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São
Paulo, domingo, 17 de novembro de
1996
MARCELO LEITE
Não consigo
imaginar manchetes mais decepcionantes, para um dia de eleição,
do que as dos dois maiores jornais diários brasileiros, anteontem:
* "Pitta deve ser eleito prefeito hoje" (Folha);
* "Ibope: Conde 47%, Sérgio 30%" (O Globo).
Esses enunciados pífios refletem, por um ângulo, a modorra de um
pleito desenhado na mesa de efeitos especiais. Por outro, são sintomas
do estado pré-falimentar da imprensa de qualidade, entendida como
aquela instituição encarregada de informar e esclarecer a opinião
pública.
Quem só quer entretenimento e se contenta com qualquer porcaria,
teve-o de sobra. Quem queria informação e análise para orientar-se
como cidadão e eleitor, dançou. E quem advoga o "laissez-faire"
publicitário, no fundo, está dando um voto silencioso para que o
acaso decida o futuro desse inferno que os brasileiros chamam de
cidades.
Pesquisas de intenção de voto não criam fatos novos, essência da
notícia. São meras expressões numéricas, apassivadas, de uma configuração
volátil da massa votante. Quando confirmam uma tendência já conhecida,
com dezenas de pontos percentuais de segurança, perdem até a aparência
de principal fator político-eleitoral que a imprensa insiste em
atribuir-lhes.
Há algo de muito errado com um jornalismo que se contenta com noticiar
aquilo que todos já sabem.
Corrida de cavalos
Não é o caso de prescindir das pesquisas eleitorais, mas de pô-las
no seu devido lugar jornalístico. Ou seja, em segundo ou terceiro
plano. A grande novidade que os leitores esperam dos jornais, ou
deveriam esperar, é uma análise mais profunda dos problemas urbanos
e das propostas para resolvê-los.
A sucessão monótona de percentuais das pesquisas, ou uma cobertura
do tipo "corrida de cavalos" (como dizem os norte-americanos), só
é boa para a TV. Têm a efemeridade e a capacidade de síntese obscura
que são características desse meio de "comunicação". Elegê-las como
centro de gravidade é um erro estratégico: equivale a aceitar o
campo de batalha designado e já minado pelo adversário.
De nada adianta tentar dar às pesquisas uma aparência de profundidade,
pela via da análise, multiplicando as tabelas e subtabelas (escolaridade,
região, sexo, idade etc.). Ninguém lê essas maçarocas de números.
Quando muito, elas servem aos propósitos dos burocratas da imagem
e da mistificação que comentaristas cobrem de "glamour" e ceticismo,
sob o rótulo de "marketeiros". As "reportagens" que alinhavam os
percentuais raramente conseguem elevar-se acima da condição de soporíferos.
Aborto e maconha
A Folha até que fez um esforço de informação e de análise.
Tardio, mas fez. Publicou uma série de dossiês comparando as administrações
Maluf e Erundina em São Paulo, nas áreas de habitação, educação,
saúde e transporte.
Essas análises estiveram, porém, obcecadas com a necessidade de
exibir equilíbrio, muitas vezes de modo formalista. Como não contavam
com o lastro de um acompanhamento sistemático e permanente do poder
público municipal, não conseguiram produzir mais que espuma na superfície.
Só foram apresentadas à opinião pública depois do primeiro turno,
quando ela já se encontrava, há muito, mesmerizada pela pirotecnia
Mendonça-Pitta-Maluf. Nos três anos anteriores da administração
pepebista, calara.
Engana-se, no entanto, quem pensa que uma eventual vitória de Erundina
(ou de Sérgio Cabral Filho, no Rio) viria na crista de uma onda
de cidadania, esclarecimento ou racionalidade. Quase todos os candidatos
submeteram-se à ditadura do marketing televisivo (agressivo ou idílico,
tanto faz) e da audiência. Isso ficou evidente no constrangedor
espetáculo de subserviência da petista à Rede Globo. Nem todos os
candidatos, porém, rezaram pelo mesmo missário.
