|


O que é o cargo
Fale com a
Ombudsman
Mural
Colunas
Anteriores
FiloFolha
Dúvidas mais
Frequentes
Bate-papo
|
 |
|
Ainda não foi desta vez |
 |
|
São
Paulo, domingo, 29 de setembro de
1996
MARCELO LEITE
Esta deveria ser minha última coluna, pois anteontem se encerrou
meu segundo mandato, mas quis a fatalidade que não. O novo ombudsman,
Mario Vitor Santos, caiu de cama com hepatite (leia reportagem na
pág. 1-8). Leitores e a Redação vão ter de me tolerar por mais umas
três semanas, pelo menos.
Apartidarismo
Para os leitores que procuraram o ombudsman em setembro, a Folha
é antimalufista (foram nove as manifestações sobre isso). Há um
mês, no entanto, quem ligava ou escrevia sustentava o oposto, que
o jornal estava trabalhando a favor do candidato da situação à Prefeitura
de São Paulo, Celso Pitta (seis pessoas disseram isso).
A contradição é só aparente e mostra que o leitor é mais atento
do que muita gente pensa. Não sou daqueles que acreditam que o jornal
tem um candidato do coração e trabalha com dissimulação cerebral
para elegê-lo, mas o fato é que a atitude do jornal mudou.
Nas últimas quatro semanas, multiplicaram-se em suas páginas reportagens
críticas e investigativas contra as hostes do prefeito. Do uso de
comitês eleitorais para vender as ilusões concretas do PAS e do
Cingapura aos custos faraônicos das obras viárias, o jornal parecia
ter descoberto subitamente que a candidatura malufiana era vulnerável.
Alguns leitores tiraram rápido a conclusão: a Folha apóia
Serra. Essa suspeita foi reforçada pela predominância _em seções
de prestígio como "Tendências/Debates"_ de artigos de opinião escritos
por intelectuais e políticos tucanos, a favor de Serra e/ou contra
Maluf.
Manter o apartidarismo sempre foi compromisso público do jornal
e, internamente, verdadeira mania. Tanto é que ele contrata o Datafolha
para computar o espaço dedicado a cada candidato, separando os textos
medidos como negativos, favoráveis ou neutros. Mais ainda, a Folha
publica esses dados.
O levantamento está sendo feito mais uma vez, nesta eleição. O diretor
de Redação, Otavio Frias Filho, informou que deverá ser publicado
logo após o primeiro turno. Quem lê cotidianamente a Folha,
no entanto, já intui que as reportagens negativas para Pitta ou
Maluf estarão à frente.
No pé de Maluf
Aos leitores que se queixam ao ombudsman, costumo dizer que
o problema não está em "pegar no pé" de Maluf, mas em não fazer
o mesmo, com a mesma disposição, contra outros candidatos. Há no
entanto pelo menos três explicações para que isso não aconteça.
A primeira é que Maluf, e não Erundina ou Serra, está na prefeitura.
É esta administração que se encontra sob exame, na eleição.
Em segundo lugar, não se pode excluir a hipótese de que ela seja
objetivamente mais vulnerável do que a de Erundina, na prefeitura,
ou a de Serra, no Ministério do Planejamento. Ou que sua campanha
eleitoral mobilize em maior quantidade métodos políticos condenáveis,
aos olhos da opinião pública.
Por fim, Maluf carrega o ônus de ter ditado o tom da campanha.
Só se falou em Cingapura, PAS e, para seu azar, em "Fura-Fila".
É evidente que todos, adversários e jornalistas, iriam passar-lhes
o pente-fino.
Denúncias tardias
A crítica que deve ser feita à Folha é outra _ela demorou
demais para investigar a gestão de Maluf. Como o próprio prefeito
se queixou na edição de terça-feira, está há três anos e meio no
cargo, e os jornais não publicaram nesse período nem uma fração
das denúncias das últimas semanas.
A conclusão automática para muitos é de que isso só ocorreu
porque a Folha se bandeou para Serra. Mesmo supondo que o
jornal se prestasse a esse jogo tão arriscado para sua credibilidade,
ficaria difícil de explicar algumas reportagens recentes, como o
levantamento dos custos e da quase inviabilidade de construir tantos
quilômetros de metrô quanto Serra vem prometendo na TV.
Minha hipótese é outra: ação e reação. O jornal começou a investigar
Maluf com mais afinco porque se cristalizava a noção de que o protegia.
Entre outras razões, por não conseguir apresentar um noticiário
mais crítico e conclusivo sobre a grande polêmica do PAS, no primeiro
semestre.
Antes tarde do que nunca, costumo dizer para os leitores. As denúncias
e os detalhes publicados na imprensa contribuíram para desfazer
em parte as mistificações televisivas. O debate ganhou carne e osso.
Algumas propostas concretas foram efetivamente discutidas.
Voto eletrônico
Uma das coisas mais positivas que a cidade teve nos últimos
anos, por exemplo, foi o debate sobre transportes públicos, a partir
dos episódios rodízio de carros e "Fura-Fila". A imprensa só acordou,
no entanto, quando um tucano verde e um feiticeiro publicitário
puseram os bodes na sala.
Algo de semelhante está acontecendo com o problema do voto eletrônico.
Só a dez dias da eleição se tornou tema de debate público aquilo
de que todos já desconfiavam: "47% erram no voto em urna eletrônica",
foi a manchete da Folha de segunda-feira passada. Aí começou
o corre-corre da Justiça Eleitoral, e apareceram idéias de última
hora, como levar as urnas informatizadas para programas populares
de TV.
A votação de quinta-feira mostrará se houve improvisação nessa matéria
tão grave, da parte das autoridades, e negligência, da parte da
imprensa. Torço para que não seja o caso.
Sem querer ser desmancha-prazeres, creio que o mesmo raciocínio
_demora dos órgãos de comunicação para influir nas questões relevantes_
se aplica a duas iniciativas recentes da Folha (que em verdade
mereceriam antes aplausos que críticas): a seção "Opção de voto",
com entrevistas de candidatos a vereador na cidade de São Paulo,
e o caderno "Olho na Câmara", publicado na edição de anteontem.
É como se, para o jornal e a sociedade, a Câmara só existisse por
causa da eleição, e não vice-versa.
A lição a tirar da cobertura destas eleições é que os jornais podem
muito bem, se se esforçarem, contribuir mais precocemente _permanentemente,
seria o ideal_ para fazer avançar o debate público neste país. Esta,
no final das contas, é a sua missão. Se os jornais a esquecerem,
estarão se reduzindo a um negócio como outro qualquer.
Leia mais
Na ponta do lápis
Colunas
anteriores
22/09/1996 - Folha vs Globo
08/09/1996 - Reportagem também é cultura
01/09/1996 - A massa e o público
25/08/1996 - Margens e erros
18/08/1996 - De que lado você esta?
subir

|
|
|