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São
Paulo, domingo, 13 de julho de 1997
MARIO VITOR SANTOS
Críticos
de artes e espetáculos mantêm complexas relações com o público.
Para muitos leitores, eles são vozes imperiosas a emitir opiniões
que não fazem sentido, a recomendar obras ruins e a rejeitar o que
diverte, mas que desejam ser vistos como apenas mais uma opinião.
Às vezes, seus textos saltam enfurecidos nas páginas, têm o jeito
de quem defende um programa estético, transmitem a idéia de que
foram assaltados por algum espírito de vingança e perseguição pessoal.
Há quem classifique alguns deles como ''cruéis'', ''terríveis''.
Vários leitores não ocultam a perplexidade ao ver que o que os deleita
não causa a mínima reação favorável do crítico. Há também, é óbvio,
os que se sentem agradecidos pelo trabalho daqueles que nos abrem,
generosamente, as portas para algo que não alcançaríamos, conduzindo-nos
a novos níveis de percepção e desfrute.
A crítica reúne expressões nos mais diversos níveis de profundidade,
ambição e tom. Um traço comum parece ser essa distância entre as
exigências do crítico e as de boa parcela, em geral silenciosa,
do público. Enquanto os cinemas dos shoppings se entupiam de espectadores
para ''Mundo Perdido'' e ''Batman e Robin'' na semana que passou,
juízos críticos publicados na Folha torciam o nariz, quando
não reservavam a eles expressões que variavam de ''lagartos histéricos''
(para o primeiro, bem dito) a ''quadrinhos GLS''.
A fim de entender o que vai pela cabeça desses profissionais, fiz
as mesmas perguntas a uma amostra dos críticos da Folha.
As perguntas tomam por base questionamentos comuns entre leitores
que se manifestam ao ombudsman.
Em geral, os críticos consideram que estão prestando um serviço,
tendem a minimizar seu poder e carregam alguns arrependimentos a
respeito de coisas que escreveram.
1) O que você tenta alcançar com seu trabalho?
Marilene Felinto, colunista, crítica de livros: ''Meu objetivo
é apresentar um assunto como quem apresenta a uma criança a noção
de que as letras do alfabeto formam sílabas e palavras. Para que
ele então monte seu próprio texto e pare de ler o meu _ou leia o
meu em confronto com o seu''.
Marcelo Coelho, colunista, membro do Conselho Editorial da
Folha: ''Mostrar para o leitor o que pode ser aproveitado,
o quanto eu aproveitei. Tentar estimulá-lo para que ele tire o máximo
daquilo. O que faço é quase como o exemplo de uma crítica possível''.
Álvaro Pereira Jr., crítico de música pop de vanguarda do
Folhateen: ''Basicamente, informar. Nunca penso em fazer
proselitismo. Não tenho uma causa''.
Pedro Alexandre Sanches, crítico de música: ''Não tenho um
programa, uma atitude. As coisas vão saindo.
Meu objetivo é, somando tudo que escrevo, traçar um universo deste
momento da música popular, no contexto dela. O difícil é que as
pessoas sempre te consideram como um carrasco. Você é agressivo,
e as pessoas interpretam como ataque pessoal. Como em tudo, também
na produção musical existe muito joio e pouco trigo. Faço uma tentativa
de separar o que vai ser mais significativo no estágio atual da
música''.
José Geraldo Couto, crítico de cinema e literatura: "Quero
iluminar aspectos da obra em questão que talvez passassem despercebidos
pelo leitor ou espectador num primeiro contato. Ajudar o leitor
a se mover melhor nessa situação de grande oferta de livros, filmes,
fitas de vídeo. É ajudar o leitor em seu contato com a obra de arte''.
Nelson de Sá, crítico de teatro: ''É prestar de alguma maneira
um serviço a quem lê. É servir de referência para as pessoas que
têm ou possam ter interesse em relação àquilo. Minha função não
é prestar serviços ao artista nem à chamada classe teatral, estou
mais ligado à sociedade como um todo''.
