|


O que é o cargo
Fale com a
Ombudsman
Mural
Colunas
Anteriores
FiloFolha
Dúvidas mais
Frequentes
Bate-papo
|
 |
| Mais
luz, mais ilusões |
 |
|
São
Paulo, domingo, 05 de janeiro de 1997
|
Paulo
Giandalia - set.1994/Folha Imagem
|
 |
Marcelo
Leite foi ombudsman da Folha
de 28/9/94 a 5/1/97 |
MARCELO
LEITE
Deixo de ser ombudsman da Folha depois de 831 dias no cargo
e 107 colunas como esta. Já vou tarde, pois exercia a função interinamente
desde final de setembro, quando motivos de saúde impediram Mario
Vitor Santos de assumir. A partir de amanhã, ele é o novo ombudsman,
mas não um novato (já frequentou este pelourinho moral entre 1991
e 1993).
Prazer e pesar se misturam, nesta despedida. E otimismo.
Alívio: sábia é a regra adotada na Folha que fixa o mandato
do ombudsman em no máximo dois anos. Muito mais tempo no liquidificador,
desandaria a liga delicada com leitores e Redação, como ovos, azeite
e limão na maionese. A acidez prevaleceria, degradando uma invenção
civilizada em grumos e azedume.
Aflição: afastar-se com a inevitável sensação de que muito mais
deveria ter sido feito, tantas são as deficiências do jornalismo
diário praticado no Brasil _e da Folha como seu expoente,
para o bem e para o mal.
Resta o consolo de reconhecer que tão importante quanto espremer
limões é obter os ovos gordos da reportagem e o azeite fino da pesquisa.
De volta à feira, portanto.
Certeza: Mario Vitor Santos atuará novamente com competência no
papel de guardião do livro de receitas (o "Novo Manual da Redação").
Menos mercado
Em lugar do tradicional balanço de final de mandato, ofereço um
brinde. Um brinde ao futuro do jornalismo, que se encontra numa
encruzilhada. Meus votos são de que siga pelo caminho certo, escolhendo
a informação e não o entretenimento, equilíbrio em lugar de sensacionalismo,
a opinião pública antes do mercado.
De um ponto de vista abstratamente ético, moral, ou mesmo moralista,
as alternativas parecem fáceis de decidir. Não são; nunca foram.
Diversão, emoção e valor de troca são inseparáveis da informação,
um bem de consumo. A questão está em discernir que tais atributos,
apesar de tudo, não a governam. São condições necessárias da notícia,
não suficientes.
O país está terrivelmente necessitado de mais relevância, mais critério,
por parte do jornalismo.
O sucesso mais econômico do que político e social do governo Fernando
Henrique Cardoso engendra consensos aparentes: Plano Real, privatização,
reeleição. Não se trata de fazer oposição, e sim de apontar-lhes
as fissuras, alternativas, motivações, bastidores. Indicar suas
limitações, sem omitir as realizações, que no entanto cabe ao próprio
governo propagandear.
Não é e não será simples resistir ao charme dos tucanos. Em primeiro
lugar, porque eles traficam com as informações, como fazem todos
os governantes. Depois, porque "pessimismo" e "negativismo" viraram
estigma mercadológico.
Por fim, há o complicador adicional dos interesses empresariais
de todos os grandes grupos de comunicação nas áreas de telefonia
e privatização. Tais interesses deixam as publicações com um desconfortável
"handicap" de independência perante o governo federal.
Mais exemplos
Há muito mais coisas por fazer do que feitas, no Brasil. É disso
que os jornais têm de falar, sem a pieguice de socialite que acabou
de descobrir a miséria ou o preconceito de sulista que se envergonha
dos grotões do país.
Não é só fazer caminhões de reportagens sobre saúde e educação,
ou continuar fomentando a psicose coletiva da segurança na classe
média. É preciso mudar organicamente a relação dos jornalistas com
suas fontes tradicionais, nesses campos.
