|


O que é o cargo
Fale com a
Ombudsman
Mural
Colunas
Anteriores
FiloFolha
Dúvidas mais
Frequentes
Bate-papo
|
 |
| Leitores
criticam a crítica |
 |
São
Paulo, domingo, 03 de agosto de 1997
MARIO VITOR SANTOS
''Gostaria
de saber se os críticos realmente assistem os filmes, porque no sábado
17 de maio fui assistir 'A Estrada Perdida', que, na verdade, deveria
se chamar 'O Tempo Perdido' e/ou 'O Dinheiro Perdido'. Assim é que
gastei R$ 8 no cine Belas Artes, além de uma bela escadaria para sair
do cinema, mais R$ 13 de estacionamento _porque o filme passa de duas
horas_ e o filme é simplesmente horrível!!!!!''
''Já nos primeiros 20 minutos, dá vontade de sair do cinema; não se
entende nada de nada; várias pessoas saíram meneando a cabeça! Ao
fim, perguntei a várias pessoas ao meu redor, e nenhuma delas entendeu
nada do filme. Se esse é um dos melhores filmes da semana, imagine
os outros então!...Sugestão: 'O Quinto Elemento'. Dei boas risadas
por R$ 4. Atenciosamente,
Maria Helena (São Paulo)''
A carta citada acima expressa a reação comum a vários leitores, que
em geral optam pelo silêncio. Mostra a tensão que existe entre os
críticos e seu público. Nesta última coluna da série sobre os críticos
de artes e espetáculos, os leitores manifestam suas insatisfações.
Queixam-se de que a crítica recomenda espetáculos ruins e herméticos,
que é mal-humorada e desrespeitosa, parcial, irracional e subjetiva.
Existem exceções, mas as críticas de artes e espetáculos surgem aos
olhos de muitos leitores como análises pouco claras, que não denotam
um esforço de transparência do autor no sentido de dividir com o público
os critérios com que trabalha.
Além disso, aqui e ali, a crítica acaba sendo o palco dos caprichos
do crítico, que tende, em geral, a minimizar seu poder e influência.
Nem sempre se nota um esforço do crítico no sentido de respeitar a
obra criticada, de torná-la acessível ao público leitor.
Há um certo culto ao estilo justiceiro na crítica, exagerando as características
de uma função já em si perversa, em que o julgador tem que opinar
sobre aquilo que é ou não digno de apreciação estética ou diversão.
Muitas vezes, o crítico se expõe mais do que desvenda a obra criticada.
É mais ou menos inevitável que assim seja. Mas seria legítimo exigir
mais moderação dos críticos? O leitor Paulo Chacon acha que sim, ao
se referir a um trabalho do colunista Marcelo Coelho: ''Como crítico,
tendo o espaço que tem na sua coluna, espera-se um pouco mais de respeito,
imparcialidade, racionalidade na avaliação de uma obra de arte, procurando
_ao contrário_ expurgar a subjetividade inerente a esse tipo de análise.
Isso porque tal espaço (a coluna) lhe confere muito poder''.
A observação de Chacon refere-se a uma coluna de Marcelo Coelho, que,
entre outros argumentos sobre o livro ''Cartilha do Silêncio'', do
escritor regionalista Francisco J. C. Dantas, emitiu a seguinte opinião:
''Trata-se de livro ruim, visivelmente ruim, insuportavelmente ruim''.
Para o missivista, o tom de Coelho é tão raivoso que nem a orelha
do livro escapa: ''A orelha é tão ruim que o próprio autor teria sido
capaz de escrevê-la'', escreveu Coelho, citado por Chacon.
Ouvido, Coelho argumenta que sua crítica reproduzia trechos que ele
considerava ruins no livro, os quais ele publicou para suportar seu
julgamento: ''Não sei se o tom é raivoso, acho-o contundente e à altura
dos trechos da obra que foram citados. O julgamento do leitor também
é subjetivo. A única saída é chocar as duas subjetividades, a minha
e a do leitor, e cotejá-las com os trechos citados da obra''.
Como é possível ''expurgar'' a subjetividade de uma apreciação crítica,
em que a relação do observador com a obra _as identidades que se estabelecem,
a intensidade da fruição, o envolvimento distanciado_ precisa ser
também tão particular e íntima, tão pessoal, peculiar, tão pouco ''objetiva''?
O expurgo total da subjetividade é o expurgo da crítica em si. Apesar
disso, a tese do leitor tem procedência. É possível adotar alguns
caminhos que reforcem uma espécie de ética da crítica, que regule
e contenha a aleatoriedade e a violência inerentes a qualquer juízo.
