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São
Paulo, domingo, 16 de março de 1997
MARIO VITOR SANTOS
A história recente das grandes coberturas jornalísticas realizadas
pela imprensa nacional, especialmente a de São Paulo, caracteriza-se
por uma atitude de maior autojulgamento.
As coberturas começam a ser acompanhadas do exame posterior de alguns
procedimentos, a alguma expiação pública dos deslizes. O vexame
da cobertura do caso da Escola Base _quando educadores e cidadãos
inocentes foram geral e injustamente acusados de abusar de crianças_
incentivou essa tendência. Mas ela ocorreu também na CPI de Collor,
Bar Bodega, na CPI do Orçamento, e, mais recentemente, no caso de
Cláudia Liz.
No futuro, talvez esses deslizes venham até a ser mais lembrados
como a marca do período do que os importantes trabalhos que tenham
sido realizados.
Apesar disso, vê-se uma ainda precária mudança de padrões, um processo
doloroso e contraditório, em que a velha ordem ainda predomina.
Os que procuram romper com a lógica anterior se expõem a incompreensões
e até à calúnia.
É o caso do colunista Luís Nassif, que vem se dedicando a proceder
a uma sistemática revisão das certezas imperativas que foram impostas
e manipularam muitas coberturas. Por conta disso, sua coluna acabou
se transformando até em uma espécie de agência de recurso para alguns
dos prejudicados pela imprensa. Neste mais recente caso da CPI dos
títulos precatórios, Nassif não só tem se mantido contra a maré
linchatória, como aceitou emprestar seu prestígio para veicular,
com uma atitude desarmada, sem restrições que tantas vezes ocorrem,
a versão de um dos principais acusados, o banqueiro Fábio Nahoum,
sócio-proprietário do Banco Vetor.
O depoimento do banqueiro ao jornalista foi uma ocasião em que se
pôde entender características técnicas dessa intrincada operação.
Fábio Nahoum, pela primeira vez, defendeu-se de pleno, o que não
o isentou de nada.
A atitude contrária ao justiçamento sumário valeu a Nassif insinuações
e represálias, inclusive a convocação, depois o convite, enfim retirado,
para depor na própria CPI. Vale aqui um parêntese: os que tentam
impedir que a CPI vá mais acima na apuração das responsabilidades
no esquema dos títulos têm interesse em jogar toda a responsabilidade
sobre Nahoum, Wagner Baptista Ramos e grupo.
Em meio a uma espécie de cerco, o jornalista lançou dúvidas sobre
as intenções dos senadores Esperidião Amin, Vilson Kleinubing e
Roberto Requião. Chamou-os de "cadáveres políticos", cedendo ao
mal que tanto combate.
Vivemos uma época em que, a cada novo fato importante a atrair a
atenção geral, agravam-se as exigências de objetividade, equilíbrio
e, em extremo, justiça da imprensa.
Esse é um processo irreversível, que deveria ser incorporado ao
menu das grandes coberturas: cada uma delas teria que engendrar
seu oposto, a anti"cobertura", a investigação imediata das falhas
da imprensa como parte integrante do processo de realização da própria
cobertura.
Se essa cultura se impuser, parte dessa conquista deverá ser creditada
ao risco pessoal e profissional de alguns, como Nassif.
Ética
Não cabe subestimar as revelações da Comissão Parlamentar de Inquérito
a respeito do contrato entre a empresa de assessoria de imprensa
ADS e o Banco Vetor, a fim de "neutralizar a comissão ou prolongar
suas atividades para não resultar em nada". Os trabalhos do lobby
incluíam serviços de e encontros com jornalistas "para motivá-los
favoravelmente".
Pode ser que os termos desse contrato sejam ridículos, o que não
nega que lobbies desse tipo e mais sofisticados possam atuar e influir
sobre o noticiário _e não só em Brasília.
Faltam à imprensa instrumentos para servir-se dos lobbies como forma
de aproximar-se da verdade e não ser instrumento deles. Seja o que
for, a imagem da imprensa saiu mais desgastada do episódio.
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