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São
Paulo, domingo, 01 de dezembro de
1996
MARCELO LEITE
Não. Felizmente, nem sempre o leitor tem razão. Se tivesse, o jornal
seria muito pior do que realmente é. Um dos trabalhos mais difíceis
do ombudsman é convencer o queixoso de que a Folha não conspira
contra ele. Muito menos na seção que lhe é dedicada: o Painel do
Leitor.
O conflito de interesses é insolúvel. De um lado, o interesse particular,
do leitor que dispôs de seu tempo para escrever o que julgou imprescindível
levar a conhecimento do público. De outro, o do próprio público,
pelo qual deve zelar o editor, publicando as cartas mais relevantes.
Sempre repito que o trabalho de editar não é escolher o que sai
no jornal, mas o que vai ficar fora dele. No caso do Painel do Leitor,
aquelas duas colunas no lado direito da pág. 1-3, cerca de 4/5 das
cartas serão desprezadas, necessariamente, por causa da limitação
do espaço.
Os leitores-missivistas preteridos, inconformados com a decisão,
recorrem com frequência ao questionamento dos critérios. Argumentam
que só são publicadas cartas de figurões ou com elogios ao jornal.
Estão redondamente enganados.
Tomei este mês de novembro para um rápido levantamento. Saíram até
a sexta-feira, na pág. 1-3 (edição São Paulo/DF), 271 cartas.
O maior contingente (143, ou 52,8%) foi de textos neutros, no que
respeita ao jornal. O menor (30 cartas, ou 11,1%), justamente de
elogios à Folha, em especial editoriais e colunas de opinião.
Contra o jornal, inclusive Painel do Leitor e ombudsman,
mais que o dobro: 67 (24,7%).
Direito de resposta
Faltam 31 missivas nessa conta, a grande pedra no sapato dos leitores
que se queixam. São só 11,4%, mas como chamam a atenção.
Trata-se de esclarecimentos ou reparos a textos publicados na Folha,
enviados pelos próprios atingidos ou seus representantes, como advogados
e assessores de imprensa. Na Folha, o Painel do Leitor é
o local designado para que exerçam seu direito de resposta.
São ministros, deputados, governadores, todos alvos frequentes de
investigações. Mas também há professores, industriais, cientistas,
dramaturgos. Nem todos se encaixam na rubrica ''figurão''.
Nesses casos, não se aplica a regra jacobina do máximo de 15 linhas,
que vale para todas as outras cartas. Faz sentido. A pessoa ofendida
ou prejudicada tem o direito de argumentar mais longamente, ainda
que nos limites da seção.
O que os preteridos contra-argumentam é que essas cartas-tratados
tomam espaço do leitor ''comum'', que não se manifesta porque foi
atingido pessoalmente, mas como cidadão _leitor, enfim. Acham que
as cartas de resposta deveriam sair à parte, noutra seção, para
que o Painel do Leitor seja de fato deles.
Neste caso, só posso lhes dar razão. Mas é preciso também esclarecer
que essa é uma causa perdida, porque sucessivas consultas do ombudsman
sempre esbarram na mesma posição da Direção de Redação: os que se
queixam, figurões ou não, também são leitores.
Big azar
Se há um leitor que tem muita razão para reclamar é o de fora da
Grande São Paulo. Ele recebe a assim chamada edição nacional da
Folha, que é concluída pelo menos duas horas mais cedo do
que a São Paulo/DF. Até anteontem, 27 deles tinham ligado ou escrito
para fazer um mesmo protesto, contra a promoção Big Sorte
Big Folha
O concurso, com sorteio de dez carros entre leitores que enviarem
cupons preenchidos, foi idealizado para promover a leitura dos cadernos
classificados. Ocorre que tais cadernos só saem na edição São Paulo/DF.
Como os cupons são publicados junto dos classificados, na prática
só os leitores da Grande São Paulo teriam como concorrer.
Por que então se queixam os leitores do interior e de outras Estados?
