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| Isa
no centro do horror |
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São
Paulo, domingo, 29 de junho de 1997
MARIO VITOR SANTOS
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Isa
Nigri/O Tempo
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| Cercado
por policiais, o cabo Valério dos Santos Oliveira é
socorrido, depois de conflito em BH |
"Eu estava do
lado do cabo, a centímetros dele. Do lado mesmo. Grudada mesmo.
Ele pedia calma à multidão.
"Na hora, eu vi o buraco na cabeça dele, sangrando muito. Eu horrorizei.
Se você olhar as imagens da TV, eu estou ao lado dele, de cabelo
preto comprido.
"Foi horrível, eu gritando, chorando e fazendo as fotos. Meio trágico...
durouuns dez segundos o tiroteio. Ele foi caindo em câmara lenta.
Quando acabou de cair, eu fiz a foto e gritei. Nunca tinha visto
uma coisa dessas.
"Não sei como consegui fazer essas fotos. Nem eu acredito. Fiquei
muito assustada. Estava todo mundo em pânico. Era fogo cruzado.
"Pensei: me abaixo ou faço a foto? Se fico em pé, posso morrer.
Mas só faço a foto se ficar em pé. Levantei, não sei por quê.
"Acho que a foto mostra um pouco do que aconteceu. Para a gente
que viveu o horror foi muito maior. Eu não acho que a foto seja
chocante. Vi tanta coisa mais chocante lá.
"Ela mostra aquele PM que não sabe se se defende ou se atira nem
para que lado atira. Porque não se sabia de onde vinham os tiros.
"Fiquei chateada de a fita da TV trazer só os meus gritos. Ainda
não entendo como posso ter gritado tanto e ter feito aquelas fotos.
Acho que passei um minuto batendo aquelas fotos. Depois, o que me
impressionou foi o choro dos PMs.
"Eu mais ou menos esperava que aquilo fosse acontecer. Antes, ali
na praça da Liberdade, senti um clima estranho. Já tinha feito fotos
da manifestação, talvez voltasse para a Redação.
"Mas vi aquele monte de gente cercando o palácio. Pensei: se a multidão
avança, vai romper o cordão e invadir. Comecei a seguir a manifestação
até a porta do prédio. Iam entrar, invadir, pisotear, matar, ia
morrer mais gente. Veio o tiroteio, depois o pânico e a tensão foi
diminuindo.
"Essa noite (de quinta para sexta-feira) eu não dormi direito. Dava
pulos na cama. Acordava assustada. Aí, tomava um café, fumava e
tentava dormir de novo. Não almocei. Estou com muita dor no corpo.
"Hoje eu estava pensando, porque acho que fez efeito hoje. Acho
que eu não tremi porque eu gritei e chorei muito. Chorando, você
não consegue ver direito a imagem que está enquadrada.
"Aqui (no jornal), você primeiro tem que fazer a foto, depois o
resto. Um dia, achei que tinha perdido o celular do jornal e meu
chefe reagiu: não perdendo a foto, pode perder qualquer coisa."
A narrativa acima é da repórter-fotográfica Isa Nigri, 41, 3 filhos,
autora da foto do cabo Valério dos Santos Oliveira, veiculada nas
capas da Folha, de "O Globo" e do "Jornal do Brasil" de quarta-feira
passada. A foto foi considerada "chocante" por alguns leitores da
Folha.
Uma leitora enviou mensagem via Internet às 7h55 do dia da publicação.
Ela reconhecia a relevância do fato, mas dizia que não conseguira
ver o jornal no café da manhã por causa da imagem, rejeitando-a
como "foto para a Primeira Página em uma Folha de S.Paulo".
Outros leitores classificaram a publicação do instantâneo como sanguinário
e sensacionalista. Não houve apoios, como seria de se supor num
caso desses.
A repórter-fotográfica Isa Nigri está em "O Tempo", de Belo Horizonte,
desde que o jornal começou a circular, há cerca de um ano. Tem três
filhos, de 21, 19 e 16 anos. É judia. Antes de fazer fotojornalismo,
a fotografia era um hobby para ela. Teve fábrica de móveis, confecção,
viajou.
Diz: "Primeiro ganhei a vida, conquistei uma certa estabilidade,
agora resolvi fazer o que gosto".
Até hoje, a maior dificuldade que tivera no trabalho fora a perda
da foto de uma visita do ex-presidente Itamar Franco à capital mineira.
Depois de "fazer" as fotos de Itamar, já de volta à Redação, percebeu
que tinha se esquecido de colocar filme na máquina.
A foto de Isa constitui um dos grandes momentos do fotojornalismo
deste ano. Sua publicação envolve consideração ética, a de arriscar
expor assunto desagradável e doloroso, em sua crueza, aos leitores.
Há questão ética também na outra ponta, a da recepção da informação.
O jornal parece convidar _impor_ que o leitor admita a entrada do
drama excruciante em sua existência, mesmo que a contragosto, correndo
o risco de estragar-lhe o dia.
Boa parte do ofício de informar no Brasil implica trazer a público
os efeitos da surda guerra civil que a todo momento explode de formas
diferentes.
Não cabe à imprensa amenizar ou se distanciar dessa situação, por
mais que seu aspecto sensacional, atemorizador, sanguinário cause
repugna.
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