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São
Paulo, domingo, 06 de abril de 1997
MARIO VITOR SANTOS
"Tive
uma grande dificuldade: explicar a meu filho que o que ele viu era
real, e que a polícia é bandida e que ele não pode confiar nela.
Aí ele me perguntou: 'Mas a polícia não prende bandido?' Eu respondi:
'Era para ser assim, mas, neste caso, os que estão apanhando são
bons e a polícia não'. Saiu da sala balançando a cabeça como que
pensando: 'Não entendi nada'".
Fernando Hercos Valicente, leitor
Para além da indignação decorrente do terror policial na favela
Naval, em Diadema, leitores da Folha sentiram-se decepcionados
porque seu jornal não publicou a notícia no dia seguinte.
Para leitores de fora da Grande São Paulo, a Folha de terça-feira
passada não trouxe informação sobre o vídeo que mostrava bloqueios
feitos por uma quadrilha de policiais militares para extorquir,
agredir, torturar e até matar pessoas na favela Naval em Diadema,
na periferia da cidade mais rica do país.
A reação de alguns leitores mostrava perplexidade, como quem se
sente abandonado por um jornal que chegou ao que é por nunca se
ausentar na hora da revolta frente à grave situação social brasileira.
Distante
Silvia de Souza,
de Goiânia, enviou mensagem para dizer que ficou mais chocada em
ver, "não as cenas de violência, mas a falta delas na Primeira
Página da Folha". E prosseguiu com um desabafo:
"Esse jornal é semanal ou mensal, para estar tão distante da indignação
do dia anterior?"
O jornal soube do fato pelo noticiário da Rede Globo, como informa
a secretária de Redação Eleonora de Lucena. Diz a jornalista que
a edição nacional da Folha é concluída na Redação às 20h,
não tendo havido assim tempo hábil para a inclusão da notícia naquela
edição. Mesmo regiões relativamente vizinhas à capital de São Paulo,
como Campinas, não receberam a informação na Folha. João
Castanheira Filho, morador daquela cidade, teve que comprar um jornal
local para ler a respeito do assunto. Ele reclama e cobra: "Agora,
como compensação, minha expectativa é que coloquem todo o peso dessa
instituição para que fatos como esse não aconteçam mais no futuro
e que eu não volte nunca mais a sentir vergonha e indignação de
ser brasileiro".
Operação industrial
A secretária de Redação explica que o jornal iniciou ainda durante
o "Jornal Nacional" o trabalho de apuração da informação, só tendo
atingido um acúmulo de informações satisfatório quando a rodagem
da edição Nacional estava muito adiantada, próximo ao fechamento
da edição São Paulo/DF, concluída às 23h.
A rodagem da edição Nacional da Folha é uma operação industrial
complexa, especialmente depois que o jornal incorporou mais cores
a um número maior de páginas. A distribuição dos exemplares também.
A Folha transporta grande parte da edição nacional em caminhões
que se dirigem durante a noite para cidades de importante distribuição
do jornal, como Rio, Belo Horizonte, Curitiba e os importantes centros
do interior do Estado.
Segundo Eleonora de Lucena, qualquer atraso na conclusão acarreta
graves atrasos na chegada do jornal à casa dos assinantes e às bancas.
Em alguns casos, o atraso é tal que inviabiliza seu uso matinal
pelos leitores, que saem para trabalhar ou se engajam em outras
atividades.
Melhoria
Ainda de acordo com a jornalista, uma das prioridades para o ano
de 1997 é incrementar a qualidade da edição Nacional da Folha.
"Assim, o jornal realiza, em praticamente todos os dias, várias
trocas de reportagens, de páginas inteiras, inclusive da Primeira
Página, no sentido de atualizar a edição Nacional. Essa troca
só não foi feita naquela edição específica em virtude de a informação
relativa à violência dos PMs em Diadema ainda estar sendo apurada
e checada, enquanto a edição era rodada."
Infelizmente, porém, não foram só os leitores da edição Nacional
que reclamaram. Mesmo os moradores da capital de São Paulo, que
receberam o jornal fechado a partir de 23h, com a notícia de Diadema,
tiveram argumentos para expressar insatisfação quanto ao pouco destaque
dado ao fato:
"Parece que a Folha 'comeu barriga' ao não dar a devida importância
aos massacres e assassinato de Diadema...Este fato está sendo mostrado
em todas TVs do mundo. Será que vocês do jornal não se indignaram
o suficiente?" _era a pergunta do leitor Roberto Ribeiro,
morador da capital de São Paulo, no mesmo dia.
Insossa
Outro leitor,
José Carlos Crozera, detalhava a crítica, como a passar um sabão
na Primeira Página do jornal: "A Folha me sai sem
fotos e com um título pra lá de insosso". Título da Folha:
"Dez PMs são acusados de assassinato", em quatro colunas, abaixo
da dobra. Foto principal da capa: mulheres da Albânia chorando.
Mais outro leitor, Corival Sobrinho, de Brasília (recebe a edição
São Paulo), criticava o pequeno destaque alegando que "é fundamental
que se faça uma ampla divulgação do fato para pressionar o Estado
a punir exemplarmente os policiais desviantes". De São José do Rio
Preto (SP), Romildo Sant'Anna discutia valores, em mensagem enviada
já na quarta-feira, dia 3: "Não é cotidiano o que de barbaridade
aconteceu em Diadema! Virar as costas a essa desgraça estarrecedora,
ou dar-lhe importância secundária é conformar-se demais com o desumano.
A timidez da Folha, parece, é uma questão de ética jornalística...E
a ética social à qual, e acima de tudo, esse jornal sempre esteve
comprometido?"
Avaliação
A secretária de Redação Eleonora de Lucena declara que, com a perspectiva
de hoje, o jornal deveria ter dado manchete ao assunto na edição
que fechou depois de 23h. Informa que, entre a veiculação do vídeo
pelo "Jornal Nacional" e o fechamento da edição São Paulo da Folha,
não houve uma avaliação exaustiva da relevância de se elevar o tema
à manchete.
Após consultas, a manchete da Folha é decidida diariamente
pela Direção de Redação e a Secretaria de Redação. Naquela noite,
o título principal da capa, em ambas as edições permaneceu inalterado:
"Convocação de bancos divide CPI". Lucena informa ainda que o fato
de o furo ter sido dado pelo "JN" não influenciou na decisão.
Há notícias que mexem com um país e transbordam para o mundo. Ter
sensibilidade para elas é fundamental para consolidar a relevância
de um veículo junto a seu público e à comunidade.
A Folha, que não faz muito teve coragem e causou polêmica
_ao estampar uma sequência de fotos na capa mostrando um policial
militar maltratando um menino de rua_ não poderia ter deixado de
romper a rotina e correr seus próprios riscos diante de fato tão
mais grave.
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