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São
Paulo, domingo, 15 de junho de 1997
MARIO VITOR SANTOS
Na pequena Pedro Canário, no norte do Espírito Santo, um júri de
sete pessoas tomou decisão que surpreendeu toda a imprensa e teve
repercussão internacional. O líder sem-terra José Rainha Jr. foi
condenado a 26 anos e seis meses de prisão pelo assassinato de duas
pessoas _um fazendeiro e um policial_ em julgamento sobre o qual
ficaram graves suspeitas.
As informações de que o cidadão afastado das paixões políticas precisava
dispor, ele não teve. No lugar, os jornais encheram-se de meias-verdades,
suspeições mais ou menos veladas, sem nenhum depoimento autêntico
de fonte confiável.
O país não sabe até agora se o veredicto de Pedro Canário foi obra
de conspiração de ricos fazendeiros contra miseráveis sem-terra
e seu inocente líder, ou se, ao contrário, os jurados dispunham
de elementos suficientes para chegar a um veredicto dentro da normalidade.
Essa situação dúbia é resultado da falta de preparação e da desatenção
dos órgãos de imprensa, esta Folha incluída. Tivesse o jornal
dedicado ao caso a décima parte dos recursos que empenhou na organização
da cobertura do julgamento do caso de Daniella Perez, o resultado
seria de outra qualidade.
Volta ao passado
A leitura do noticiário da Folha _não contestado pelo de
outros jornais_ dá a impressão de que assistimos a uma volta ao
passado, a um julgamento digno dos tempos da ditadura.
A maioria do júri não deu ouvidos a quatro depoimentos _de três
parlamentares e um coronel da PM_ que confirmavam de viva voz o
álibi de que Rainha, em 5 de junho de 89, estaria no Ceará, a mais
de 1.500 km de distância do local do crime.
Os julgadores preferiram crer em outros testemunhos, de pessoas
ausentes, registrados apenas nos autos, sem oportunidade de interrogatórios
cruzados pela defesa e promotoria.
O principal desses depoimentos seria o de um caminhoneiro chamado
Zé Coco, que se teria recusado a depor no tribunal por temer pela
sua segurança, depois de receber ameaças. Nos autos, ele descreve
um Zé Rainha de feições diferentes. Não se sabe o que mais ele falou.
Em linhas gerais, o julgamento deu-se assim: a defesa usou o depoimento
dos presentes, devidamente registrado pela imprensa. A acusação
valeu-se do que estava escrito e descrito nos autos, elementos quase
totalmente ignorados pelos jornalistas, embora não pela maioria
dos jurados.
Prioridades
E o que dizem os autos? A única repórter de texto enviada pela Folha
a Pedro Canário, Fernanda da Escóssia, da Sucursal do Rio, chegou
à cidade apenas na véspera do julgamento.
Sua atenção logo estava dividida entre a escolha e impugnação de
jurados, ritmo do julgamento, registro da marcha dos sem-terra em
direção à cidade e presença de Lula e outras personalidades na cena.
Com essas múltiplas prioridades, é óbvio que uma só jornalista não
teria condições de tomar conhecimento, mesmo que geral, das 1.181
páginas dos autos do processo.
Estudar os autos é tarefa essencial de quem cobre qualquer julgamento.
Sem saber o que vai neles, o jornalista depende das versões e interpretações
de advogados e promotores. Só que essa é uma tarefa tão essencial
quanto negligenciada na cobertura jurídica, por razões culturais
e estruturais, ligadas também à escassez de recursos.
A dependência de fontes interessadas, tão maléfica à pureza da informação,
aconteceu em Pedro Canário?
É verdade que os autos foram lidos no tribunal, como é comum nos
julgamentos, mas boa parte dessa leitura foi perdida pela repórter
da Folha, que, naturalmente, na noite de terça-feira, se
ocupava em redigir e enviar seu texto para a Redação em São Paulo.
O mesmo deve ter ocorrido com outros profissionais. Era preciso
relatar o julgamento até ali, a presença de Lula, a marcha dos sem-terra
etc. O conteúdo deles permanece um mistério.
Ou existe algo de muito grave nos autos, que ainda não foi revelado,
ou o julgamento foi uma espécie de farsa.
Falando a respeito, Fernanda da Escóssia declara que gostaria de
ter feito uma prospecção muito mais detalhada do ambiente na cidade,
antes do julgamento, para aferir possíveis influências sobre os
jurados.
Destes, sabe-se tão pouco como de outras informações fundamentais:
onde está a arma do crime, por exemplo? Como o desaparecido Zé Coco
explica a contradição existente entre o Rainha que descreveu e o
Rainha que todos conhecem? Houve outras testemunhas do crime? O
que viram?
Segundo tempo
O secretário de Redação da Folha Josias de Souza trata a
cobertura como um caso recente, ainda em andamento, de grande complexidade,
em que se procura manter a objetividade, a despeito de todos os
interesses de ordem política que possam influenciar as informações:
''Nos interessa colocar à disposição do leitor elementos suficientes
para que ele possa chegar à sua própria conclusão sobre o crime
e o julgamento''.
Rainha vai a outro júri ainda neste ano, o que dá oportunidade e
tempo para que a imprensa desvende os detalhes misteriosos que cercam
o crime e também o veredicto de Pedro Canário.
Se o júri errou, é grave. Se tinha razões especiais e secretas para
errar, aí estamos diante de um escândalo.
Cabe à imprensa, por meio de uma apuração extensa e detalhada de
todos os fatos, contar a história desses crimes e tranquilizar ou
justificar os piores temores em torno deles e de suas consequências.
O jogo tem segundo tempo. Por enquanto, estamos perdendo.
Em tempo
Referência aqui feita na semana passada, sobre a exclusividade da
denúncia de Paulo de Tarso Venceslau pertencer ao ''Diário do Povo'',
de Campinas, suscitou manifestação do autor da longa entrevista
publicada no ''Jornal da Tarde'', com tanta repercussão. Luiz Maklouf
Carvalho não sabia da veiculação anterior no jornal campineiro.
Além disso, acha que, pelas consequências que trouxe, o furo de
fato foi dado pelo ''JT''. Na semana passada, o próprio ''JT'' atribuiu
a publicação da primeira denúncia ao ''Diário do Povo''.
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