publicada como anúncio, chamava
para a briga com o título "A Folha calunia e difama".
O texto negava favorecimento a José Serra nas inserções da publicidade
eleitoral gratuita. Apoiava-se para tanto numa suposta "manifestação
judicial" a seu favor: um ofício de Maria Aparecida Dias F. Lima
de Oliveira, diretora do cartório do Juízo da Primeira Zona Eleitoral
de São Paulo.
Ruim para a diretora, pior para a Globo. O juiz Dyrceu Aguiar Dias
Cintra Júnior acabou por desautorizar ambas, ao escrever que o documento
foi solicitado e obtido com "má-fé".
Amigos no Planalto
É evidente que o episódio alcançou repercussão desproporcional à
influência de um único comercial extra de Serra na Globo (embora
pudesse multiplicar-se em outros microfavorecimentos, não fosse
o alarme). Ele deve porém ser entendido como uma das muitas peças
movidas sobre o tabuleiro telecomunicativo, nas últimas semanas.
Quem lê a coluna "No Ar" da Folha, acompanhamento diário
da campanha na TV feito por Nelson de Sá, sabe do que estou falando.
É escandaloso o espaço ocupado em programas de entrevistas pelo
ministro dublê de cabo eleitoral Sérgio Motta. Por ser titular da
pasta das Comunicações, deveria agir para afastar _e não atrair_
a suspeita de que possa usar seu cargo para obter favores de concessionários
sob sua fiscalização.
A cadeia tradicional de tolerâncias e condescendências foi rompida
pelo pito do juiz eleitoral na Globo. Que a Justiça persista no
lampejo de independência e que isso sirva de alerta para todos que
compactuam com a usurpação partidária do serviço público da comunicação
_sejam eles candidatos, ministros ou presidente da República.
O "plágio" do Skank
Pelo menos quatro casos que passaram pela mesa do ombudsman esta
semana deixaram um rastro incomum de calor. Ele sempre está presente
quando há suspeita _ainda que remota ou improvável_ do pior delito
intelectual, a cópia ou apropriação de trabalho alheio.
O caso mais notável envolveu o grupo mineiro de música pop Skank.
(Sobre os outros, que pretendia tratar também nesta coluna, a falta
de espaço permite apenas dizer que não se comprovaram.)
A Ilustrada publicou no último dia 11 reportagem de Armando
Antenore sobre alegações do baiano Ajax Jorge da Silva de que seria
o verdadeiro autor de letras de alguns sucessos do grupo, como "Garota
Nacional". O assunto já tinha aparecido na imprensa baiana e na
MTV.
Tudo que Silva tinha para apoiar sua alegação eram folhas de papel
registradas em cartório em novembro de 1990, com poemas quase idênticos
às letras das canções, e explicações no mínimo duvidosas sobre o
significado de algumas expressões.
Apesar da fragilidade, a reportagem foi parar na capa do caderno
e na primeira página do jornal. Na crítica interna daquela quarta-feira,
anotei que sempre haverá oportunistas tentando faturar com o sucesso
alheio. Disse também que a descrição do acusador apresentada na
reportagem se encarregava de desqualificá-lo como tal:
"Por que então lhe dar crédito e tanto espaço, como se fez com recente
acusação de plágio a programa da TV Cultura? (Referia-me a denúncia
semelhante contra o infantil 'Cocoricó', outra denúncia desproporcionalmente
destacada.) Tudo bem investir em reportagem, mas é preciso mais
critério."
Este último período era uma alusão à entrevista do editor Sérgio
Dávila com o ombudsman, publicada neste espaço três dias antes,
sob o título "Reportagem também é cultura".
Aposta sensacionalista
Houve vários desdobramentos. Antenore respondeu longamente ao ombudsman
e teve tréplica, na crítica interna. Ajax perdeu uma outra ação,
contra a Bamda Mel. O grupo Skank deu entrevista coletiva negando
as acusações.
O letrista Chico Amaral escreveu carta ao editor Dávila, publicada
anteontem na Ilustrada. Antenore respondeu com artigo na
edição de ontem, em que acusa integrantes da banda de não querer
e não saber "lidar com embaraços do sucesso". São opiniões, que
não me proponho avaliar.
A resposta anterior de Antenore ao ombudsman, no seu fulcro, defendia
o mérito jornalístico do caso dizendo que das duas uma: ou o poeta
falava a verdade e se estava diante de um dos maiores escândalos
da MPB (hipótese considerada "remota" pelo repórter), ou então mentia
("provável"), e aí era a possível fraude envolvendo cartório que
mereceria investigação.
Dei na tréplica a única resposta cabível: "O ombudsman acha que
há irresponsabilidade e sensacionalismo na aposta que a editoria
fez".
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