Célio de Castro (PSB), de Belo Horizonte, deu declarações no sentido
da descriminalização do aborto e da maconha. Isso daria urticária
em qualquer publicitário (pessoa jurídica, claro). Mesmo assim,
aplicou uma surra no adversário tucano Amílcar Martins, que tentou
explorar o suposto flanco aberto (e também a amizade da irmã com
a ex-princesa Diana). Danou-se.
Essa é a exceção que não confirma a regra. É uma prova de que o
eleitorado _o público_ também apresenta um vetor de racionalidade,
sensível à coerência ideológica e política, às propostas de transformação
urbana que não se dissolvam como maquiagem (à distância, diria que
esse parece ser o caso de Porto Alegre).
Podem ser poucos os políticos com coragem de falar a essa "persona"
de cada cidadão. No caso dos jornais, acredito que é questão de
sobrevivência estimular e ampliar um público de verdadeiros leitores
(isto é, raciocinadores), sob pena de vê-los transformarem-se num
rebanho de mascadores da informação-chiclete distribuída pela TV.
Palhaços
Mesmo os eleitores de Celso Pitta deveriam sentir-se afrontados
com o maldisfarçado teatro do Ministério da Fazenda e da Mesa do
Senado para subtrair ao conhecimento público documento do Banco
Central sobre supostas irregularidades financeiras do então secretário
malufista.
Os jornais, mesmo noticiando com razoável destaque as trapalhadas
em que desapareceu o papel, na véspera da eleição, não chegaram
a condenar _até anteontem_ esse flagrante atentado contra o direito
à informação. Aceitaram, sem reagir, que um senador da República,
jornalistas e todo o público fossem tratados como palhaços.
O alvo do golpe baixo, desta vez, foi um adversário comum, o PT.
A partir de agora, o inimigo número um da hegemonia planaltina se
chama, como sempre se chamou, Paulo Maluf.
Saia justa, faca amolada
Não tenho mais argumentos para combater, na Redação da Folha, as
bobagens que saem na seção "Saia Justa", publicada semanalmente
no caderno São Paulo/Cotidiano. Instado por vários leitores _todos
homens_ indignados com a peça do domingo passado, proponho às leitoras
que silenciaram o seguinte experimento lógico-absurdo:
Imagine que ficasse famoso um equatoriano radicado nos EUA, Loredano
Bobbit, inocentado pela Justiça depois de decepar o seio esquerdo
de sua mulher, Doris Day Bobbit. O júri teria ficado sensibilizado
com sua alegação de que Doris o torturava com sessões de coitos
interrompidos.
Meses depois, um capixaba doentiamente enciumado convence a namorada
a ir para o motel, para uma "última noite de amor" antes da separação.
Depois de várias cópulas, corta-lhe o seio fora com uma faca de
cozinha, para que "não seja de mais ninguém".
Após uma semana, um jornal moderninho de São Paulo publica na seção
"Cueca apertada" a reportagem "Homem aprova vingança à Loredano
Bobbit". No texto, um gerente de supermercado diz que chegaria às
vias de fato para punir a infidelidade da namorada. Sorridente,
o moço bem-apanhado posa para fotografias com uma faca de mergulho
e um canivete suíço aberto na mão.
Teria cabimento?
Não, assim como não teve o texto "Mulher aprova vingança à Lorena
Bobbit", publicado à pág. 3-9 de 10 de novembro.
E não venham dizer que falta humor ao ombudsman e aos leitores que
se queixaram. Pode até ser verdade, mas não é essa a questão. Ninguém
espera ver "Saia Justa" transformada num "Tailleur de Linho", num
tratado de caretice. Mas que tal um pouco de relevância, respeito
pelo sofrimento alheio e finura, só para variar?
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