A crítica pode e deve evitar ataques à pessoa do artista ou do autor
do espetáculo, abrir mão das ofensas pessoais.
Ao leitor Gil Lopes, do Rio, repugna o ''traço 'Zé Fernandes' da crítica
de segundos cadernos'', numa alusão ao mal-humorado ''jurado'' José
Fernandes, que fez fama em programas de auditório dos anos 60. Segundo
Lopes, esse ''estilo'' ainda não foi abandonado pelas editorias. O
leitor pede que ele seja substituído por mais imaginação e criatividade.
A crítica deve também estar atenta para não eternizar preconceitos
ou corroborar modismos a respeito do que é ou não aceitável no panorama
das idéias e dos comportamentos.
A marca da crítica deveria ser justamente a tolerância, a abertura
para incluir no terreno cultural mais formas de expressão, reflexões,
vivências. Ela não pode deixar de relacionar sua análise com o contexto
político, econômico e histórico. O papel da crítica, aliás, é essencial
nessa função integradora de aspectos, idéias e comportamentos até
então não admitidos.
Aqui surge uma questão essencial: a do chamado mercado cultural e
de entretenimento. A arte, com frequência, se manifesta na contracorrente
do mercado. Cabe à crítica, não raramente, chancelar determinada obra
ou artista que, à luz do gosto vigente, soa estranha, incompreensível,
de mau gosto, inadequada. A esse respeito, por exemplo, teve pré-estréia
há poucos dias em São Paulo o filme canadense ''Kissed'', de Lynne
Stopkewich, em que a personagem principal tem prazer com cadáveres
da funerária em que trabalha. Imagino a dificuldade que um crítico
deva sentir ao tentar ''digerir'' algo desse tipo.
Sobre o trabalho crítico convergem influências e exigências contraditórias.
Deve falar ao leitor médio, mas não se contentar apenas com o gosto
médio. Só pode analisar uma obra se se envolver com ela, mas é obrigado
a manter o distanciamento.
A saída está na busca de uma posição crítica conciliatória, intermediária,
sóbria, transparente e humilde diante de leitores e artistas. Como
constata o leitor Paulo Venturelli, de Curitiba, referindo-se às respostas
que oito críticos da Folha, em domingos anteriores, deram a
perguntas formuladas por mim:
''(Na coluna 'Os críticos se explicam') está um perfil diferente dos
críticos. Eles saem do pedestal, do discurso arrogante, mostram-se
humanos, porque capazes da dúvida e da humildade de reconhecer erros.
Não são ali os deuses portadores da verdade eterna.''
E acrescenta, em tom de balanço: ''Depois de tudo, creio que a linha
crítica da Folha deve continuar. Não teria sentido o jornal
transformar-se num mostruário encomiástico da arte do país. Mesmo
quando fere fundo, isso é saudável: evita que a gente seja levado
pela emoção do momento. E criticar é isso mesmo: abrir os olhos, não
importando o incômodo. É um modo profissional de superar os 'achismos'
que dominam a sociedade.''
A crítica desempenha seu papel se, eticamente, se dedica a encontrar
uma improvável verdade, em conduzir a reflexão sobre a manifestação
artística a um estágio mais desenvolvido, ou seja, mais verdadeiro.
Em resumo, críticos e jornalistas garimpam em busca do mesmo metal,
mas essa corrida precisa se submeter a limites, para benefício de
todos.
Fora da capa
Editores do ''Correio Braziliense'' fizeram uma aposta que merece
ser acompanhada. Resolveram bancar a decisão de não publicar com destaque
_jamais na primeira página, por exemplo_ referências ao professor
Leonardo Teodoro de Castro, classificado pela Polícia Federal como
principal suspeito da autoria da explosão do vôo 283 da TAM.
Mistério na Paraíba
Indícios apontam para a ocorrência de um massacre, pela Polícia Militar,
de oito presos durante rebelião na Paraíba, quarta-feira passada.
O evento foi festejado por setores da mídia da cidade de João Pessoa.
Jornais de São Paulo, inclusive esta Folha, cobriram o assunto
com injustificada discrição, diante das dimensões do fato.
Colunas
anteriores
27/07/1997
- O desmanche de tudo que era sólido
20/07/1997 - Achômetros
13/07/1997 -
Os críticos se explicam
06/07/1997 - Morte
no sinal
29/06/1997 -
Isa no centro do horror
subir

|
|
|