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São
Paulo, domingo, 18 de maio de 1997
MARIO VITOR SANTOS
Com a série de reportagens que vem publicando sobre a compra de
parlamentares em troca de votos favoráveis à emenda da reeleição,
a Folha propicia um serviço essencial ao público. Temos a
rara chance de testemunhar o lado de dentro do funcionamento de
uma parte do poder no Brasil.
A divulgação das gravações feitas pelo ''Senhor X'' restituem a
este jornal _hoje, quando a competição é muito mais intensa do que
há uma década_ o lugar de liderança que já teve no jornalismo brasileiro
como fonte independente de informações.
Cumpre a tarefa democrática de revelar à população como se movem
alguns de seus representantes. Contribui para a melhoria da cultura
política e das práticas administrativas. Dá sentido à liberdade
de imprensa.
Rompe a leniência que caracterizou a cobertura jornalística desde
o início do governo Fernando Henrique. A manchete ''Deputado conta
que votou pela reeleição por R$ 200 mil'', de terça-feira passada,
resulta de uma ênfase no aspecto fiscalizador e investigativo do
jornalismo.
Investigação
Foram quase quatro meses de paciente empenho do repórter Fernando
Rodrigues junto com o autor das gravações. Detalhes dessa apuração
devem ser postos à disposição do público tão cedo quanto possível.
Mas não há só aspectos a louvar nessa cobertura, que ocorre num
momento em que se questionam a fraqueza de procedimentos éticos,
a pobreza das técnicas jornalísticas e a precipitação sensacionalista
presentes em tantas manchetes.
É difícil decidir a maneira correta de noticiar num ambiente de
alta voltagem, em que rumores sobre a demissão do repórter Fernando
Rodrigues, como ocorreu na quinta-feira, influenciam a cotação da
Bolsa e até obrigam a um pronunciamento do diretor de Redação Otavio
Frias Filho em seu favor _também com efeitos sobre as ações.
Precipitação
Se a Folha foi exemplar ao não se intimidar diante ''do que
está em jogo'', ao realizar a primeira denúncia séria em torno do
governo Fernando Henrique, ao procurar registrar com destaque adequado
todos os lados envolvidos e respeitar a norma constitucional de
respeito ao sigilo das fontes, ela se precipitou na manchete de
capa de quinta-feira: ''Motta deu TV para deputado que disse ter
vendido o voto''.
O noticiário daquela edição da Folha não fornecia elementos
suficientes para afirmação tão definitiva a respeito do envolvimento
do ministro das Comunicações, Sérgio Motta. Foi o que escrevi em
minha crítica interna, que circula diariamente na Redação da Folha,
sobre aquela manchete.
Não bastavam as afirmações do deputado Ronivon Santiago gabando-se
da propriedade ao ''Senhor X'', nem a aparência de testa-de-ferro
do proprietário nominal da retransmissora. Era preciso mais. Era
possível ter mais cautela.
Critérios
Dessa avaliação crítica discorda a secretária de Redação da Folha
Eleonora de Lucena. Para ela, a certeza que levou à manchete que
incrimina Sérgio Motta baseou-se num conjunto de elementos.
Diz ela que os repórteres checaram as datas do pedido e da aprovação
da concessão, visitaram as instalações físicas da retransmissora
de TV, falaram com o suposto proprietário _que compreensivelmente
negou, embora seja evidente que não dispõe de condições materiais
para ser proprietário de uma televisão_, ouviram pessoas que têm
relações com ele, cruzaram informações com fontes do mercado televisivo
do Acre até que chegaram à constatação de que à frente da estação
está um testa-de-ferro de Ronivon Santiago, como, aliás, o deputado
mesmo declara na gravação.
É complexo avaliar uma cobertura em andamento, com tantas variáveis.
Quando você lê esta coluna, o surgimento de novos fatos pode fazer
certas considerações éticas parecerem descartáveis e preciosísticas.
Mas isso não importa e até enfatiza o valor dos métodos. Certos
procedimentos precisam ser esgotados em qualquer situação, por maiores
que sejam as convicções gerais acerca do comprometimento dos envolvidos
em ilegalidades.
Deu ou não deu?
No caso, não eram suficientes a gravação de Santiago, as precárias
condições materiais do taxista Valcy de Souza, suposto proprietário
da retransmissora de TV, as condições da concessão e os depoimentos
de que ele seria testa-de-ferro, para embasar afirmação tão forte
e definitiva de que o ministro Motta ''deu TV para deputado''.
Sem as evidências, a manchete não chegou, até a noite de sexta-feira,
a causar o que faria se as tivesse: a queda do ministro. O certo
é que alguém comprou o voto dos deputados, pode ter sido o ministro
por moto próprio ou a mando de alguém, pode ter sido o governador
(por iniciativa própria ou a mando do primeiro), pode ter sido outra
pessoa.
Essa história toda levantada por Fernando Rodrigues e pela Folha,
ainda é preciso apurar, estabelecer as conexões, checar, publicar.
*
Teste
A necessidade de usar o espaço para a cobertura referente às gravações
de Ronivon Santiago impede a divulgação hoje do cômputo geral e
dos comentários às respostas do teste de ética, proposto aqui em
27 de abril.
Além disso, muitas respostas continuam chegando. O número de participantes
até agora chega a 272. No domingo que vem o resultado sai aqui,
sem falta.
*
ONO
Este
ombudsman foi eleito para integrar a diretoria da Organização de
Ombudsmans de Imprensa (ONO), que até agora só tinha representantes
da América do Norte e da Europa.
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