A reforma mais urgente de comportamento diz respeito à polícia,
talvez a mais bruta, inepta e corrompida instituição brasileira.
É imperioso começar a confrontá-la, mesmo sob o risco de ficar sem
informações.
Enquanto o método básico de investigação for a tortura, a imprensa
deveria renunciar unilateralmente à divulgação das identidades de
suspeitos. Sem atitudes como esta, jornalistas continuarão deitando
lágrimas de crocodilo depois de casos como o da escola Base e do
bar Bodega.
A imprensa não presta para nada se não se atribuir uma missão civilizatória.
Para desempenhá-la com credibilidade, precisa dar exemplo de competência,
a começar por escrever certo e de forma compreensível. A Folha,
com o programa de prevenção de erros desenvolvido nos últimos dois
anos, tem marcado pontos importantes.
Falta habilidade e senso crítico no trato com números e estatísticas,
enquanto sobra fetichismo. Todo cuidado é pouco com relatórios "vazados"
pelo governo, mas também por institutos de pesquisa comerciais e
até pelas aparentemente santas ONGs (organizações não-governamentais).
Isso para não falar de estudos de órgãos internacionais, que descobriram
há muito mais tempo o filão das cifras escandalosas.
Menos marketing
É preciso também coragem para pôr no devido lugar as ferramentas
de marketing e as pirotecnias industriais. Depois do extraordinário
ganho de massa circulatória propiciado pelos "anabolizantes" (fascículos),
e superados os problemas mais graves do novo Centro Tecnológico
Gráfico-Folha (CTG-F), o jornal parece suficientemente provisionado
para a tormenta da qualidade, que se avizinha.
O diesel jornalístico ainda é informação exclusiva e bem apurada.
Sem ele, o transatlântico não sai do lugar. Para chegar a bom porto,
porém, a Folha precisa de rotas menos aventurosas do que
as que conduziram aos fiascos de distribuição de 9 de outubro de
1994 e 3 de março de 1996.
Duas datas inesquecíveis para o ombudsman, assim como para qualquer
jornalista que tenha compartilhado a tarefa de fazer um bom jornal
todos os dias, nesta época turva.
Mais ilusões
Para escrever este texto, reli boa parte das colunas dos últimos
27 meses. O tom que predominou foi mais que ácido. Deve ter deixado
nos leitores _sobretudo os da Redação_ a certeza de que escrevia
sob inspiração do terrível epigrama de Karl Kraus reproduzido no
início do "Novo Manual da Redação" da Folha: "A missão da
imprensa é espalhar espírito e, ao mesmo tempo, destruir a capacidade
de absorvê-lo".
Não é nada fácil convencer-se da injustiça da frase de Kraus, mas
é imperioso iludir-se. É o tipo da ilusão que todo jornalista, e
a rigor todo leitor de jornal, deve voluntariamente acolher. Não
têm saída, a não ser apostar na perfectibilidade do jornalismo.
Os defeitos congênitos da informação e da esfera pública só encontram
remédio em mais informação. Por isso também é inaceitável, ainda
que verdadeira a seu modo, a maldição proferida por personagem do
magistral "Ilusões Perdidas" de Honoré de Balzac: "Se a imprensa
não existisse, seria preciso não inventá-la".
Uma democracia, ainda que débil, subdesenvolvida e injusta como
a brasileira, está condenada à imprensa. A maior parte dos defeitos
do jornalismo daqui decorre do pouco caso com essa vocação. Para
fazer a coisa certa, é preciso reencontrar a determinação de contribuir
para o desenvolvimento e o esclarecimento da opinião pública, provando
a todos que ela pode ser algo mais do que uma quimera.
Colunas
anteriores
29/12/1996
- A
revolução de 1997
22/12/1996 -
Só Esso dá a seu jornal
o máximo?
15/12/1996 - Heróis
e bandidos
08/12/1996 - No mundo da lua
01/12/1996 - O leitor tem sempre razão
subir

|
|
|