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São
Paulo, domingo, 21 de setembro de 1997
MARIO VITOR SANTOS
Saio de
férias até o dia 26 de outubro, no término deste meu mandato. Como
balanço do período, há valiosos desenvolvimentos a ressaltar.
O debate em torno da ética nos meios de comunicação acabou por ser
uma marca da época. O que era encargo isolado de alguns ombudsmans
e críticos da mídia agora ganhou dimensão de questão pública, política
e cultural.
Não é possível mais debater qualquer assunto relevante no domínio
público sem levar em conta a mediatização que ele sofre pelos veículos.
Num outro plano, mais particular, a Folha divulgou novo projeto
editorial, que tenta tratar dos caminhos do jornalismo numa época
marcada pelo advento de novas mídias para a difusão de informações,
acirramento da concorrência e pressões da sociedade por mais respeito
aos direitos do público e das personagens e instituições envolvidos
pelo noticiário.
Discute-se a criação de fronteiras que limitem com mais clareza
o espaço de atuação da imprensa ao noticiar a vida privada de pessoas
públicas.
Em resposta a esses desafios, o projeto endossa o esforço por um
jornalismo mais sério, que trate dos fatos de maneira abrangente,
dando conta de sua complexidade e obediente a critérios de relevância
para a sociedade.
Aponta para um jornalismo à altura dos desafios do momento, atento
aos significados e às interpretações dos fatos, que responda às
demandas de um mundo cujas partes se interrelacionam cada vez mais.
A oportunidade para testar a fundo a fidelidade do jornal a esses
compromissos se apresenta nas eleições do próximo ano.
Na ausência do ombudsman, as manifestações ao departamento podem
ser encaminhadas pelos canais normais divulgados nesta coluna e
no jornal. A assistente Rosângela Pimentel encaminhará os casos
mais urgentes à direção de Redação e à Secretaria de Redação da
Folha.
Vera Fischer
As crises de Vera Fischer aparecem tanto no noticiário que o assunto
levou o leitor Carlos Eduardo Martins, do Rio, a se manifestar.
Segundo ele, não há razão jornalística para que a última confusão
em que se envolveu a atriz ganhasse tanto ou mesmo qualquer destaque
em jornais sérios como a Folha.
Fala o leitor: "Ela teve um ataque no meio da rua? Agrediu alguém?
Esfaqueou a empregada? Atrapalhou o trânsito? Não? Então não é matéria
jornalística. Ninguém tem nada a ver com o que se passa na esfera
privada das pessoas".
Martins preocupou-se especialmente com a informação segundo a qual
"a Folha apurou" que Vera Fischer, ao se internar na Clínica
Bambina há 15 dias, estaria sob os efeitos de uma overdose de cocaína
e bebida alcoólica. Fala o leitor: "A Folha apurou como?
Teve acesso às planilhas médicas? E daí? Isso é de interesse público?"
O leitor questiona até, com pertinência, até que ponto se justifica
divulgar informações que estão na esfera privada de pessoas "públicas".
Na minha avaliação, o estado químico de Vera Fischer, em si, não
tem a menor relevância para o público, não o afeta. Sua situação
deve inspirar solidariedade e preocupação. Deve ser abordada com
muito distanciamento e discrição, especialmente pelos veículos que
adotam critérios éticos de respeito à privacidade dos personagens
do noticiário.
Mas o que mais me agonia agora é o envolvimento do filho da atriz
e do ator Felipe Camargo, que disputam a guarda do menino na Justiça.
Ele tem apenas 4 anos, mas já está sendo citado sem cerimônias,
identificado, fotografado. Sua foto aparece mesmo na capa de jornais
respeitáveis como "O Estado de S.Paulo".
O drama do que já foi a família de Vera Fischer não interessa a
ninguém, a não ser a eles próprios, a suas famílias, aos amigos
e, agora, aos tribunais.
O menino é vítima da situação. Contra ele não se pode nem levantar
o cruel argumento de que "escolheu" ser famoso, de que "usou" a
mídia a seu favor e, agora, tem de arcar com as consequências. Ele
não escolheu nada.
Todos, inclusive a mídia, deveriam protegê-lo, para que vivesse
da melhor maneira a vida a que tem direito.
Do contrário, o estigma, evidente na situação, poderá trazer consequências
definitivas para o seu futuro. Se é que já não as trouxe.
Será que aprendemos alguma coisa com a discussão ética instaurada
após a morte da princesa Diana? Ou já não é mais possível pensar
em jornalismo, mesmo para as melhores cabeças, sem que se inclua
entre seus temas o da vida privada das pessoas famosas?
Monstruosidade na Paraíba
Apenas para encerrar um assunto ignorado, o do massacre no presídio
do Róger, em João Pessoa (PB). De acordo com o leitor Sérgio Spellmann,
o laudo oficial, assinado pelo legista Genival Veloso de França,
informa que os oito presos tiveram suas cabeças esmigalhadas, foram
vítimas de esgorjamento (espécie de corte na garganta) e tiveram
os olhos vazados com golpes de estilete.
O laudo inicial, feito por outro perito, afirma que tudo isso aconteceu
antes de eles serem mortos. O massacre ocorreu após uma rebelião
de presos, em 29 de julho. Menosprezar o noticiário a respeito de
um caso desses é contribuir para que ele se repita.
Lealdade e tolerância
Chega ao final o inovador mandato do ombudsman Mario Xavier, do
jornal catarinense "ANCapital". Xavier teve atuação fundamental
para a criação de uma cultura mais ética de exercício do jornalismo
em Santa Catarina.
Em balanço publicado para o Instituto Gutemberg, Xavier definiu
o ombudsman como um "representante do público", "um guerreiro ora
mais, ora menos combativo, íntegro, leal ao seu mandato. Com uma
crença fantástica na capacidade humana de praticar a paciência,
a tolerância, a cabeça fria e a equidistância entre tantos conflitos
de interesses muitas vezes inconciliáveis".
O jornal anuncia sua disposição de extinguir a função de ombudsman,
deixando, assim, de publicar uma crítica semanal ao jornal. Declara
estar discutindo a "implantação da crítica interna apenas como instrumento
para garantir qualidade".
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