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São
Paulo, domingo, 8 de dezembro de
1996
MARCELO LEITE
Os grandes
casos políticos em curso foram revelados por concorrentes da Folha:
o novo escândalo do Orçamento e a CPI dos precatórios. O primeiro
foi um furo do jornal ''O Globo'' de quinta-feira. O outro resulta
da persistência do diário ''O Estado de S.Paulo''. Ponto para eles.
A denúncia lançada pelo ministro Gustavo Krause no ''Globo'', de
que o deputado federal Pedrinho Abrão (PTB-GO) teria pedido 4% de
comissão a empreiteira para manter verba de obra sua no Orçamento,
vem lembrar que o Congresso não é bem um mar de tranquilidade, em
que manobravam os cruzadores intergaláticos da reeleição.
Como se movem por uma lógica do outro mundo, parlamentares e governo
obrigam a imprensa a reafirmar todos os dias uma velha tautologia:
o segredo é o maior inimigo do bem público.
A culpa do líder petebista ainda está por ser provada, certo, mas
é sintomático que ele tenha desaparecido, de imediato. Manifestou-se
somente por meio de uma nota, na qual mais acusou do que se defendeu.
Torna-se automático suspeitar que tenha algo a esconder.
Quem teve algo para mostrar _valentia de botequim_ nesse episódio
foi outro petebista, Paulo Cordeiro (PR). Acompanhado de sua turma,
foi tirar satisfações com Krause e, impaciente, enfiou a mão na
cara de um assessor do ministro. Depois, deu justificativas pueris,
ainda que coerentes com seu gesto. Coisa de lunático.
Não se deve esperar outra coisa, talvez, de uma instituição que
admite o convívio com _entre outros_ um senador que também investiu
contra o rosto de desafeto político. Mas com um tiro, na hora do
almoço, num movimentado restaurante de João Pessoa (PB). Depois
da tentativa de homicídio, foi muito bem votado.
É por essas e por outras que falar em opinião pública, no Brasil,
é falar de uma quimera, do dragão de São Jorge. Não tem cabimento
culpar apenas o Congresso. Enquanto pessoas como Paulo Cordeiro
e Ronaldo Cunha Lima forem tratados com a dignidade que seus próprios
atos contradizem, somos todos nós, e a imprensa em particular, que
temos de nos envergonhar.
Dívida astronômica
O caso dos precatórios (determinações judiciais para pagamento de
dívidas de governo) não desceu ainda tão baixo. Mas não lhe falta
potencial, uma vez que os valores envolvidos são muito altos. Astronômicos,
mesmo, daqueles que, se transformados em notas de R$ 1 enfileiradas,
dariam várias idas e vindas à Lua.
Até agora a Folha foi mal nessa história. Chegou atrasada
e com certa timidez, por assim dizer. Mas o caso não pára de crescer
e já deu até em CPI.
Ele cresce por uma razão simples: é absurdo. Através de uma brecha
da Constituição de 1988, governadores e prefeitos começaram a imprimir
dinheiro (emitir títulos) para honrar pagamentos determinados pela
Justiça. Só em teoria, porque emitem valores muito maiores do que
o necessário, em alguns casos com manipulação de informações e documentos.
A Prefeitura de São Paulo foi uma das que mais emitiu, coisa de
bilhão para cima. Só um décimo do dinheiro levantado foi para precatórios.
O restante caiu na vala comum que abasteceu a festa de inaugurações
de túneis e viadutos que ajudou a eleger Celso Pitta. Ele esteve
no centro dessa prestidigitação financeira, como secretário de Finanças.
A festa dos governadores e prefeitos ajudou a complicar a dívida
pública, que dez entre dez economistas dizem ser o calcanhar-de-Aquiles
da estabilidade macroeconômica no Brasil. Vista desse ângulo, a
irresponsabilidade dos governantes já seria suficiente para enrubescer
a face risonha da própria Lua. E para encher os jornais de reportagens
investigativas.
