|


O que é o cargo
Fale com a
Ombudsman
Mural
Colunas
Anteriores
FiloFolha
Dúvidas mais
Frequentes
Bate-papo
|
 |
| Um
furo é um furo |
 |
|
São
Paulo, domingo, 6 de outubro de
1996
MARCELO LEITE
A Folha
teve um desempenho jornalístico misto, nesta semana de eleição.
Por um lado, passou longe da principal notícia (a operação financeira
autorizada pelo malufista Celso Pitta, supostamente lesiva aos cofres
públicos). Por outro, o material que vem publicando no caderno Eleições
96 é claramente superior à cobertura de seus concorrentes paulistas,
em quantidade e qualidade.
O suculento caderno especial que o jornal publica desde quarta-feira
é produto de uma grande qualidade da Folha: planejamento.
Faz parte de sua cultura editorial arquitetar esses suplementos
muito antes dos fatos de agenda, como eleições, Copa do Mundo etc.
Nesse exercício de frieza e sofisticação, o jornal continua imbatível
(embora os concorrentes já tenham aprendido muito).
Um furo continua sendo um furo, no entanto. No curto prazo, faz
mais pelo prestígio de um jornal do que dez cadernos especiais.
No caso do pleito em São Paulo, foi dado pelo ''Jornal da Tarde''
no dia 28, não pela Folha.
Furos, ou reportagens exclusivas obtidas por um único órgão de imprensa,
decorrem de outro tipo de competência. Para dar furos, um jornal
precisa estar muito bem informado, dispor de repórteres com tempo,
preparo e persistência para pesquisar e ''trabalhar'' uma fonte.
Sorte também ajuda.
Desta vez, foi o ''JT'' que comprovou essas qualidades. Em termos
de impacto, nenhum dos furos da Folha ao longo da campanha _como
os flagrantes de utilização eleitoral do PAS e do Cingapura_ é comparável
ao caso da operação de compra e venda de letras do Tesouro Municipal.
Timidez e oportunismo
A repercussão alcançada pelo chamado caso Pitta decorreu em grande
parte do momento em que veio à tona. Sem querer tirar mérito do
trabalho do repórter Rogério Pacheco Jordão, é evidente que sua
divulgação no fim-de-semana imediatamente anterior ao último debate
pela TV veio bem a calhar para seus adversários. Sobretudo para
o tucano José Serra.
Com base na pergunta automática (''a quem interessa?''), muito se
especulou esta semana sobre a origem do furo. O principal suspeito
foi o Banco Central, controlado pelos tucanos e alvo de críticas
frequentes do prefeito Paulo Maluf. Especulações à parte, provocou
surpresa a atitude do BC de confirmar que havia uma investigação
em curso, contrariando a habitual regra do sigilo.
Não cabe aqui julgar o comportamento do BC, mas parece claro que
sua diretoria vai confirmando uma variante da famosa Lei Ricupero:
para os amigos, sigilo; para os inimigos, a ''verdade'', ou sua
revelação em doses calculadas, ou ainda a simples ameaça de torná-la
pública. Lembre-se do caso Gilberto Miranda.
Nesse jogo pesado, a imprensa funciona como leva-e-traz. Cada jornal
ou revista deita e rola quando é escolhido como mensageiro. Os outros
enfiam a viola no saco, fazem de tudo para diminuir o caso, temerosos
de aumentar ainda mais o prestígio do concorrente ''responsável''
pelo furo.
A Folha foi tímida, para dizer o mínimo, na cobertura do
caso. Não poderia ignorá-lo, por certo, e o noticiou, mas com frieza
e discrição. Deve ter enfrentado dificuldades para confirmar a denúncia,
uma vez que chegou atrasado a ela.
De qualquer forma, poderia ao menos ter contribuído mais para explicar
a transação, para lá de complicada. A resposta dos malufistas, por
seu lado, mais confundia do que esclarecia o leigo. O didatismo
compulsivo da Folha resumiu-se a um único texto, não muito bem-sucedido.
O máximo de crítica que o jornal se permitiu materializou-se na
forma vicária, delegada, de um extrato na Primeira Página da coluna
de Janio de Freitas, quarta-feira (''Envolvimento do BC deve ser
investigado''). Não bastava, assinalei na minha crítica interna
daquele dia, mas ficou nisso.
Outra evidência desse comportamento de avestruz foi que o jornal
não publicou editorial algum sobre o tema. Seria de todo coerente
com seu compromisso de independência e apartidarismo cobrar explicações
do candidato Pitta, de um lado, e desancar o BC, de outro, pelo
oportunismo partidário.
Opinião esclarecida
O mais intrigante nisso tudo é que a tal bomba contra Pitta parece
não ter surtido efeito. Há quem diga até que beneficiou o candidato-sombra
do prefeito Maluf. O desconhecido que tinha meros 11% nas pesquisas
de intenção de voto, há menos de quatro meses, quase levou a eleição
no primeiro turno, mesmo alvejado de todos os lados.
Nenhum jornal foi capaz de prever nem de explicar essa subida final
de Pitta, assim como não foram capazes de prever nem de explicar
de modo convincente sua ascensão geral. As explicações de fundo
mágico-culinário, do tipo ''quanto mais bate, mais cresce'', só
satisfazem aqueles que têm fé arraigada na irracionalidade da política.
Não é esse, não deve ser, o caso da Folha, que sempre professou
outra fé, no esclarecimento da opinião pública. Ela ainda tem muito
o que explicar, desvendar, interpretar e criticar sobre estas eleições.
Sem poupar Pitta nem Erundina. É o que leitores e eleitores esperam
dela, nesse mês e meio que os separa do segundo turno.
Leia mais
Na ponta da língua
Colunas
anteriores
29/09/1996 - Ainda não foi desta vez
22/09/1996 - Folha vs Globo
08/09/1996 - Reportagem também é cultura
01/09/1996 - A massa e o público
25/08/1996 - Margens e erros
subir

|
|
|