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São
Paulo, domingo, 27 de outubro de
1996
MARCELO LEITE
A Folha vem fazendo um esforço visível de comparação equilibrada
das administrações Luiza Erundina e Paulo Maluf na Prefeitura de
São Paulo. Isso tem resultado em longos dossiês publicados aos domingos,
como nos casos de habitação e saúde. No dia 19, porém, o equilíbrio
foi para o espaço, com a reportagem ''Proposta de Erundina para
ônibus custa mais para o cofre da Prefeitura'', publicada na pág.
1-5.
Mesmo nos outros casos, há quem duvide _principalmente entre ex-administradores
petistas_ desse equilíbrio. Ele seria apenas formal, formalista,
até. O Painel do Leitor tem refletido muitas dessas opiniões.
Os leitores terão dificuldade para tirar conclusões, pois a discussão
de pontos de vista para a interpretação dos dados apresentados é
árida. Mais ainda, é quase impossível de separar de concepções mais
básicas, ideológicas mesmo, sobre o que seja o bem público.
O que o jornal não pode fazer é basear-se só ou principalmente em
uma dessas concepções. Pois foi o que aconteceu com a reportagem
sobre transportes, que privilegiou um ponto de vista meramente financeiro
(desembolso pela prefeitura), sem dar a devida importância à questão
fundamental: se o transporte público está pior ou melhor.
O cofre e o bolso
A reportagem tinha três partes: dois textos (abre e sub-retranca,
no jargão jornalístico) e um quadro (''O ônibus do PT e o ônibus
do PPB''). Sobre este último não há muito a dizer, pois é uma enumeração
objetiva de dados representativos. Os problemas aparecem nos textos,
que fazem a avaliação dos números e lhes atribuem um sentido.
O primeiro (abre) dá grande destaque no título e nos primeiros parágrafos
a uma informação negativa para Erundina (gastos superiores da prefeitura).
Do meio para o final, faz menção ao fato de que o custo total do
sistema aumentou na gestão Maluf e que o passageiro paga toda a
diferença (do aumento do custo e da diminuição do subsídio).
O texto não destaca, porém, que esse aumento de custos foi proporcionalmente
maior (33%) do que o do total de passageiros transportados por ano
(5,6%). Aceita, sem maior questionamento, a justificativa da SPTrans
(empresa que administra o sistema de transporte) de que o custo
aumentou porque haveria mais 1.133 ônibus em circulação.
Afinal, o próprio quadro dava motivos _números_ para questionar
a eficiência do sistema, apesar de haver mais ônibus em circulação:
a tarifa deu um salto de 150% em dólar; a velocidade média piorou
25%; o tempo médio de viagem subiu 16,7%. Além disso, a ocupação
foi de sete para oito pessoas por metro quadrado.
Em poucas palavras, transporte pior e mais caro. Mas a Primeira
Página, naquele dia, cravou: ''Transporte custou mais caro na gestão
da petista''. Para quem?
Nos EUA, a Meca dos inimigos dos subsídios, o usuário paga em média
38% do custo real da tarifa, segundo a Associação Nacional de Transportes
Públicos (ANTP). O restante é dividido entre governo e empregadores.
Na cidade de São Paulo, paga 94%.
Avaliação por usuários
O segundo texto até registrava que Maluf pouco investiu nos corredores
exclusivos, a forma mais eficiente de acelerar os coletivos. Só
que, mais uma vez, na metade final do texto.
O título e os primeiros parágrafos, de novo, eram bons para o padrinho
de Celso Pitta: ''Transporte de Maluf é melhor avaliado''. Um paradoxo,
em face dos indicadores de piora do serviço.
Os dados considerados saíram de pesquisas semestrais Gallup/ANTP
com usuários. Mesmo selecionando os dados mais negativos para Erundina
(avaliação só de ônibus da antiga CMTC e por todo tipo de usuário),
nota-se uma melhora acentuada a partir de junho de 1991, ano da
chamada ''municipalização''. De um fosso de mais de 40 pontos negativos,
saltou para 36 positivos no final do mandato (dezembro de 1992).
Foi desse patamar alto que partiu Maluf. No final de seu mandato,
porém, a avaliação foi de 20 pontos. Dito de outro modo, o título
não se sustenta, nem mesmo com o recurso à maior regularidade das
notas malufianas (não teve escores negativos), mencionada no começo
da sub-retranca.
*
Apesar de tudo isso, não me parece que a reportagem da Folha
tenha saído como saiu por malufismo, como concluíram leitores que
procuraram o ombdusman. Seu erro fundamental é analisar a questão
de um ponto de vista imediatista, utilitarista, burocrático, míope,
estreitamente empresarial.
Essa doença não grassa apenas nesta administração municipal, ela
envenena a maior parte da discussão pública no Brasil e no mundo,
com a colaboração entusiasmada de boa parte dos jornalistas. Foi
agravada, neste caso particular, pela escolha de títulos em flagrante
desacordo com o dogma do apartidarismo professado pela Folha.
''A matéria (reportagem) centrou-se na questão financeira. Deveria
ter tido um texto específico do ponto de vista do usuário'', afirma
Fernando Canzian, 30, editor do caderno Brasil.
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