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São
Paulo, domingo, 13 de abril de 1997
MARIO VITOR SANTOS
Às vezes fica difícil entender como algumas informações são apuradas
e chegam às páginas da imprensa, sem que sejam observados procedimentos
básicos de conferência. Dói mais quando essas informações são usadas
em ajuda à expressão de um preconceito, uma idéia-feita.
Informações imprecisas, oriundas de manipulação das fontes, de ouvir
dizer, são publicadas diariamente. Com frequência são resultado
de inexperiência do profissional, mas mesmo gente tarimbada transmite
notícia falsa sobre pessoa ou instituição, porque o profissional
se enganou, não se certificou da veracidade do fato.
Fragilidades
Ocorrido o erro, é importante reparar os prejuízos da maneira mais
rápida, completa e transparente. A incorreção deve ser reconhecida,
se possível na edição seguinte.
Alguma satisfação deve ser dada, mesmo que ela revele fragilidades
profissionais. O jornalista _e o jornal também_ deve pedir desculpas
aos envolvidos e aos leitores. Acima de qualquer consideração, deve
estar a disposição ética de admitir o erro, publicar a verdade,
minimizar o estrago.
Num texto de sexta-feira, 4 de abril, o jornalista Fernando Rodrigues
afirmava na coluna Brasília, publicada diariamente na pág. 1-2 da
Folha, que o secretário da Segurança de São Paulo, José Afonso
da Silva, ''um safenado que sofreu isquemia coronariana, tem recomendação
médica para evitar problemas emocionais. Está provado que não tem
o comando da PM''.
O texto concluía que o governador Covas não o demitia por ser arrogante,
teimoso e contemporizador.
Bom de coração
Em carta enviada ao jornal no mesmo dia da publicação da coluna,
amparada em atestado médico, José Afonso da Silva demonstrava sua
perfeita saúde cardíaca, não tendo nunca se submetido a cirurgia.
No dia seguinte, 5 de abril, o Painel do Leitor publicou a carta-desmentido
de José Afonso, amparada por atestado do cardiologista Fulvio Pileggi.
Não havia comentários da Folha ou resposta do jornalista,
ao contrário do que as vezes acontece. Uma nota apenas remetia o
leitor para a seção Erramos, que dizia:
''Diferentemente do publicado na coluna Brasília de ontem, o secretário
da Segurança de São Paulo, José Afonso da Silva, não é safenado,
não sofre de isquemia coronariana, nem recebeu orientação médica
para evitar problemas emocionais''. Ponto.
Desculpas
Só na terça-feira, depois de conferir o erro com sua fonte, a coluna
Brasília trazia um pedido formal de desculpas do colunista, seco,
sem explicações.
A medida atendia em parte preocupações do leitor Alvaro de Almeida
Caparica, de São Carlos (SP), que cobrara essa atitude do colunista
e da Folha, estranhando a lentidão. Para o leitor, ''danos
à imagem privada de pessoas públicas deveriam merecer reparações
mais ativas e plenas da parte do jornal''.
O colunista Fernando Rodrigues diz ter obtido a informação original
junto a fonte ''de alto nível'' no PSDB.
Alguém que nunca lhe havia passado uma informação errada até então:
''Eu não chequei, porém, o que foi um erro gravíssimo, indesculpável''.
O jornalista argumenta em tese que informações médicas relativas
a pessoas em postos de comando são relevantes e devem ser divulgadas.
No caso, falando ainda em teoria, ele acha que uma eventual debilidade
do coração de José Afonso deveria ser revelada, se realmente existisse.
Na minha opinião, o colunista foi afoito, como ele mesmo admite.
Deveria ter tomado precauções duplas ao usar argumentos pretensamente
médicos para amparar considerações de natureza política e administrativa.
Um erro que deveria se transformar em lição a ser seguida por todos.
Mas foi também preconceituoso, ao aceitar o argumento duvidoso de
que um safenado não pode ocupar funções de grande exigência. Os
exemplos de safenados com vida normal estão aí em todos os partidos,
a começar pelos próprios caciques do PSDB, no governo, nas empresas.
A tarefa da imprensa deve ser a de oxigenar o debate, torná-lo o
mais objetivo, científico e rigoroso, não contaminá-lo ainda mais
com atraso científico e discriminação.
Colesterol
Por coincidência, a Folha publicou outra correção médica
nesta semana, relativa ao medicamento Pravacol, do laboratório Bristol-Myers
Squibb Brasil.
Há mais de dois meses, o jornalista Gilberto Dimenstein, em sua
coluna América, afirmara que esse medicamento, para controle de
colesterol, tinha sido lançado no Brasil antes de ser aprovado nos
Estados Unidos, o que demonstrava a tese de que a aprovação e a
venda de remédios no Brasil são feitas sem controle.
A correção saiu na quinta-feira passada. O Pravacol está habilitado
pelo controle norte-americano desde 1991, antes de ser comercializado
no Brasil, como afirmava carta de João Massud Filho, diretor do
laboratório.
Dimenstein diz ter confundido uma reclassificação feita mais recentemente
pelo governo americano, que agregou um novo uso ao medicamento,
com a aprovação inicial. A tese inicial do artigo de Dimenstein,
de que o Brasil é zona livre para comercialização de qualquer medicamento,
ainda subsiste, porém.
Pelo que se vê, a Folha precisa criar condições e adotar
políticas mais eficazes de checagem e de prevenção aos erros de
informação. As que existem ainda permitem erros de fácil detecção.
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