Porque ficaram sabendo da promoção, mas se viram impedidos de participar,
pela falta de cupons. É constrangedor constatar que ficaram sabendo
pelas páginas da própria Folha, que publicou na edição nacional
mais de um anúncio alardeando tanto a promoção quanto seu regulamento.
É uma das piores coisas que a Folha poderia fazer com esse
contingente de leitores fiéis, que pagam caro para ter um jornal
de qualidade, embora quase nunca traga notícias de suas cidades.
Afinal, eles já estão suficientemente irritados por não receber
os classificados, a Revista da Folha, o Acontece, os 75%
de páginas coloridas da edição São Paulo/DF.
''Discriminação'' e ''eu pago o mesmo preço do jornal de São Paulo''
é o que o ombudsman mais ouve desses leitores. O concurso Big Sorte,
para eles, foi só mais uma forma de desconsideração.
Normalmente não entraria nessa seara, que não é a do ombudsman (jornalismo).
Como ameaça diretamente o maior patrimônio do jornal, credibilidade,
torna-se uma obrigação fazê-lo. Para leitores e assinantes, a Folha
é a Folha, não uma quimera com alma de redação e aparência
de marketing, ou vice-versa.
*
A sucessão de erros foi reconhecida num honesto anúncio-errata publicado
anteontem, cujo texto reproduzo:
''Big Sorte Big Folha é uma Campanha Promocional idealizada
para divulgação específica na região da Grande São Paulo. Infelizmente,
foram constatados os seguintes erros na divulgação:
* 9/11 - No anúncio não constava a informação 'Promoção válida para
os cadernos de Classificados da Folha de S.Paulo que circulam na
Grande São Paulo'.
* 24/11 - O anúncio de capa do jornal foi publicado indevidamente
na edição nacional.
* 25/11 - O anúncio com o regulamento da promoção foi publicado
indevidamente na edição nacional.
* 26/11 - No anúncio publicado na pág. 14 do caderno 5 dos classificados,
consta indevidamente que serão sorteados '10' Big Mitsubishi Eclipse,
e o correto é '1' Big Mitsubishi Eclipse.''
Perspectivas
Nem tudo, porém, são más notícias. A edição nacional ganhará em
breve um número crescente de páginas coloridas, agora que foi completada
a montagem das quatro rotativas do Centro Tecnológico Gráfico-Folha.
Os cadernos regionais que sobrevivem foram incorporados já ao projeto
gráfico introduzido em março. Outras novidades poderão surgir, ao
longo de 1997. Dias melhores virão. Publicidade Pitta/Maluf
Como qualquer idiota poderia imaginar, quem ganhou a licitação para
ficar com a conta de publicidade da Prefeitura de São Paulo foram
Duda Mendonça e Nelson Biondi. Os autores da bem-sucedida campanha
de Celso Pitta terão até cinco anos, um a mais que o mandato do
eleito, para administrar uma conta de R$ 28 milhões. Por ano.
Apesar de previsível, é uma senhora notícia. A não ser, é claro,
que se considere normal tanta promiscuidade entre coisa pública
(o dinheiro do contribuinte torrado na propaganda da prefeitura)
e privada (os interesses eleitorais de Maluf).
O único jornal a dar destaque na capa foi o ''Jornal da Tarde'',
com sua manchete de quinta-feira: ''SP vai pagar R$ 140 mi a gurus
de Maluf''.
A Folha não deu naquele dia uma linha sobre essa vitória
inequívoca da publicidade de resultados. No dia seguinte, sexta,
pôs o assunto no jornal. Melhor seria dizer que o escondeu, numa
notinha de exatas nove linhas, abaixo da dobra de uma página par
do terceiro caderno.
Nada comparável ao barulho que se fez sobre os gastos da então prefeita
Luiza Erundina com publicidade, quatro anos atrás. Seria interessante,
aliás, que a Folha aproveitasse esse gancho para fazer uma
comparação final entre as duas administrações, nessa matéria, agora
que a de Paulo Maluf se encerra.
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