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São
Paulo, domingo, 19 de janeiro de 1997
MARIO VITOR SANTOS
Depois de um período de muita confusão de informações, a impressão
que se tem, ao ler os jornais e assistir aos noticiários de televisão
nos últimos dias, é de que a votação do direito de o presidente Fernando
Henrique Cardoso concorrer à reeleição complicou-se, de maneira súbita
e inexplicável.
Muitos podem ter ficado com a equivocada percepção, ao ler os jornais,
de que o apoio à tese da reeleição entre os deputados era tranquilo
e maciço.
Podem também ter ficado perplexos com a inesperada evaporação desse
apoio ao governo na Câmara, no estreito período entre a sexta-feira
da semana passada e a convenção do PMDB de domingo, quando ficou claro
que o caldo governista entornara de vez.
Havia um clima de ''já ganhou'', fomentado pelos gabinetes das lideranças
governistas no Congresso e que encontrou terreno para livre curso
nos meios de comunicação.
Avaliações muito otimistas eram reproduzidas, sem que se desse muita
importância àqueles que, à direita e à esquerda, asseguravam que o
governo estava blefando, que não tinha a maioria que alardeava.
Como é normal na política, a disputa passava por uma guerra de comunicação.
E a mídia já tinha feito uma opção nessa guerra.
O primeiro veículo a se libertar da manipulação oficial foi esta Folha,
com dois levantamentos das opiniões dos deputados sobre a reeleição,
publicados na sexta-feira da semana passada e no dia seguinte.
As duas pesquisas, conduzidas em paralelo, uma por um grupo de repórteres
e a segunda pelo Datafolha, invertiam drasticamente as expectativas
divulgadas pelos canais governistas. Mostravam que a emenda da reeleição
estava longe, muito longe de obter os apoios na quantidade necessária
à sua aprovação.
Depois disso, surgiram outras avaliações, as próprias autoridades
admitiram a ''mintchura'', ficou clara a tática oficial de atrair
apoios por ''gravidade'', como foi dito, ou seja, via discreta manipulação
da opinião pública e da opinião dos parlamentares com a inocente ajuda
dos meios de comunicação.
O desmonte da estratégia foi possível graças ao trabalho dos repórteres
envolvidos exclusivamente durante três dias no levantamento (Ana Maria
Mandim, Augusto Gazir, Daniela Falcão, Francisco Câmpera, Paulo Silva
Pinto e Xico Sá) e ao Datafolha, pela pesquisa publicada em seguida.
Permanece, entretanto, a pergunta mais importante: por que ainda hoje
a mídia em geral, mesmo aquela mais independente e iconoclasta, continua
tão vulnerável a ponto de quase se entregar a manipulações numéricas?
Por que revela-se tão pouco crítica, mostra-se nestes tempos, talvez
como nunca antes, disposta a se submeter ao governo?
Este será o tema do Bate-papo com o ombudsman, quarta-feira, das 18h30
às 19h30 no Universo Online.
*
A vez do kamikaze
Os leitores atenderam o convite feito aqui na semana passada para
debater a questão do jornalista japonês que furou o bloqueio policial
e invadiu a embaixada do Japão em Lima para obter uma entrevista com
os guerrilheiros do Tupac Amaru.
André Gomes de Assis, de Ouro Fino (MG), diz que os integrantes do
Tupac Amaru não são criminosos comuns. Segundo ele, ''nessas circunstâncias,
o sequestro torna-se uma batalha de propaganda entre a esquerda armada
e o governo. Se não, que dizer da ridícula reivindicação dos guerrilheiros
de mudança da política econômica do governo? Sob esse ponto de vista,
dificilmente os guerrilheiros disparariam algum tiro ante o gesto
do jornalista Tsuyoshi''.
Marcio Vaz Fernandes, de São Paulo, concorda com a atitude do repórter
japonês, mas faz um alerta: ''É necessário que o jornalista ambicioso,
que se lança a situações perigosas em busca de bons resultados, saiba
avaliar o que é oportuno ou não num determinado momento''.
A vantagem de encerrar um debate é que você pode ficar com a última
opinião. A minha difere das anteriores.
Parto da opinião de que a ação do jornalista expôs, mesmo que limitadamente,
a vida dos reféns.
Fico, assim, por analogia, com o que prescreve o verbete ''razões
de segurança'' do ''Novo Manual da Redação'': ''A Folha...
pode decidir omitir informação cuja divulgação coloque em rico a segurança
pública, de pessoa ou de empresa''.
Se pode deixar de publicar, pode, e deve, pelas mesmas razões de segurança,
deixar de apurar. Tenho dito.
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