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telha quebrada e o kamikaze |
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São
Paulo, domingo, 12 de janeiro de
1997
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Juan Esteves - 16.set.1993/Folha Imagem
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Mario
Vitor Santos foi o ombudsman
da Folha, pela segunda vez,
de 6/1/97 a 28/12/97 |
MARIO
VITOR SANTOS
Retornar a este espaço e à função de representar os leitores da
Folha é responsabilidade e prazer, ainda mais estimulantes
porque a volta encerra uma doença desagradavelmente prolongada.
Agradeço ao jornalista Marcelo Leite, que adiou a satisfação de
interesses pessoais para preencher minha ausência. Ele soube exercer
com notável competência o trabalho de servir aos leitores e zelar
pela observância de princípios éticos na esfera do fazer jornalístico.
A delícia desta função é quando se pode ver o crescimento de uma
mentalidade ética de restrição dos prejuízos que possam ser causados
pela atividade jornalística. Em muitas ocasiões, a extensão desses
danos não é muito clara. Em outras, é evidente.
Um dos primeiros casos que atendi durante esta primeira semana foi
o de Célia Ferreira da Costa, sub-síndica de um prédio da Vila Madalena,
bairro da zona oeste da capital de São Paulo.
Ela ligou para dizer que um fotógrafo da Folha danificara
o telhado de seu prédio. Buscando o melhor ângulo para documentar
o reinício das obras do metrô no bairro, o fotógrafo Otavio Dias
de Oliveira pedira ao zelador do prédio autorização para subir ao
terraço, de onde se pode ter uma boa visão do canteiro de obras
em frente.
É dali que os fotógrafos de vários veículos de comunicação costumam
fazer seu trabalho quando o assunto é metrô Vila Madalena. Não satisfeito,
o fotógrafo da Folha quis uma visão melhor e aventurou-se
no telhado, onde acabou quebrando uma telha de amianto.
Diz o repórter-fotográfico, em seu relatório sobre o caso: "Como
o zelador do prédio estava me acompanhando, perguntei o que poderia
fazer para reparar o dano. No ato, me prontifiquei a pagar pelo
estrago. Ele disse que tinha telhas de reserva e sugeriu que eu
o ajudasse a fazer a troca. Ajudei-o a pegar, cortar e recolocar
a telha nova durante 40 minutos e, ao término, perguntei novamente
se não seria necessário ressarcir o dano".
Em telefonema, a leitora e sub-síndica declarou que o serviço não
foi satisfatório e pediu que o jornal providenciasse uma telha nova.
A Folha foi imediatamente comunicada: "O jornal se dispõe
a ressarcir eventuais prejuízos de qualquer forma", respondeu a
secretária interina de Redação, Paula Cesarino Costa. Ainda falta
acertar detalhes para encerrar o caso. Dele, o mais importante é
mostrar que na Redação da Folha se institucionaliza uma cultura
de respeito a limites na atividade jornalística e de reparação dos
danos que possa causar.
Várias iniciativas, inclusive os sete anos de existência da função
de ombudsman, contribuem para o enraizamento dessa mentalidade.
*
Hitomi Tsuyoshi não suportou a espera. Depois de tantos dias sem
notícias, resolveu apelar a um gesto desesperado. Com seu tradutor
de castelhano na cola levando a câmara, o jornalista deu um jeito
de furar o bloqueio policial em torno da embaixada japonesa em Lima,
ocupada pelos guerrilheiros do Tupac Amaru.
Cartazinho da TV Asahi como escudo, ele esgueirou-se até conseguir
entrar na embaixada para entrevistar os sequestradores com exclusividade,
furando 600 jornalistas de plantão em torno do local.
Ao sair, duas horas depois, foi preso pelas autoridades peruanas
e teve seu material confiscado. Há quem o acuse de pôr em risco
a vida dos reféns, ameaçar as negociações para o fim do sequestro
e até subornar vizinhos para se aproximar da embaixada.
E a Folha? Qual a política do jornal para o seu enviado especial
a Lima, Igor Gielow, num caso como este? A editora de Exterior,
Andréa Fornes, há 11 anos na Folha, explica que, por princípio,
o jornal deseja obter a notícia, mas não incentiva comportamentos
que possam expor a vida do jornalista ou ameaçar reféns. Quanto
ao jornalista japonês, ela acha que não houve risco demasiado. "Deve
prevalecer a avaliação do jornalista no momento", acrescenta.
O enviado Igor Gielow, cinco anos no jornal, considera que o jornalista
agiu corretamente ao tentar a entrevista. "O risco era limitado.
Os guerrilheiros não iam atirar, como não atiraram contra o grupo
de 30 jornalistas que os entrevistaram há duas semanas. É uma guerra
de comunicação e eles desejam transmitir uma imagem simpática",
diz ele. Quem não gostou foi o governo peruano, que está perdendo
a batalha na mídia.
Como em quase todas as discussões envolvendo situações-limite da
ética jornalística, não existem limites claros e simples. E você,
o que acha? Envie suas opiniões para o ombudsman. O assunto será
abordado nesta coluna no próximo domingo e também no bate-papo eletrônico
com os assinantes do Universo Online na quarta-feira das 18h30 às
19h30.
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