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São
Paulo, domingo, 09 de fevereiro de 1997
MARIO VITOR SANTOS
Paulo
Francis foi um jornalista incomum, o último expoente de um estilo
jornalístico agressivo, personalista, exímio na retórica furibunda
dos palanques, dos teatros, amante do espetáculo e do confronto.
Era o grande sobrevivente de uma prosa de tribuno, que prosperou
na imprensa brasileira ao longo deste século, em particular no Rio.
Francis é da linhagem de Lacerda e Hélio Fernandes.
Ele está mais próximo destes do que para os que fizeram revoluções
na imprensa, como as equipes lideradas por Pompeu de Souza, Janio
de Freitas, Samuel Wainer, Alberto Dines, Otavio Frias Filho.
Talvez seja questionável _como assinalou Caio Túlio Costa neste
espaço, para grande irritação do personagem_ considerar que Francis
tenha tido as características do jornalista e assim fosse avaliado.
Não importa. Como repórter, fez trabalhos de peso, na linha da grande
reportagem comentada, mas com os olhos do espectador cuja visão
é tão poderosa que acaba por se sobrepor aos fatos, às vezes à custa
de desfigurá-los inapelavelmente.
A rigor, sua influência para a cultura jornalística foi nefasta,
pelo que trouxe de permanência do idiossincrático, preconceituoso
e persecutório. Que o digam suas vítimas.
Francis realizava o desejo secreto de muitos profissionais. Praticava
um jornalismo de desmesura, romântico na essência, sem matizes,
sem dialéticas e sem submissão a qualquer constrangimento.
Francis seguia em frente, alheio às carcaças fumegantes dos mortais.
Lê-lo era gozar um pouco os prazeres dessa esfera de poder. Era
muitas vezes um alívio divertido, um abandono a esse incontido e
irresponsável transbordar, proibido à maioria.
Deixou seguidores, como foi notado por um atento observador, nos
artigos que comentavam a sua morte.
Neles, a avaliação racional, distanciada, crítica, do papel de Francis
para o jornalismo foi, em geral, deixada de lado.
Amigos _afinal ele passou por muitas redações_ fizeram homenagens,
deram relevo a sua doçura no trato íntimo. A apreciação de sua conduta
privada inibiu ou enviezou a análise da atuação pública.
Notando isso, o leitor Caio Rossi de Oliveira entrou em contato
com o ombudsman para criticar a cobertura da Folha: ''A impressão
que passa é que, em uma atitude corporativista, seus pares, mesmo
os mais éticos em sua profissão, passam a defender o direito a acusar
levianamente qualquer um, a qualquer hora, e sem provas, como era
prática de Paulo Francis''.
Salvo uma ou outra exceção, os artigos sobre a morte dele fixaram-se
em convicções extraídas de relações interpessoais. Podiam ter o
mesmo título: "Francis e eu".
Como se falou, Francis é insubstituível, só haverá um Francis. Mesmo
porque, ele mesmo reconhecera, seu tempo passou. A imprensa e a
sociedade são bem diversos em relação ao Brasil de quando ele começou.
O jogo virou
Muitos leitores sentiram-se motivados pela coluna de domingo passado
(''Abertas'') e procuraram o ombudsman para comunicar sua opinião
a respeito da publicação de fotos, na sexta-feira anterior, de um
incidente violento envolvendo policiais militares e um menino de
rua em São Paulo.
Das 39 pessoas que entraram em contato com esse fim, por telefone,
fax, carta, visita ou correio eletrônico, 29 elogiaram a Folha
pela publicação dos flagrantes, 10 criticaram o jornal.
Dentre os que elogiaram, houve expressões de júbilo (''Esta é a
minha Folha!'', por exemplo). Quem criticava, atacava o tom
demagógico e antipolicial que identificava na publicação das fotos.
No domingo passado, o placar era de 5 a 0, contra a publicação.
Bate-papo
O ombudsman participa de ''Bate-Papo'' com os leitores nesta Quarta-feira
de Cinzas, das 18h30 às 19h30, no Universo Online.
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