2) Você tem poder? Que tipo de poder?
Marilene Felinto: ''O poder de mostrar ao leitor como é que
se pensa um assunto ou se faz um texto _o meu. O meu texto e o meu
pensamento, que podem ter influência positiva ou negativa sobre
o pensamento e o texto dele (e que ele não tem o poder de me mostrar).
O poder, portanto, de estar a salvo do leitor''.
Inácio Araujo: ''Quer queira, quer não, você tem um certo
poder. O problema é que você não controla esse poder, porque a rigor
ele diz respeito ao jornal, à crítica como instituição, não a tal
ou tal fulano. Em compensação, você tem uma responsabilidade que,
esta sim, é pessoal''.
Fernando de Barros e Silva, crítico de TV: ''O poder do crítico,
quando se trata de TV, é pequeno, quase irrisório, não atinge o
veículo. A impotência do crítico de TV dá a ele certas liberdades
que não existem em outras áreas. Em função disso, digo que a crítica
de TV é um trabalho inútil, mas por isso mesmo muito necessário''.
Álvaro Pereira Jr.: ''Não tenho poder de mercado. Sinto alguma
felicidade quando recebo mensagem de uma menina de 17 anos de Guarulhos
dizendo obrigado por lhe apresentar 'Man or Astroman', de quem ela
nunca tinha ouvido falar''.
3) Você se arrepende de algo que escreveu?
Marcelo Coelho: ''Me arrependo do que escrevi sobre Manoel
de Barros. Saiu com uma estridência maior do que eu pensava. Também
o que eu escrevi sobre o (José Miguel) Wisnik acabou tendo uma conotação
invasiva. Em outros casos, as circunstâncias levam a mal-entendidos.
Ocorre de uma obra ser, num primeiro momento, recebida de maneira
muito positiva e, se o crítico considera que deve discordar, ele
pode ser levado a exagerar nos aspectos negativos, para contrabalançar
o elogio do outro lado. Quando a coisa é lida, aparece fora do contexto,
não dá para entender como ele produziu tanta bile''.
Fernando de Barros e Silva: ''Certa vez, chamei William Bonner
de ator canastrão, numa circunstância específica. Talvez tenha exagerado.
A definição cabe melhor a Cid Moreira ou mesmo a Alexandre Garcia.
Também errei o tom quando escrevi sobre Gugu Liberato. O texto saiu
entre engraçadinho e cifrado, meio hermético, e o programa que ele
faz, ''Domingo Legal'', é muito pior do que eu consegui vocalizar''.
José Geraldo Couto: ''Tive algumas polêmicas pessoais em
que sempre fica uma sensação de ter sido excessivamente agressivo.
Com Walter Salles Jr., com Marcelo Coelho (em relação a uma crítica
dele à poesia de Manoel de Barros). Ali acabei generalizando, falando
do gosto estético dele''.
Inácio Araujo: ''Às vezes, eu nem preciso rever o filme.
Converso com um amigo, ele me aponta coisas que não notei e muda
minha opinião. Se sua crítica tenta ser reflexiva, inserir o filme
numa tradição _a questão do arrependimento não existe''.
Nelson de Sá: ''Me arrependo de várias críticas. Certa vez critiquei
'Artaud', de Rubens Corrêa. Expressei opiniões sobre Artaud das
quais vim a ter, depois, uma visão completamente diferente. Lembro
de um espetáculo de Heiner Muller, com o Bando de Teatro do Olodum.
Escrevi coisas sobre um dos atores que tinham boa dose de preconceito.
Na hora não percebi, mas o fato é que havia''.
Pedro Alexandre Sanches: ''Fiz uma gracinha sobre Vânia Bastos,
com sua mania de virar os olhos. Parecia ataque pessoal. Talvez
tenha ficado deselegante demais''.
No próximo domingo, a história da leitora que pergunta se os críticos
realmente assistem aos filmes. Os críticos falarão sobre se eles
se sentem na obrigação de apontar aspectos negativos.
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