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| "Abertas" |
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São
Paulo, domingo, 02 de fevereiro de 1997
MARIO VITOR SANTOS
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Fotos
Moacyr Lopes Junior/Folha Imagem
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Soldado
da PM agride garoto de rua conhecido como Júnior, na
quinta-feira, na região central...
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...de
São Paulo; antes, o garoto havia sido capturado e arrastado
por outro PM; o flagrante foi feito...
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...pelo
repórter fotográfico Moacyr Lopes Junior e publicado na Primeira
Página da Folha no dia seguinte |
Você
publicaria as três fotos que vê aqui? Sim ou não? Na sexta-feira passada,
quem viu a Folha notou, elas saíram bem "abertas" na Primeira
Página do jornal e na capa dos cadernos São Paulo e Cotidiano.
"Abertas", em jargão de redação de jornal, quer dizer que as fotos
foram editadas em tamanho grande. Você comentou com alguém sobre as
fotos, em casa, no trabalho? Revoltou-se com quem? O garoto? O policial?
A Folha?
Feitas pelo repórter-fotográfico
Moacyr Lopes Júnior, as fotos dispensariam legendas. Os policiais
dominam
o rapaz, que resiste a uma suposta blitz antidrogas.
Usam de violência, seguram
armas, mas também parecem subjugados. A despeito de apanhar, o garoto
ri, escarnece.As fotos são redundantes. Mostram um lado da realidade
com a qual a grande maioria dos moradores das grandes cidades brasileiras
teve que aprender a conviver.
A miséria, o descaso
com as crianças de rua, a violência que elas devolvem à sociedade
são apenas um incômodo, cada vez mais tolerado e, quando possível,
ignorado.
Duas leitoras
me ligaram a respeito no mesmo dia, ambas para protestar contra a
publicação das fotos e o título crítico que precedia as legendas:
"Argumento da força".
A engenheira
química Magda Lucia Piraine, moradora na região central da cidade,
disse já ter sido agredida várias vezes por aqueles "trombadinhas
da Amaral Gurgel".
Diz que são os responsáveis por ela sofrer de pânico quando passava
por ali. Não passa mais.
A leitora entendeu que a publicação das fotos é simplista e demagógica,
crucifica os PMs que "afinal, agiram com os meios que tinham para
controlar a situação. Eles, que ao menos estão tentando fazer alguma
coisa, não deveriam ser crucificados. Fiquei com mais dó do policial".
Também a dona-de-casa Edmar Fustinoni Pagani comunicou-se para transmitir
seu protesto pelo "exagero" da publicação de seis fotos, três na capa
do jornal, três nas capas dos cadernos Cotidiano (edição Nacional)
ou São Paulo.
Para ela, a Folha contribui para estimular ainda mais a omissão
da polícia, que já é totalmente desestimulada por causa dos baixos
salários. Diz que a sociedade deveria se unir para enfrentar o problema,
não desmoralizar quem está tentando fazer algo. "Aqueles meninos já
colocaram até gilete no rosto da minha filha, você entende?", enfatiza.
"O cidadão honesto está completamente desprotegido", acrescenta.
Os leitores Silvia Cortez, Mauricio Gonçalves e Ernande Pinho assinaram
correio eletrônico para dizer "em cinco minutos de conversa no escritório,
todos foram contra a reportagem".
Ninguém se comunicou para apoiar a publicação da sequência de fotos.
Para as duas leitoras que telefonaram, argumentei em favor da publicação
das fotos.
Em si, as fotos já teriam importância jornalística. Mas publicar apenas
uma delas não conseguiria mostrar os detalhes da cena e não teria
o efeito de abalar a barragem de conformismo em torno do tema. "Abertas",
em sequência, as fotos sacodem, ao menos por instantes, a sedação.
Reagimos. Às vezes, contra o jornal. Inclusive porque a miséria brasileira
insiste em invadir suas páginas, esta cidadela "highbrow", cosmopolita,
que tantas vezes está além dessas coisas. E a miséria se intromete
em nossas vidas justo por meio deste emblema da nossa identidade e
diferença, o jornal .
Não haveria talvez quem quisesse fazer com os garotos o que os policiais
estão fazendo?
Em lugar disso, o jornal trai, escancara e repudia a truculência e
a impotência policial, a ilegalidade, a eterna omissão do Estado,
a nossa ambígua posição. Incomoda, é verdade. Irrita também. Pode
não ter sido muito elegante ou na dose certa. Mas obriga a pensar.
Lembrete
Citada duas vezes na Folha quarta-feira passada, em ambas a
autoria da última entrevista de Antonio Callado ao jornal foi atribuída
apenas a Matinas Suzuki Jr.. A referida entrevista, publicada há uma
semana, foi realizada igualmente pelo jornalista Mauricio Stycer.
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