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São
Paulo, domingo, 10 de agosto de 1997
MARIO VITOR SANTOS
'Nos últimos
dias, a imprensa tem noticiado o que aparenta ser uma onda de crimes
bárbaros. Não parecem casos isolados, ou as tristes _e distantes_
chacinas que acontecem nos bairros pobres da periferia.
Enquanto isso, arrasta-se em Brasília uma precária discussão a respeito
de um novo modelo para as polícias brasileiras, cuja desestruturação
foi exposta nos recentes movimentos grevistas e insurrecionais ocorridos
em diversos Estados.
Veja o que a Folha publicou nos últimos dias:
1) Em 28 de julho, a artista plástica Hermine Toth, 73, foi assassinada
a facadas em sua casa no Morumbi, um bairro de moradores de média
e alta rendas de São Paulo. Seu corpo foi incendiado. Na orelha
direita havia um saca-rolhas. Na esquerda, um espeto de churrasco.
2) Em 22 de julho, um casal de médicos de Santos foi morto por asfixia,
supostamente por um empregado e um comparsa. Os corpos de Nêdo Romiti,
67, e Maria Romiti, 72 foram encontrados em um baú, dentro de seu
apartamento. A dupla teria amarrado o casal em duas cadeiras e colocado
na cabeça dos médicos sacos plásticos, presos com fita adesiva à
altura do pescoço.
3) Na madrugada de domingo passado, o cirurgião cardiovascular e
professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo,
o respeitado médico Milton Jacob Bechara, 38, foi assassinado com
um tiro no rosto dentro do seu Vectra em plena rua Prestes Maia,
ao lado do clube Monte Líbano, no Ibirapuera, um bairro de classe
média alta na zona sudoeste de São Paulo. Segundo testemunhas, um
dos passageiros de uma Parati preta teria mandado o médico parar
seu carro. Como ele tentou prosseguir, o homem atirou acertando
seu rosto.
4) No mesmo dia, o policial militar Marcelo Gualberto Cerbocini
foi preso sob a acusação de matar com um tiro no peito o estudante
Márcio Paulo Santos, de 16 anos. O policial não teria gostado de
uma brincadeira feita pelo adolescente e um grupo de amigos. Segundo
testemunhas, o PM estava embriagado no momento do crime.
5) O administrador de empresas Paulo César Dias da Silva, 42, morreu
após ser atingido por uma bala perdida durante tiroteio entre policiais
militares e supostos assaltantes de carro-forte. A troca de tiros
aconteceu na segunda-feira passada, às 9h30, em plena rua Martiniano
de Carvalho, na Bela Vista, bairro da região central de São Paulo.
De acordo com a polícia, pelos menos 12 tiros foram disparados.
No tiroteio, o sargento da PM Gilson Silva, 34, foi atingido por
uma bala de espingarda calibre 12 na cabeça. Morreu no hospital.
6) Na quarta-feira passada, a estudante Karina Pereira do Carmo,
17, foi atingida no peito por uma bala perdida na entrada de um
supermercado no bairro do Morumbi (zona sudoeste de São Paulo).
O tiro que acertou Karina, segundo a polícia, teria saído do revólver
do ajudante Reginaldo da Silva, 23. Ele teria trocado tiros com
o policial aposentado José Carlos Spina, 52, após assaltar outra
estudante em frente ao supermercado. Silva e Spina também foram
baleados.
7) Na quinta-feira passada, a Folha publicou que o pintor
de carros Gerson Santana da Silva foi preso sob a acusação de ter
matado três pessoas no bairro Cidade Dutra, na periferia da zona
sul de São Paulo. Entre os mortos estava Ronaldo Constâncio da Silva,
de 13 anos. Ele foi morto com um tiro no olho no dia 27 de maio
por ter, minutos antes, testemunhado o assassinato do auxiliar de
embalagem Vagner Rosa dos Anjos, 24.
Rotina
Todos os casos citados foram transcritos de reportagens veiculadas
pelos cadernos São Paulo/Cotidiano desta Folha. A
regularidade dessas publicações cria uma rotina que acaba banalizando
a barbárie social em que nos encontramos.
Talvez por causa da crueldade, a fatalidade e a boa condição social
de algumas das vítimas, possa existir a impressão de que estamos
vivendo uma época mais violenta.
Não. De acordo com números da Prefeitura de São Paulo, 1997 é um
ano de estabilização das chamadas mortes violentas. Estabilidade
num patamar assustador: no ano passado, 26% de todas as mortes ocorridas
entre a população masculina na extrema periferia da cidade foram
causadas por violências, ou seja, homicídios e acidentes de trânsito.
Na área mais rica, a parcela das mortes de homens causadas por violência
é de 10%, o que está muito longe de ser desprezível. A violência
é a principal causa das mortes da população masculina jovem paulistana,
superando todas as outras causas.
Ameaça
Além da dor da perda para parentes e amigos, essa elevada incidência
de mortes de homens em idade produtiva, muitos deles chefes de família,
cria um ambiente de ameaça coletiva, além de uma situação social
muito grave.
Famílias são desfeitas, muitas perdem sua principal acesso aos meios
de sustento. Na periferia, principalmente, jovens abandonados em
consequência são quase obrigados a engrossar a criminalidade.
A polícia tem as conhecidas precariedades, e é de se imaginar o
trabalho que mesmo uma polícia melhor teria para alterar substancialmente
esse quadro de abandono, decorrente em grande parte da injustiça
social de um país que tem os piores indicadores de distribuição
de renda.
O direito à segurança, para não falar dos outros, é essencial para
o exercício da cidadania. A questão da segurança é complexa, envolve
áreas tão díspares com a eficiência e a rapidez da Justiça, a capacidade
de recuperação das prisões, o sistema educacional, a situação econômica
e até os valores prevalecentes em determinada época.
E a Folha? O jornal tem cumprido seu papel de noticiar os
crimes. Mas sua atitude, bem como a de toda a imprensa de qualidade,
é semelhante à que predomina na sociedade: um misto de descompromisso,
de conformismo, impotência, de abordagem parcial e localizada do
problema da segurança pública.
Sensacionalismo
Sob o lema ''Reage São Paulo'', a Folha já publicou uma bem-sucedida
série de reportagens sobre o assunto no ano passado. O problema
é a descontinuidade. Só raramente a cobertura dos casos policiais
prossegue até o encerramento dos casos e a eventual punição dos
culpados. Do mesmo modo, a série da Folha foi passageira.
O tema segurança pública deveria ter atenção e espaço equivalente
à importância que o problema tem para o leitor e para a sociedade.
A segurança pública é também uma questão de saúde pública, de uso
do espaço público, de manutenção e aproveitamento da mão-de-obra
já formada, de estabilidade social, de Justiça.
Infelizmente, a noção que a imprensa demonstra ter do problema em
sua cobertura regular é ainda limitada e imediatista: o registro
do crime, uma continuação no dia seguinte e pouco mais.
Um argumento implícito a justificar essa contenção é o medo do sensacionalismo,
do jornal que ''espreme, sai sangue'', como se diz. É uma tese que
vê a cobertura policial dissociada de suas causas, que confunde
a segurança pública com a realidade dos distritos, do mundo cão.
Se a imprensa tratar da segurança pública com a ênfase com que trata
da dívida pública, vai inevitavelmente mobilizar energias sociais
das quais o beneficiado será o cidadão.
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