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São
Paulo, domingo, 22 de junho de 1997
MARIO VITOR SANTOS
O que
têm a ver entre si os seguintes fatos: o congresso clandestino da
UNE (União Nacional dos Estudantes) em Ibiúna em 1968, a morte violenta
do líder guerrilheiro Carlos Marighella em 1969 e o escândalo em
torno das denúncias de supostas fraudes em prefeituras do Partidos
dos Trabalhadores em 1997?
O passado reemergiu agora, no rastro do noticiário envolvendo o
economista Paulo de Tarso Venceslau, 53, autor da acusação de que
o PT, por meio de uma empresa de assessoria, desviara dinheiro público
de administrações municipais para os cofres do partido.
Venceslau procurou o ombudsman por se considerar caluniado em uma
reportagem que a Folha publicou sobre suas ações do passado
e intenções do presente. Publicado em 1º de junho, o trabalho fazia
parte de um esforço do jornal para tomar a dianteira na cobertura
do assunto _trazido a público pelo "Diário do Povo", de Campinas,
e, em seguida, causando estrondo, pelo "Jornal da Tarde".
O homem que desferiu o maior golpe já sofrido pelo PT tem no texto
sua "longa trajetória de polêmica na esquerda" revisitada. Assinada
pelo repórter político Carlos Eduardo Alves, a reportagem já no
título lembrava o passado cinematográfico do personagem: "Denunciante
atuou em ações históricas da esquerda armada", com o subtítulo "Caso
Marighella e sequestro de embaixador marcaram Venceslau".
Além de lembrar a participação de Venceslau, em 1969, no sequestro
do embaixador dos EUA, Charles Elbrick, informava que ele fora "o
responsável pela área de segurança do congresso da UNE" (1968),
no qual "os participantes foram presos".
Dizia ainda que no ano seguinte (1969) Venceslau era o encarregado
do contato da organização clandestina Ação Libertadora Nacional
(ALN) com os frades dominicanos que a apoiavam.
Cito a reportagem: "Sob tortura, religiosos da ordem 'entregaram'
um 'ponto' (encontro) que Carlos Marighella, líder da ALN, teria
na alameda Casa Branca, em São Paulo. Marighella foi morto pela
polícia política e Venceslau carregou durante anos a suspeita, nunca
comprovada, de negligência ou delação. Na prisão, Paulo de Tarso
teve entreveros verbais fortíssimos com membros da ALN inconformados
com a morte de Marighella".
Desafio
Nesse ponto do texto, o repórter da Folha registra a declaração
de inocência de Venceslau: "Tive muitas discussões na cadeia, mas
desafio qualquer um a provar que entreguei alguém".
E prossegue a reportagem: "A 'quarentena' de desconfiança custou
a Venceslau a não-inclusão de seu nome na lista de presos políticos
que, pouco depois, foram trocados pela vida do embaixador alemão,
sequestrado por organização clandestina".
Relata que, em 75, quando sai da prisão, Paulo de Tarso é abrigado
em empresa de Sérgio Motta, ministro das Comunicações do governo
tucano de Fernando Henrique Cardoso, para concluir que, hoje, "o
economista ensaia aproximação com o PSDB".
Venceslau considera-se atacado por inverdades e repele as "insinuações"
existentes na reportagem.
Diz que não foi "responsável" pela área de segurança do congresso
de Ibiúna, mas coordenador-geral do evento, encarregado da seleção
e preparação do local, contato e distribuição de senhas, montagem
de infra-estrutura e de rotas de fuga.
Alega que só foi entrevistado sobre este assunto depois da publicação
da reportagem e de sua reclamação ao ombudsman, o que Carlos Eduardo
Alves nega com veemência.
Sobre ser o contato entre os dominicanos e Marighella, Venceslau
recorre à imprensa da época, que "cansou de noticiar que o contato
da ALN com os dominicanos era feito pelo próprio Carlos Marighella,
emboscado e assassinado no dia 4 de novembro, 34 dias após minha
prisão no dia 1º de outubro de 1969".
Entre as coisas de Venceslau que a polícia apreendeu, como ele relata,
havia um talão de cheques em que estava anotado o telefone do convento
dos dominicanos.
"Daí até eu entregar o Marighella tem uma distância cósmica", protesta
contra o que acha ser uma insinuação de que poderia ter traído e,
em última instância, provocado a morte do líder da ALN.
