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jornalística no vôo 402 |
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São
Paulo, domingo, 10 de novembro de
1996
MARCELO LEITE
Não é
fácil dizer onde imperou confusão maior, se na rua Luís Carlos Orsini,
há dez dias, ou na cobertura jornalística da queda do Fokker-100
da TAM. O acidente matou 98 pessoas, enlutou a cidade e pôs à mostra
toda a fragilidade da imprensa diante de uma notícia dessa magnitude.
Ler vários jornais, nos últimos dias, não significou ficar mais
bem-informado, só mais desorientado. Especulações e informações
contraditórias voavam de todos os lados.
O desastre do vôo 402 foi ao mesmo tempo o inferno e o paraíso de
editores e repórteres: um raio em céu azul, comoção do público,
demorado sigilo nas investigações, enorme complexidade técnica e
a reputação de uma empresa de renome em jogo. Em resumo, muitos
leitores e pouco esclarecimento.
No meio do tumulto, começou a frenética e cativante busca das ''causas''.
Qualquer migalha de informação, mesmo mal apurada e sem confirmação,
corre o risco de virar manchete, numa situação dessas. O jogo se
resume a ter uma novidade para fornecer a cada dia, enquanto ''o
caso'' durar.
Mecânica fatal
Veja o exemplo do celular expiatório. Aventado desde a primeira
hora como emissor das ondas eletromagnéticas do destino, já estava
em baixa uma semana depois.
Os jornais não conseguiram responder, ainda, de modo conclusivo,
a uma pergunta simples: o acionamento do tal do reversor (freio
aerodinâmico) da turbina tem alguma fase eletrônica ou não? Ou seja,
a ''ordem'' para abrir passa ou é originada por algum circuito impresso,
por exemplo de um computador?
Em caso afirmativo, ao menos teoricamente a interferência de um
celular ou computador portátil não poderia ser descartada.
Por vezes, o leitor tem a impressão de que jornalistas não sabem
bem do que estão falando quando saltam de falhas mecânicas para
eletrônicas, humanas, eletromecânicas, hidráulicas, de manutenção
etc. A Folha, por exemplo, chegou a anunciar num título de
alto de página _como grande novidade_ que o delegado encarregado
do caso estava convencido de que ocorrera falha mecânica. Mas qual,
e por quê?
Milagres e premonições
A combinação de sigilo, emoção e complexidade também é propícia
à multiplicação de lendas e raciocínios mágicos. Não faltaram ''milagres''
e ''premonições''. Afinal, aquele 31 de outubro era o Dia das Bruxas
(que ele seja comemorado nos EUA e não no Brasil é só um detalhe
sem importância).
O piloto José Antônio Moreno foi precocemente entronizado como herói.
Já na sexta-feira (1º/11), o programa de TV ''Globo Repórter'' anunciou
que, num suposto diálogo com a torre do aeroporto de Congonhas,
Moreno teria dado conta de um desvio para poupar escola da região.
A revista ''Veja'' reproduziu a conversa, com aspas e tudo, mas
hoje se sabe que o piloto estava ocupado demais e não trocou uma
palavra com o controle.
Depois disso, jornais diários foram publicando na base de conta-gotas
as frases ditas dentro da cabine de comando do PT-MRK. Atribuíram-se
significados importantes a frases desconexas, como ''em cima, em
cima'' (apresentada como ordem para o co-piloto recolher trem de
pouso, mas também como tentativa de desligar mecanismo automático
de aceleração, ou ''autothrottle'').
Quando há muitas lacunas numa história, a tendência é preenchê-las
com imaginação e fantasia. Quanto menor e mais insignificante a
causa, mais interessante ela se torna. O máximo alcançado, nessa
linha, foi a manchete de anteontem da Folha: ''Fio partido
pode ter derrubado jato''.
É bom esclarecer: não foi encontrado nenhum fio partido. É só uma
hipótese, provavelmente impossível de comprovar. De qualquer maneira,
a possibilidade de um curto-circuito ser responsável pelo efeito
abre-e-fecha do reversor já tinha sido arrolada cinco dias antes
pelo concorrente ''O Estado de S.Paulo''.
Rádios piratas
Os que têm interesses envolvidos, como a TAM, podem também tentar
favorecer aquelas possibilidades menos danosas para sua imagem.
É o caso dos celulares e das rádios piratas, que excluem eventuais
falhas de manutenção. Em mais de uma oportunidade, ''fontes'' da
empresa trataram de mantê-los no rol de culpados _resguardadas no
confortável sigilo de fonte (''off''), claro.
Como não terá depois de prestar contas de suas informações, a ''fonte''
pode até arriscar dados factuais para dar maior credibilidade a
suas especulações. No caso, ''O Estado de S.Paulo'' chegou a publicar
que a caixa-preta do Fokker-100 registrou uma interferência de rádio.
Quando sair o relatório final, daqui a uns dois meses, e se ele
nada contiver disso, ninguém vai mais se lembrar, mesmo.
O fato de uma determinada informação diminuir o prejuízo à imagem
da TAM obviamente não exclui a possibilidade de que seja verdadeira.
Cabe no entanto aos jornalistas levar esse dado em consideração,
no momento de decidir se é digna de crédito e, principalmente, com
que destaque será publicada.
A imprensa deve submeter toda e qualquer informação à crítica, de
forma visível para o leitor _seja ela proveniente da TAM, da comissão
investigadora ou da autoridade policial. Como informação tem sido
mercadoria rara, neste caso, tal trabalho de depuração não está
acontecendo na intensidade desejável.
Caso de polícia
Nessas horas, delegados da Polícia Civil com faro para autopromoção
na mídia também deitam e rolam. Vale até julgar e condenar um morto,
como foi feito com Mauro Rodrigues de Mattos.
O passageiro do vôo 402 foi postumamente acusado de ter embarcado
quase quatro quilos de cocaína no avião caído, por já ter sido preso
como traficante. Segundo o policial Romeu Tuma Jr., ''apesar da
condenação e da liberação, ele (Mattos) continuava ligado ao tráfico''.
O abuso policial mais chocante da semana, porém, envolveu a investigação
do aparente suicídio do empresário Luiz Carlos Leonardo Tjurs na
frente de sua noiva, a modelo e atriz Ana Paula Arósio. Na crítica
interna da edição de quarta-feira, anotei:
''Depois de tudo que se falou sobre Escola Base, a Folha ainda
dá divulgação para especulações e conjeturas de policiais irresponsáveis
que podem prejudicar pessoas em princípio inocentes. Veja a reportagem
'Atriz Ana Paulo Arósio sai do choque' (pág. 3-8). Se o delegado
Ivaney Cayres de Souza é despreparado o bastante para mencionar
em público hipóteses fantasiosas de incitação ao suicídio, o jornal
não precisa acompanhá-lo''. Foi, assim, uma satisfação ler na Folha
de anteontem o editorial ''Privacidade violada''. Ele trazia uma
admoestação cristalina:
''Um braço do poder público, que tem o dever de respeitar e defender
a privacidade dos cidadãos e agir com discrição, é, lamentavelmente,
o primeiro a violar esse valor. Sem nem sequer correr o risco de
uma punição posterior, se, como no caso da escola Base, se verificar
que as suspeitas eram infundadas''.
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