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São
Paulo, domingo, 24 de novembro de
1996
MARCELO LEITE
Existe um gênero jornalístico com audiência garantida, neste país
de sub-remunerados: listas de salários exorbitantes, especialmente
os pagos com dinheiro público. É a reportagem ''pega-marajá''. O
último espécime saiu na Folha de terça-feira, com o título
''Anistiados recebem até R$ 24 mil por mês'' e chamada de capa.
Alta leitura, movida a revolta e inveja.
Foi e é muito importante divulgar essas relações de abastados. Sejam
salários ou pensões, só atingiram tais valores indecentes _indecentes
por saírem dos cofres de um Estado falido, note bem_ por causa do
segredo em que sempre estiveram envolvidos. A quebra de privacidade
representada pela publicação dos nomes e respectivos vencimentos
é um mal menor, perto da necessidade de discutir abertamente a legitimidade
desses gastos.
O caráter benéfico dessa revelação entra em crise quando o próprio
governo começa a vazar, seletivamente, as informações. Sabe-se lá
com que intenções, alguém no Ministério da Previdência resolveu
lançar à turba o nome e os ganhos de apenas 45 aposentados especiais.
Além de receber benefícios superiores a dez salários mínimos, eles
têm em comum a condição de anistiados.
Suas aposentadorias são absolutamente legais, ainda que absolutamente
iníquas. Alcançaram tais valores de sonho, para a maioria dos brasileiros,
porque a lei permite calcular quanto poderiam estar ganhando caso
tivessem prosseguido nas carreiras interrompidas por motivos políticos.
Estar na legalidade e na condição de ex-perseguido, porém, não torna
seu privilégio, na minha opinião, mais legítimo.
Ex-combatentes
Dito isto, de volta à questão jornalística: por que essa lista,
e justamente ela, foi divulgada agora? O jornal, obviamente não
a respondeu. Fazê-lo implicaria questionar a motivação da fonte,
pondo em risco o acesso à informação exclusiva. Ocorre que a própria
reportagem oferecia pistas de que havia algo de suspeito nesse vazamento.
Em primeiro lugar, havia benefícios muito superiores aos dos anistiados.
Ex-combatentes, por exemplo, recebendo R$ 36 mil e R$ 42 mil. Só
três nomes foram revelados no texto, que não explicou no entanto
por que ganham tanto.
Na reportagem que deu seguimento ao assunto, quarta-feira, nova
surpresa: não só os ex-combatentes têm as pensões mais altas como
também compõem a maior parte da lista completa de quem recebe mais
de dez mínimos do INSS. São 183 nomes, mas só 45 foram divulgados
_os dos anistiados. Quem vazou a lista deve achar que estes têm
menos direito à mamata do que aqueles, um raciocínio capenga sob
qualquer ponto de vista.
Pois foi essa lógica que o jornal validou, publicando a lista capciosamente
parcial. Ele, em primeiro lugar, mas também o Ministério da Previdência,
ainda devem uma explicação à opinião pública e, claro, a lista dos
ex-combatentes.
Sem elas, será lícito supor que a Folha foi manipulada numa
manobra ''mediática'' do governo. Objetivo: reabrir a questão das
aposentadorias especiais, e da reforma da Previdência em geral,
usando como bucha de canhão um grupo reduzido de pessoas que já
foi suficientemente perseguida no passado. Não é justo que só eles
paguem o pato.
Pau na Internet
A maior parte dos usuários brasileiros da rede mundial de computadores
esteve praticamente impedida de ''navegar'' nela, terça e quarta-feira.
Mudanças técnicas efetuadas pela Embratel nas vias de comunicação
criaram um verdadeiro caos telemático no mais badalado meio de comunicação
(ainda que tanta fama não guarde proporção com sua importância econômica
real).
Parece, porém, que a Folha só tem olhos para o ''glamour''
da Internet, e para a promessa comercial que ela representa. Embora
invista pesadamente nessa nova ''mídia'', noticiou de forma mais
que discreta, escondida, o sururu computadorizado em que seu serviço
de acesso (Universo Online) se viu virtualmente paralisado.
Tudo que o jornal publicou na quinta-feira foi um texto de 30 linhas
e título de uma única coluna, espremido entre um anúncio e o canto
de uma página par (menos importante do que as ímpares) do terceiro
caderno, São Paulo. Abaixo da dobra.
Como anotei na crítica interna da edição, a ''Gazeta Mercantil''
foi bem mais generosa com seus leitores. Deu grande destaque na
capa ao assunto, com um bom título: ''O Brasil desliga-se da Internet''.
Anteontem, a Folha recuperou-se. Promoveu a cobertura para
o caderno anterior (Dinheiro) e lhe dedicou uma cabeça de
página.
Antes tarde do que nunca.
Privado, mais caro, ruim
O jornalismo brasileiro só completará sua trajetória de independência
crescente quando usar a virulência das investigações também contra
as vacas sagradas do setor privado.
Por exemplo, avaliando criticamente a fábrica pós-moderna da Volkswagen
em Resende (RJ), como fez na terça-feira o diário norte-americano
''The New York Times''. A reportagem acabou virando notícia na Folha,
que, mesmo estando a três centenas de quilômetros de Resende, e
não milhares, não se dera ao trabalho nesse caso de cumprir com
usa obrigação (ser crítica).
Esta semana, a imprensa nacional deixou ainda passar boa oportunidade
de exercer sua capacidade crítica contra a sacrossanta privatização.
Ninguém menos suspeito do que o ministro Clóvis Carvalho, conhecido
como protótipo do ''gerentão paulista'', andou vociferando na quarta-feira
contra tarifas altas de portos privados. A Folha até noticiou,
mas discretamente, para dizer o mínimo (total de 16 linhas).
Ora, se há portos privados cobrando mais caro que portos estatais,
é a própria razão de ser da privatização que sai arranhada (aumento
de eficiência, diminuição do chamado custo Brasil etc.). Seria o
caso de mostrar que portos são esses, como funcionam, e não ficar
só na declaração do ministro.
Outra boa pauta sobre privatização foi assoprada na coluna Celso
Pinto, na mesma edição de quinta-feira: o contribuinte do Estado
do Rio de Janeiro vai desembolsar R$ 36 milhões (vários meses de
aposentadorias para todos os 45 anistiados da lista) de remuneração
ao banco Bozzano,Simonsen pela administração do Banerj.
O gestor privado estava incumbido de sanear e preparar a venda do
banco sob responsabilidade do governador tucano Marcello Alencar.
No fim das contas, ela acabará sendo feita seguindo a receita Nacional-Econômico,
com separação da parte boa e da parte ruim. Adivinhe quem vai ficar
com o mico.
O Banerj ainda é público e o Bozano,Simonsen está sendo pago com
dinheiro público. Trata-se de uma operação que sempre foi apresentada
como paradigma da privatização, em contraste com a novela ''atrasada''
do Banespa. São razões bastantes para que o bom jornalismo econômico
faça uma radiografia impiedosa dessa administração, aparentemente
mal-sucedida.
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