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São
Paulo, domingo, 02 de março de 1997
MARIO VITOR SANTOS
A notícia
de que pesquisadores de uma empresa da Escócia conseguiram realizar
a clonagem completa de uma ovelha a partir de uma de suas células
deu vazão a muitas especulações na mídia de todo o mundo e no Brasil.
Segundo os criadores de Dolly, a mesma técnica de manipulação genética
poderia teoricamente ser usada para engendrar um clone de ser humano.
Fóruns de debate discutem o assunto na Internet. Jornais realizam
pesquisas para saber que pessoa famosa deveria ser clonada ou não.
A Casa Branca proibiu, o Vaticano condenou.
A foto de Dolly expõe a todos o fato consumado de que um ser idêntico
a outro foi criado tecnicamente, sem uso de óvulo ou espermatozóide,
e de que isso poderia ser da mesma forma aplicado ao homem.
O imaginário em torno do tema excitou-se, expondo suas origens no
terror e na ficção científica. A menção à possibilidade de que o homem
adquirira poderes na esfera até agora reservada ao divino abre possibilidades
ilimitadas.
Observada pelos seus desdobramentos simbólicos, teológicos e éticos,
só a manchete do jornal estaria à altura da importância de seu anúncio.
Observada no campo genético, talvez nem representasse uma grande novidade,
sendo apenas o surgimento de uma outra técnica para fazer o que a
manipulação genética já faz, por exemplo, no terreno agropecuário.
Na Folha, o tema foi tratado com destaque intermediário: mereceu
títulos e textos na Primeira Página desde terça-feira, dia
seguinte ao anúncio, até sexta-feira.
De forma didática, a técnica da clonagem foi explicada nas reportagens
internas. Editorial pediu discussão ética sobre o que é aceitável
no terreno da nova técnica.
Em geral, as grandes descobertas da ciência demoram a ser reconhecidas
pela própria comunidade científica.
Para os meios de comunicação de massa, então, a avaliação do valor
científico e das repercussões de uma descoberta é mais difícil ainda.
Vive-se uma época em que a mídia é assediada por anúncios diários
de novos progressos, alguns cercados de grande estardalhaço inicial.
Experimentos e pesquisadores da fusão fria, por exemplo, prometiam
milagres no campo da geração de energia. Receberam verbas e foram
encarados com otimismo equivalente aos espaços que tiveram nos meios
de comunicação de massa. Fracassaram, saíram rapidamente de cena,
deixando um cheiro de fraude no ar.
A questão trazida pela ovelha da Escócia é de outra natureza, embora
as ações da empresa que anunciou o experimento tenham dado um salto
nas bolsas de valores. Ela não foi recebida com otimismo, mas antes
como a prova da iminente decadência da espécie humana, incapaz de
refrear seus instintos diante das mórbidas possibilidades colocadas
à sua disposição pela ciência. Havia, assim, dois tipos de problemas
a serem respondidos pelo noticiário e que não o foram com a clareza
necessária. Primeiro: clonar para quê? Segundo: a existência da possibilidade
de criação da cópia humana implica que ela será necessariamente usada
sem limitações?
São questões tanto científicas como éticas. Dizem respeito também,
no limite, à existência ou não de valores que limitem a aplicação
das novas técnicas. São perguntas que devem e precisam ser ainda colocadas
em perspectiva junto ao noticiário, tanto por cientistas como por
filósofos e pensadores. Por enquanto, ainda tentamos, até por meio
de piadas, dimensionar a importância da notícia.
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