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São
Paulo, domingo, 07 de setembro de 1997
MARIO VITOR SANTOS
Apesar de todo o afobamento existente nos últimos dias, ainda é
muito cedo para afirmar que os repórteres-fotográficos que teriam
perseguido o Mercedes pelas ruas de Paris são culpados ou inocentes
no episódio que resultou na morte da princesa Diana.
Estabelecer a culpa num caso como esse demanda rigorosa apuração
das circunstâncias. Depende de fatores que ultrapassam nossas simpatias
e temores pessoais. Extrapola a defesa do direito a informar sem
limites ou a oposição ao sensacionalismo da mídia.
Quase todas as informações ainda precisam ser confirmadas, pois
existem ao menos duas versões para cada detalhe relevante.
Importa saber com exatidão a velocidade do carro, a eventual embriaguez
do motorista, a perseguição dos motofotógrafos, a influência efetiva
destes sobre o desastre, a omissão de socorro possível. Já se sabe,
porém, que ocorreu a definitiva "invasão": o sádico registro da
agonia e morte da princesa.
Não há por que correr para inocentar ou condenar qualquer envolvido.
Faltam informações conclusivas. É preciso apurar mais e melhor.
Todos são inocentes _inclusive jornalistas da imprensa sensacionalista_
até decisão
judicial em contrário. A dura investigação não pode desaparecer
após o "show" do enterro da princesa.
Dois barcos
Tão ou mais importante, porém, é a polêmica sobre as responsabilidade
e os vícios de cada veículo de comunicação. No Brasil, mesmo os
jornais de qualidade adotaram majoritariamente uma posição defensiva.
Poderiam usar o fato para marcar explicitamente sua diferença com
os métodos da imprensa sensacionalista, mas não o fizeram. Preferiram
deixar os pés nos dois barcos. Por quê?
Esta Folha, por exemplo, publicou na quarta-feira valiosa
entrevista com o historiador marxista inglês Eric Hobsbawn, aquele
que é talvez o mais respeitado intelectual vivo. Com toda a sua
autoridade, apesar de abraçar ideologia considerada defunta, Hobsbawn
fez a seguinte declaração: "Não há dúvida de que a mídia conduziu
Diana até a sua morte".
Esse juízo fortíssimo não mereceu destaque em capa, títulos, subtítulos,
aberturas. Deu-se mais atenção ao seu diagnóstico sobre o uso que
o primeiro-ministro Tony Blair e a monarquia tentavam fazer da morte
da princesa. Vale notar que a declaração de Hobsbawn encara a "mídia"
como um ente único, sem diferenciações e interesses variados.
Culpas
Quanto à (precipitada) escolha dos culpados, foram escolhidos responsáveis
para todos os gostos, de acordo com cada veículo. Aí vai uma lista
parcial:
1) o chofer bêbado - Henri Paul teria batido a 196 km/h o Mercedes
280S que conduzia embriagado, como indicariam as análises de especialistas
a partir do índice de álcool no sangue;
2) o público - Este seria culpado indiretamente, por consumir as
fotografias e as reportagens sobre a vida íntima de pessoas famosas.
Em graus variados, a "mídia" seria como que inocentemente obrigada
a incomodar os famosos para saciar a avidez bárbara, tribal, pela
telenovela real. Daí o raciocínio, expresso em editorial da Folha,
segundo o qual não é possível fazer jornalismo perfeito numa sociedade
imperfeita;
3) as celebridades - Essas seriam responsáveis por estimular a curiosidade
popular, por usar a "mídia" para se promover, na ânsia de satisfazer
vaidades que se nutrem da fama e do dinheiro que sua exposição propicia.
Diana, a "professorinha", a "princesinha", seria a mais bem-sucedida
delas;
4) Todos - Nessa alternativa, defendida pelo correspondente de "O
Estado de S.Paulo" em Paris, Giles Lapouge, a que mais inclui a
"mídia", todos parecem participar igualmente da culpa. Mas, como
já disse o colunista Janio de Freitas, que eu talvez cite sem ser
fiel a suas intenções: "Quando todos são culpados, ninguém é".
