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São
Paulo, domingo, 16 de fevereiro de 1997
MARIO VITOR SANTOS
A brasileira Lamia Maruf Hassan foi libertada pelas autoridades
israelenses após cumprir 11 anos de prisão. Chegou ao Brasil na
quinta-feira, na crista de uma onda de euforia por parte de quase
todos os veículos de comunicação.
Sua recepção no aeroporto de Cumbica teve cenas de jornalismo de
rebanho, com repórteres se atropelando, faixas de apoio, bandeiras,
festa e cantoria. Parecia a chegada de uma estrela do rock, jogador
de futebol ou piloto de Fórmula 1.
Antes de ser anistiada, a brasileira cumpria pena de prisão perpétua
em Israel por ter atuado como mais do que só uma ''laranja'' no
sequestro de um soldado israelense, que acabou assassinado. Ela
usou seu passaporte brasileiro para conseguir alugar o automóvel
usado no sequestro, ocorrido em 1984, em território israelense.
A vítima, o soldado David Manus, que solicitou carona no carro com
placas israelenses conduzido por Lamia, foi morta sem defesa, por
determinação do comando palestino. A brasileira não participou do
assassinato, mas ajudou no sequestro. Não é assassina, mas está
longe de poder ser considerada heroína.
O lado evidentemente correto de sua libertação tem a ver com uma
decisão política de Israel, é uma conquista palestina, no contexto
contraditório do apaziguamento das relações entre os dois povos.
E nesse sentido a libertação deveria ser entendida e até saudada.
Comemorações, porém, deveriam restringir-se ao círculo familiar,
à intimidade da personagem. Não havia razão para convidar o público
a compartilhar a festa.
A Folha não se diferenciou do tom predominante na mídia,
não manteve a contenção e o equilíbrio que o tema demandava. Veiculou
até o cardápio que seria servido na recepção familiar a Lamia. Quando,
afinal, os quitutes foram oferecidos, a imprensa, presente, também
provou.
Ninguém _a Folha incluída_ deu tratamento explicitamente
elogioso a Lamia. Mas a superexposição e a falta de discrição na
cobertura acabaram imprimindo sinal positivo ao personagem. É um
subproduto perverso da espetacularização do noticiário, inofensiva
em alguns casos, prejudicial na maioria.
O leitor Roland Kremp, diretor de uma escola para crianças carentes
em São Paulo, alemão de nascimento e naturalizado brasileiro, ligou
para o ombudsman para manifestar sua estranheza pelo destaque dado
ao assunto: ''Muitos jovens podem tomar Lamia como falso exemplo
e isso não é bom'', disse.
Por correio eletrônico, Matheus Drummond Costa foi enfático: ''Só
falta agora, no país da impunidade, elegê-la deputada ou coisa parecida''.
Fazendo coro a cartas publicadas no Painel do Leitor, Noemi Maruyama
criticou ''o confete todo que a imprensa está jogando na Lamia.
Além de injustificável, só serve para confundir ainda mais a opinião
pública''.
Se a brasileira Lamia Hassan contribuiu para um frio assassinato
de cunho terrorista, ou se seus atos encontravam justificação na
falta de alternativas para a luta palestina diante do ocupante israelense
é a complexa questão que o noticiário acabou evitando.
Por situações assemelhadas, comandantes sérvios da Bósnia estão
indo a julgamento por violações das disposições da Convenção de
Genebra para crimes de guerra.
Comemorações por Lamia pela mídia, nesse caso, resultam tão incabíveis
quanto o monumento erigido por colonos judeus ortodoxos em território
palestino para homenagear o fanático que matou 29 árabes numa mesquita
de Hebron em 94. Nada a comemorar.
Folha
Ouvida a respeito do caso, a editora de Exterior e Ciência,
Andréa Fornes, 32, declarou:
''Há uma significativa diferença entre qualidade e quantidade na
cobertura da libertação de Lamia Maruf Hassan. O fato de a Folha
ter publicado extenso material sobre a ex-prisioneira se justifica
por seu ineditismo.
Poucas vezes um/uma brasileiro/brasileira esteve no centro de um
importante acontecimento internacional. A libertação das prisioneiras
por Israel na semana passada representa o cumprimento de mais uma
etapa do importante processo de paz em curso no Oriente Médio.
Não é por ter dado destaque ao assunto que a Folha 'imprimiu
sinal positivo ao personagem'. Procuramos em todas edições deixar
bem claro ao leitor que a brasileira participou, junto com o marido
e outro palestino, do assassinato de um soldado israelense. Ela
foi também responsável por essa morte.
Mas é necessário ressaltar, como fizeram representantes da comunidade
judaica em entrevista à Folha e a outros veículos, a importância
da libertação da brasileira e de outras prisioneiras palestinas
no contexto político dos acordos de paz entre israelenses e palestinos.''
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