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São
Paulo, domingo, 25 de maio de 1997
MARIO VITOR SANTOS
Há momentos em que o profissional de imprensa tem à sua frente aquilo
que é a razão de todo o seu esforço: a informação, a fotografia,
a ilustração, o furo. Mas será que eles devem ser sempre publicados,
em qualquer situação?
Cerca de um mês atrás, os leitores foram desafiados nesta coluna
a responder a um teste de ética jornalística.
Algumas situações foram extraídas de fatos que efetivamente ocorreram.
Outras eram fictícias.
Foram apresentadas cinco situações. Para cada uma havia duas alternativas
de resposta. Uma das situações colocava em foco o local da publicação
de uma foto, outra questionava se conseguir a informação é sempre
o objetivo número um do profissional.
As restantes examinavam a consistência da informação obtida, o poder
de indução de uma ''receita'' de bomba, a conveniência de divulgar
o nome de um assassino em um seriado de mistério.
Responderam ao teste 336 leitores; 218 eram estudantes da PUC de
Minas, Universidade de Mogi das Cruzes, Faculdades Reunidas Sta.
Cruz, de Curitiba, e de um colégio, a Escola Experimental da Lapa,
em São Paulo.
O mesmo teste foi respondido por 12 editores da Folha.
É interessante notar que, à exceção de duas perguntas (as de número
três e quatro), leitores e editores optaram, majoritariamente, por
decisões divergentes. Não houve unanimidade a favor de nenhuma alternativa,
nem mesmo no restrito colégio de editores que responderam.
Leitores e editores discordaram sobre se o jornal deveria usar,
na Primeira Página, fotografia da queda do presidente Fernando
Henrique ao subir num palanque. A maioria dos leitores respondeu
que não. A maioria dos editores disse sim.
Eu, nessa questão, estaria com os leitores. A Folha publicou
a foto em sua capa.
O professor de Filosofia Política da Universidade de São Paulo Renato
Janine Ribeiro não tem uma resposta precisa para essa questão. Diz
Janine Ribeiro: ''Estou convencido de que é inadmissível escolher
as piores fotos para publicar: aquelas em que o adversário é demonizado,
aparece com esgares etc. Mas, no caso de um 'fait-divers', como
o suposto tropeção, não tenho certeza. Só me parece significativo
o fato de a própria questão ser posta. Significa que aquilo que
construía um razoável consenso (em face de Figueiredo, ou de Collor
em sua agonia) agora já não o constrói. Significa, ainda, que só
a recepção ditará as regras sobre isso.
Se ela for bem acolhida, seu papel de metáfora ou alegoria terá
tido validade. Se não o for, é porque os leitores não entendem que
o governo estará tropeçando. Mas noto que essa solução não tem nada
de ético. É, simplesmente, de oportunidade. O que é um tanto decepcionante''.
Leitores e editores também estiveram às turras quanto a qual seria
a atitude correta de um fotógrafo presente na hora do tropeção:
fazer a foto ou ajudar o presidente _e perdê-la.
A questão implica algo de fundo: jornalistas muitas vezes presenciam
fatos que demandam uma de duas atitudes, o distanciamento de quem
registra ou a proximidade de quem intervém. Ajudar um ser humano
é motivo de elogio, até quando um repórter vem alterar os fatos
com sua atitude. O distanciamento jornalístico tem limites éticos.
Essa demarcação varia, porém, em função das características da informação,
do seu valor, da capacidade de intervenção do repórter.
O estudante Pedro Maciel Guimarães Júnior, da PUC de Minas, apresenta
ainda uma alternativa ao editor cujo fotógrafo tenha perdido a foto:
informar que ''o repórter do meu jornal foi o único que tentou ajudar
o presidente. Tentaria arrumar uma foto que mostrasse, pelo menos,
o repórter próximo ao presidente''.
Na questão seguinte (3), houve a única coincidência entre editores
e leitores, em sua maioria. Os dois grupos, e eu também, acham em
maioria que vale a pena omitir informações quando elas não estão
suficientemente checadas, apesar de serem fornecidas por autoridade
policial.
Para o editor do caderno de Imóveis da Folha, Mauro
Teixeira, um dos que responderam à consulta, não há nem discussão:
''Esse tipo de coisa, tão comum em nossos jornais, já resultou em
casos como o da Escola Base e do 'sequestroï do garoto na zona sul''.
Vale notar que entre leitores e editores houve quantidade considerável
de respostas favoráveis à publicação.
O caso número quatro traz o dilema sobre até que ponto a informação
induz comportamentos negativos. É atual, quando se noticia que os
jovens que incendiaram um índio pataxó em Brasília imitavam um quadro
que teriam assistido na TV. Os editores da Folha se dividiram
em partes iguais.
A leitora Elisa Almeida França não entende como pode haver dúvida
sobre questão tão arriscada. Eu também não publicaria. Como relata
Gina Lubrano, representante dos leitores do ''The San Diego Union-Tribune'',
nosso colega Phil Record, ombudsman do ''Fort Worth Star-Telegram'',
recebeu 35 telefonemas de leitores que leram o desenho como ''instruções
para produção de uma bomba''.
Finalmente, a questão cinco aborda caso ocorrido aqui na Folha
, que causou muitas reclamações zangadas ao então ombudsman Caio
Túlio Costa. Um dos leitores, sentindo-se desrespeitado, disse que
não leu na Ilustrada a identidade do assassino de Laura Palmer,
mas que no trabalho só se comentava isso. Os colegas acabaram contando
a ele.
Finais de filmes, seriados, novelas são ''segredos'' preciosos.
Guardando-os de verdade, o jornal revela respeito pelos leitores.
O direito a não saber também existe.
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