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São
Paulo, domingo, 24 de agosto de 1997
MARIO VITOR SANTOS
''O jornalismo
terá de fazer frente a uma exigência qualitativa muito superior
à do passado, refinando a sua capacidade de selecionar, didatizar
e analisar. É recomendável que a gama de assuntos a serem cobertos
até mesmo se reduza em alguma medida, desde que em contrapartida
sua seleção seja mais pertinente, e o tratamento que receberem,
mais compreensivo.
''Uma tal mudança implica repercussões na pauta, na reportagem,
no texto, na edição. É preciso maior originalidade na identificação
dos temas a serem objeto de apuração, bem como uma focalização mais
precisa de sua abordagem.''
Projeto Editorial da Folha, 1997
A Folha apresentou no domingo passado seu novo projeto editorial.
É um texto com reflexões sobre a situação atual, o estado do jornalismo
e uma manifestação de intenções para o futuro do jornal.
Quando é mais claro, o projeto apresenta importantes definições:
a Folha pretende _como o trecho acima deixa entender_ fazer
um jornalismo mais profundo, com reportagens melhores e mais explicativas,
nas quais a situação em torno do fato seja tão importante quanto
seu relato.
Esse processo de sofisticação, segundo o projeto, deve ocorrer em
todas as fases de produção do jornal, desde a seleção das reportagens
a serem trabalhadas até a edição dos textos, fotos e artes. Atinge
também as decisões a respeito dos enfoques a priorizar e a apresentação
editorial e gráfica dos temas. O projeto quer um jornalismo mais
interpretativo, complexo, desestatizado e humano.
Mundo complicado
A Folha, assim, está defendendo um tratamento mais aprofundado
dos temas, cuja "gama de assuntos" até mesmo "se reduza em alguma
medida" em benefício da sua compreensão e integridade. No papel,
o jornal inclina-se por uma linha mais analítica e completa do que
aquela que tem sido realizada.
Depois de ampliar seu público com as promoções de distribuição de
enciclopédias, dicionários e vídeo, acompanhadas de concessões ao
suposto gosto do novo público, a Folha mostra-se preocupada
em estar à altura de dar conta das complicações da época. Procura
sanar o problema _comum a muitos veículos, inclusive estrangeiros_
em que um jornalismo mais ligeiro, tópico e superficial tem de encarar
um mundo em que os temas são cada vez mais complicados e relacionados
entre si.
O novo projeto é receptivo em relação às influências da discussão
ética _palavra que não é usada nenhuma vez no documento_ sobre a
atitude da mídia. Reconhece os problemas que uma atitude agressivamente
investigativa trouxe consigo em termos de desgaste de imagem junto
à sensibilidade de parcelas relevantes do público, além dos efeitos
negativos de afastamento da verdade, desrespeito a direitos, arbitrariedades.
O texto mostra-se simpático à nova Lei de Imprensa.
E a ética?
Essas definições estão apenas esboçadas no texto. A maneira como
as apresento aqui talvez decorram, em grande parte da minha própria
expectativa diante do diagnóstico muitas vezes genérico e indeciso.
A Folha vive uma situação em que há muitos "objetivos a compatibilizar",
como diz o texto:
"Como praticar um jornalismo mais interessante (pois há queixas
nessa direção) e ao mesmo tempo mais ponderado? Como manter e até
ampliar o diapasão de crítica, sem ferir direitos nem utilizar métodos
capciosos? Como aprofundar os enfoques sem perder a necessária vivacidade
jornalística? Como evitar tanto o conformismo como a crítica pela
crítica?"
Não são antagônicos os termos das questões colocadas acima, ao contrário
do que sua leitura supõe. Só é possível interessar de fato com um
trabalho amparado numa atitude de ponderação e critério. A crítica
só é efetiva quando embasada em procedimentos justificados pela
legalidade e pela ética, ela só seduz quando incorpora ao tema todos
os seus aspectos de fato relevantes, só se justifica quando em defesa
de valores que julgamos importante abraçar em nome do interesse
coletivo.
A decisão fundamental não é técnica nem mercadológica, mas ética.
Infelizmente, o texto não avança nesse tema.
Cobrança
O novo projeto da Folha alinha intenções. Como não poderia
deixar de ser, é marcado pela subjetividade, tem objetivos que eu
não identifico como possam ser aferidos objetivamente por jornalistas,
bem como pelos leitores e pela sociedade. Diz mais o que fazer do
que o como fazer.
De que maneira é possível avaliar objetivamente se uma publicação
traz reportagens melhores, mais profundas, mais seletivas e explicativas?
Além disso, que índice usar para medir a qualidade de um jornal,
numa época em que vendas em bancas e de assinaturas muitas vezes
já não dependem tanto como antes da qualidade do produto jornalístico
em si?
No passado, projetos editoriais da Folha enfatizaram o caráter
da informação como mercadoria, rompendo com uma visão anterior,
considerada mais romântica. Agora, o jornal tenta temperar essa
ruptura, recuperando fundamentos que conduzam a um jornalismo tecnicamente
mais livre, sério, completo e criativo.
São objetivos que é muito mais fácil expor do que levar à prática.
Os leitores têm agora melhores razões para cobrar qualidade e coerência
do jornalismo da Folha.
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