O mercado manda
A diluição dos limites entre imprensa de qualidade e a sensacionalista
é uma preocupante tendência do jornalismo contemporâneo. Ela tem
razões mercadológicas, culturais, ideológicas e éticas. Onde não
existe uma imprensa sensacionalista forte, que exija combate, as
concessões ao sensacionalismo talvez sejam mais tranquilas.
Cultua-se um conveniente "mercadismo", segundo o qual a divulgação
de notícias obedece a um "laissez-faire" jornalístico. Elas como
que ganhariam prioridade e se imporiam espontaneamente, para atender
ao interesse irresistível do mercado. A penetração cada vez maior
na vida íntima de famosos seria alheia às intenções da mídia de
qualidade, que se vê obrigada a saciar esses baixos instintos _vindos
de fora das redações_ de maneira passiva, impotente e contrariada.
Será que é assim mesmo?
Em primeiro lugar, é errado sair em defesa da "mídia" como um todo,
bem como supor que não existam diferenciações. Deve haver veículos
que são mais rigorosos, outros que fazem apenas concessões pontuais
e outros que aderem perigosamente à bisbilhotice.
Esta própria Folha, bem como outros jornais de qualidade
brasileiros, reproduz aqui e ali parte do que é produzido por publicações
como "The Sun" e "News of the World". As conceituadas "agências
internacionais" divulgam fartamente esse material.
É evidente que a reprodução pontual de material oriundo dos tablóides
_disseminada por boa parte dos mais respeitáveis veículos da imprensa
mundial_ não se iguala aos tablóides, mas tira-lhes autoridade para
criticá-los, para separar o joio do trigo. A própria cobertura do
acidente e do velório durante a semana não foi isenta de sensacionalismo.
Corrida do ouro
Como entender um cenário em que é evidente o sucesso comercial de
jornais de escândalo, com tiragens de 4 milhões de exemplares ("The
Sun"), 2,5 milhões ("Daily Mirror"), enquanto um excelente jornal
como "The Independent" luta para manter seus 279 mil exemplares
diários? Sem falar do sucesso das revistas de fofocas e dos noticiários
"leves" das TVs, sintoma e causa do ambiente cultural.
É só pensar que uma foto de Diana e Dodi al Fayed fez de seu autor
um milionário da noite para o dia para imaginar a excitação que
pode ter cercado a chegada dos dois a Paris, na escalada de eventos
que resultou no acidente.
Ética
Se a mídia não é uma só, o público também não. Congrega parcelas
de vários interesses e valores, boa parte deles adquiridos segundo
a agenda dos próprios veículos de comunicação, ou seja, dos que
o produzem.
O que estou querendo dizer é que os jornais de certa maneira escolhem
e são escolhidos pelo seu público.
Aquilo que levam ao público deve corresponder a decisões éticas
individuais de cada jornalista e também das corporações profissionais
e dos veículos de comunicação. São decisões voluntárias pelas quais
cada um deve responder com consciência e liberdade. Não é possível
jogar a responsabilidade sobre elas para o "público".
Os interesses predominantes entre os leitores _especialmente os
que decidem comprar um veículo de qualidade_ não correspondem aos
baixos instintos que lhes têm sido atribuídos, com o objetivo de
desculpar uma crescente tolerância ao sensacionalismo jornalístico,
que cresce nesta "sociedade imperfeita".
Crueldade
O episódio da morte de Diana é um marco do jornalismo de nossos
tempos. Levou ao limite os questionamentos a respeito da ética na
escolha das notícias e nos métodos de obtenção de informação. Poderia
assinalar um ponto de ruptura na perigosa tolerância entre a melhor
imprensa e o sensacionalismo. Poderia ser usado para que o jornalismo
digno enfatizasse seus princípios, se afastasse da cultura paparazzi.
O argumento mais cruel de todos, porém, é o que atribui a culpa
às celebridades. Foi alegado até que quem entra para a família real
já sabe o que o espera. Ele indica o grau de brutalidade com que
nós jornalistas tomamos as decisões, "em nome do público".
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