Chama em defesa também os livros "Combate nas Trevas", de Jacob
Gorender e "Batismo de Sangue", do dominicano Frei Betto, que, segundo
ele, comprovam sua inocência. Remete ainda para o "Quedograma",
organograma de prisões e responsabilidades de cada um dos militantes
presos elaborado pela ALN.
A lista do alemão
Alega desconhecer a versão de que teria sido submetido a uma "quarentena"
de desconfiança: "Sobre o sequestro do embaixador alemão, meu nome
não constou da lista dos presos que seriam trocados pela sua liberdade",
declara.
Em entrevista ao "Jornal da Tarde", publicada em 2 de junho, porém,
Venceslau deu versão contrária para esse episódio. "Houve um boicote
explícito, porque eu sei que estava na lista dos que iriam ser trocados
pelo embaixador. No ajuste final, eu fui tirado da lista _mas não
sei quem vetou."
O economista lembra que essa decisão se deu no contexto de séria
desavença política entre setores do grupo sobre estratégias a seguir
na luta contra o regime.
Venceslau frisa que seu nome constava sim da lista de presos a serem
trocados no sequestro seguinte, o do embaixador suíço, em 1971.
Mas ele teria sido vetado pelo governo militar.
Inferência
Na questão relativa a que o denunciante do PT hoje "ensaia aproximação
com o PSDB", verifica-se a única precária concordância entre o autor
da reportagem e o personagem retratado. Ambos dizem que se trata
de uma inferência.
O jornalista Carlos Eduardo Alves deduziu a aproximação a partir
das declarações de elogio ao sucesso do Plano Real feitas por Venceslau.
Este, porém, repele qualquer dedução sobre sua aproximação com os
tucanos. Declara-se petista e lembra que não é preciso ser tucano
para reconhecer o sucesso do Real, o que é constatado dentro do
próprio PT e "usado como justificativa para explicar a derrota de
Lula no primeiro turno das eleições de 1994".
O jornalista Carlos Eduardo Alves admite de forma transparente que
pode ter cometido um erro. Declara ter procurado Venceslau exaustivamente
e sem sucesso, inclusive durante viagem do economista a Uberaba,
para ouvir mais uma vez sua versão sobre alguns aspectos da reportagem
_"por excesso de cautela, pois ela não contém nenhuma acusação a
Venceslau".
Alves diz que chegou a deixar o telefone de sua casa para que o
economista retornasse os chamados, também sem sucesso. Defende sua
reportagem: "Ela se limita a retratar um homem. Não o tratei como
um herói, nem como bandido, como a burocracia do PT gostaria".
Sobre a denúncia do economista em relação ao PT, Alves afirma que
Venceslau levantou questões relevantes, para as quais o partido
tem obrigação de dar esclarecimentos.
Encadeamento
Na minha opinião, a lista de suposições baseadas em meias-verdades,
em informações apuradas precariamente, usadas no salseiro político
em que digladiam tendências petistas no afã de desautorizar os oponentes,
recomendava total distanciamento, inclusive no levantamento das
informações relativas a fatos do passado.
Foi uma temeridade desastrada expressar inferência, tão grave em
texto informativo, de que Venceslau se aproximava do PSDB, o que
contribui muito para desqualificar o denunciante e seus objetivos
no presente.
Quanto a seu passado, era obrigação do jornalista afastar-se explicitamente
do pântano de versões e dos ressentimentos que envolvem muitas das
polêmicas da esquerda, antes e agora. Como?
Revelando as fontes que acusam, trazendo a público também as que
inocentam o denunciante, dando a ele amplo espaço de contestação
de todas as alegações sobre o seu passado, evitando determinados
encadeamentos culpabilizantes.
Se isso já é importante em qualquer momento, mais ainda quando o
personagem sobre o qual se informa ocupa o foco das atenções, por
atacar importante partido de esquerda do país, expondo-se assim
a represálias que visam a isolá-lo. Versões do passado são armas
no presente.
A imprensa reclama com razão que os políticos tentam desqualificar
os que criticam suas ações incorretas ou fazem denúncias de irregularidades,
como forma de fugir às responsabilidades.
O jornalismo não pode cair no mesmo erro.
A Folha deve ainda a seus leitores informações que esclareçam
em definitivo as versões que existem sobre o passado de Venceslau
e as suas intenções ao denunciar a suposta fraude existente em várias
prefeituras, inclusive algumas ligadas ao PT.
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