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| ''Casal
oferece criança por US$ 8.000 para tortura'' |
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São
Paulo, domingo, 23 de fevereiro de 1997
MARIO VITOR SANTOS
''Um casal
alemão de Rosenheim (sul do país) foi preso anteontem acusado de
oferecer crianças via Internet para serem torturadas. Uma menina
de 10 a 14 anos custava o equivalente a US$ 8.000. No caso da eventual
morte da vítima, uma quantia extra equivalente a US$ 2.000 teria
de ser paga.''
Ponto final. Nada além disso. Essa notícia, publicada bem pequena,
no limite inferior da página 1-20 da edição nacional da Folha
de 26 de janeiro passado, com o título ''Casal oferece criança por
US$ 8.000 para tortura'', não passou ignorada pela sensibilidade
do leitor Luiz Henrique Rossi Gurgel, de Santo André (SP).
Dias depois, em contato com o ombudsman, Luiz Henrique lamentava
o pequeno destaque para um fato tão chocante: ''Isso não deveria
receber o mesmo tratamento dedicado a uma notícia normal. Deveria
ser ampliado, ter mais destaque''. Enfático, cobrava: tamanha violência
não pode ser encarada como uma notícia banal, dessas que vão para
os pés das páginas dos jornais.
Sem confirmação
Encaminhada à Direção de Redação do jornal, a reclamação teve resposta
da editora de Exterior e Ciência, Andréa Fornes, 32.
Basicamente, ela dizia que a notícia saiu sem destaque porque não
pôde ser confirmada por outras agências, a não ser a própria fonte
da reportagem, a agência ''France Presse''.
Fornes acrescentou que o caso não obteve nenhuma repercussão em
outros veículos de comunicação.
Segundo a editora, o procedimento de cruzar informações entre as
diversas agências internacionais (ou com informações obtidas na
Internet e com os correspondentes do jornal no exterior) é obrigatório
na elaboração dos textos publicados pela editoria: ''Temos de ter
cuidado com despachos de agências internacionais relatando coisas
escabrosas como essa, que chegam quase diariamente à Redação''.
Fornecido pela própria editora, o telegrama original da agência
''France Presse'', que deu origem à notícia, citava também policiais
que alertavam para o fato de que ''propostas feitas pelas redes
informáticas possam ser fruto da imaginação febril dos suspeitos''.
Informar tudo
Uma primeira conclusão é, então, possível: tratava-se de uma notícia
precária, a qual, nessas bases, nem sequer deveria ter chegado às
páginas do jornal.
Decidida a publicação, ela deveria trazer todos os detalhes e salvaguardas
possíveis, até mesmo um alerta do tipo: ''Atenção. Esta notícia
baseia-se num único telegrama, recebido de uma só agência. O indício
maior do suposto crime que relata foi obtido pela polícia na Internet,
não estando, assim, confirmado''.
Outra questão, talvez mais importante, se resume na pergunta: como
a imprensa deve usar informações da Internet, essa ferramenta que
concentra parcela cada vez maior da informação circulante no mundo
e ameaça obsoletar a própria imprensa em sua forma atual?
Novos e mais rigorosos procedimentos técnicos de controle da qualidade
da informação têm que ser desenvolvidos, para lidar com aquilo que
vira notícia ou crime ao passar pela rede.
A noção de notícia se desdobra, seu controle diminui. Os problemas
do jornalismo do futuro se impõem agora: como distinguir, com segurança,
numa infindável massa de dados, aquilo que é informação em meio
à enorme quantidade de lixo existente na Internet, evitando os enganos
criados a partir dela?
Da face generosa da Internet vieram as informações que resultaram
no caderno ''Habitat'', um trabalho especial sobre a Conferência
Internacional da ONU, em Istambul, destinada a discutir problemas
urbanos das grandes cidades, realizada em junho de 96. Por esse
suplemento, quatro mulheres jornalistas ganharam o Prêmio Folha
de Jornalismo, na categoria Especial.
Do lado pantanoso da rede, a polícia alemã colheu indícios que a
levaram a prender um casal, o que resultou num telegrama de uma
agência de notícias, que a Folha publicou.
O que aconteceu depois? O casal negociava mesmo essas crianças?
O que a polícia de Rosenheim apurou? As perguntas de Luiz Henrique,
de Santo André (SP), continuam no ar.
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