Os leitores da Folha ainda aguardavam, anteontem (quando
foi redigida esta coluna), uma radiografia implacável das emissões
paulistanas com o álibi dos precatórios. Há muitas perguntas sem
resposta: no que foi gasto o dinheiro da diferença, se alguém pode
ou deve ser responsabilizado por esse desvio, por que o Senado e
o Banco Central autorizaram essa orgia, se houve participação de
corretoras na montagem das emissões, qual o lucro por elas auferidos
na compra e venda desses títulos.
Contagem regressiva
No domingo passado, a Folha publicou a segunda e mais importante
lista de aposentadorias especiais do INSS, a dos ex-combatentes.
Anteriormente, tinha saído no jornal somente a dos anistiados políticos.
Sanada a omissão discriminatória, sobram ainda questões não esclarecidas.
Em primeiro lugar, o jornal não explicou por que os proventos de
ex-combatentes alcançam valores muito superiores aos de anistiados.
Em segundo lugar, por que há tantos nomes de mulheres entre as pensões
mais altas. Supõe-se que sejam viúvas de ex-combatentes, cuja carreira
profissional tenha sido abortada antes de chegarem aos postos em
que teriam salários de R$ 42 mil... Não são exatamente frequentes
salários dessa ordem, no Brasil.
Os leitores devem se preparar, porque novas listas virão por aí,
e muito mais revoltantes. Isso, claro, se a facilidade com que vazam,
no INSS, listas prejudiciais a pessoas físicas for observada também
com pessoas jurídicas. Afinal, essas aposentadorias especiais _injustas,
repito, para que não alistem o ombudsman entre os defensores dos
marajás_ mordem o INSS em alguns milhões. A sonegação de contribuições
previdenciárias, por seu turno, alcança a casa de R$ 6,7 bilhões.
A informação é da própria Previdência. Está no ''Estado'' de anteontem.
O ministério comandado por Reinhold Stephanes anunciou também que
conclui até quinta-feira próxima a relação dos maiores sonegadores
de São Paulo, onde se concentra quase metade desse buraco negro.
Com certeza o ministro convocará toda a imprensa para apresentar
a lista. É a atitude a esperar de quem tem compromisso com o bem
público e não divulga somente as informações que lhe convêm.
Desestatizando a Lua
A manchete realmente surpreendente da semana foi do ''Globo'', mas
não a do novo escândalo do Orçamento. Um dia antes, o jornal do
Rio tinha conferido estatura épica à notícia mais interessante daquele
dia: ''Descoberta de água na Lua pode permitir colonização do espaço''.
Por um instante, o leitor foi teletransportado de um mundo povoado
de anões morais para a imensidão do cosmos. Pensou ter ouvido um
eco distante de outros tempos e outros jornais, com notícias muito
mais relevantes para dar: ''Men walk on Moon''. Foi o paroxismo
da idéia de ''desestatização'' do noticiário, da necessidade sentida
por quase todos os jornalistas, hoje, de tornar seu relato do mundo
menos dependente do Estado e suas mazelas.
Essa instituição anda mesmo com prestígio mais baixo que o da Nasa.
A agência espacial norte-americana, e todo o complexo industrial-militar
que semeou à sua volta, espera ansiosamente a reativação do programa
espacial. ''Descobertas'' como a de vida em Marte e de água na Lua,
na realidade indícios muito indiretos que demandarão ainda anos
de pesquisa, são a sua sopa no mel, como a mulher de 40 anos para
um decadente Roberto Carlos.
Foi o que faltou dizer no noticiário selenita desta semana. Uma
consideração mais prudente e desconfiada poderia resultar num tratamento
discreto, como o título de duas colunas no alto da capa da Folha.
Foi uma decisão acertada. Sua manchete daquele dia, no entanto,
era de uma mundanidade aterradora, em comparação com a do concorrente
fluminense: ''Imposto de microempresa é reduzido''.
Todos os jornais estão tateando, nessa busca de novos temas e abordagens
que se convencionou chamar de ''desestatização''. Talvez gastem
mais tempo nessa exploração do que a sonda Pathfinder levará para
pousar em Marte. Para abrir esse caminho, é preciso arriscar umas
tantas ''viajadas na maionese'' até a Lua, como a do ''Globo''.
Não é só com pequenos passos, mas igualmente com pequenos tropeços,
que se preparam os grandes saltos.
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