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São
Paulo, domingo, 30 de março de 1997
MARIO VITOR SANTOS
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Reprodução
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| Tirinhas
''Big Bang Bang'', de Adão Iturrusgarai, publicadas nas edições
de 24 e 25 de março na Ilustrada |
A mídia espelha
a vida real, preferentemente do ponto de vista corretivo. Notícias
negativas, como se vê na cobertura da CPI dos Títulos Públicos,
não precisam ser eleitas pelos meios de comunicação para ganhar
as manchetes. Elas simplesmente se impõem a eles.
Nesses momentos, a imprensa olha a realidade de uma posição moral,
da defesa da correção, honestidade e transparência. É uma situação
em que, de forma implícita, a mídia se põe ao lado da sociedade.
Do lado de lá estão os suspeitos, desonestos, formadores de quadrilha,
infiéis, escória.
Há outras situações em que os meios de comunicação, no gozo da liberdade
de que desfrutam, assumem atitude oposta, dão curso ao que o senso
comum classifica como negativo, vicioso.
Em meio aos preparativos para o feriado da Semana Santa, dois leitores,
ambos pais, ambos de meia idade, ligaram ao ombudsman para manifestar
sua preocupação com o conteúdo de uma tirinha que é publicada diariamente
na Ilustrada: "Big Bang Bang", de autoria do gaúcho Adão
Iturrusgarai, 33.
Apreensão
"Big Bang Bang", para quem não conhece, é uma tirinha em que a personagem
principal, Aline, é uma jovem que tem "piercing" no umbigo, namora
e vai para a cama com dois rapazes (Oto e Pedro) e tem experiências
com LSD.
O primeiro dos leitores a ligar, José Aguinaldo Souza, da cidade
de Campinas, disse estar apreensivo: '''Big Bang Bang' está, desde
o dia 17 de março, praticamente ensinando os leitores a usar LSD.
Tenho crianças em casa, elas lêem tirinhas direto e isso me deixa
preocupado, pois a história pode estar induzindo-os ao consumo de
drogas''.
Luiz Antonio Alves de Lima também se questionava sobre o efeito
que a tirinha poderia ter sobre seus dois filhos aos quais ele tenta
dar uma educação que concilie liberdade e proteção.
Apelo
Os leitores procuravam explicitar que sua posição não era moralista
e conservadora, mas uma preocupação real diante de algo que os incomodava,
que consideravam grave, inclusive pelo tom banal e divertido que
o consumo de LSD assume na tirinha. Quase faziam um apelo para que
a história não prosseguisse nessa linha, ou que não se agravasse
ainda mais.
O assunto não é propriamente novo numa seção de quadrinhos que tem
Glauco e seu "Geraldão" (personagem de pênis ereto e com seringas
por todos os lados do corpo) ou Angeli e seus "Rê Bordosa" e "Woodstock".
Fazer piadas sobre drogados (antigamente eram os bêbados) não chega
a ser novidade no humor.
A questão é saber se há uma relação causal entre o tratamento levemente
divertido _em alguns momentos, até crítico_ que o consumo de LSD
tem na tirinha e o efetivo consumo dessa ou outras drogas pelos
leitores.
"Entendo a preocupação"
O autor da história sai em sua defesa: "Não faço a apologia das
drogas, não quero induzir ninguém a nada", diz Iturrusgarai, que
é casado e não tem filhos.
"Não acho que o mundo das drogas seja bonito. É uma história pela
qual eu já passei, em que tive experiências boas e ruins. Entendo
a preocupação de alguns pais em relação a seus filhos, mas não é
por minha causa que alguém vai usar drogas ou deixar de usá-las.
Só não gostaria de esconder a existência desse mundo", declara.
"Fico muito mais preocupado com os males causados por um enorme
outdoor colorido de cigarros. Acho que o meio em que cada um vive
é que pode acabar influenciando no sentido de uma busca em relação
às drogas", acrescenta o autor.
A Folha
As tirinhas nunca sofreram qualquer tipo de corte na Redação da
Folha. O editor da Ilustrada, Sérgio Dávila, 31, em
geral as aprova. Quando tem dúvidas, o que é raro, consulta a secretária
de Redação Eleonora de Lucena. A única vez em que houve alguma mudança
foi quando se pediu para trocar uma outra palavra por "masturbação".
O autor aceitou.
Dávila diz que o quadro "não vem ensinando os leitores a usar LSD,
mas sim narrando de forma cômica o dia-a-dia de supostos usuários
de LSD". Esclarece que a tirinha não ensina onde comprar a droga
ou mesmo fabricá-la.
Nosso sistema político está baseado na mais ampla democracia. A
Constituição proíbe a censura e assegura amplo direito de expressão
artística.
A Folha tem testado essa liberdade, ampliado seus limites,
auxiliando, em vários episódios, a disseminar a crença geral em
sua importância.
Ética
Deve-se levar em conta, porém, que estudos sobre reações dos leitores
apontam no sentido de que crianças são público especialmente vulnerável
e suscetível a influências vindas do que assistem e do que lêem.
Trata-se, mais uma vez, de escolher, sob a orientação de uma ética
que aconselhe o que se deve ou não fazer, segundo o que achamos
correto por nossas convicções e pelo conhecimento que as pesquisas
nos dão a respeito do assunto. Sob essa lógica, o melhor é evitar
o tema.
Poderíamos entender as tirinhas como um subproduto inevitável da
democracia, até defendê-las como prova de que o sistema resiste.
Escolha não é censura, embora os padrões sobre o que é nocivo sejam
relativos. Adão Iturrusgarai diz que não quis tomar partido, assumir
um lado positivo. Afinal, ele tem razão em relação à aceitação social
das propagandas de cigarros, que induzem a vício comprovadamente
letal, nessa lógica das letalidades comparativas.
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