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São
Paulo, domingo, 30 de novembro de 1997
MARIO VITOR SANTOS
Na edição de segunda-feira passada, este jornal demonstrou seu gosto
pela polêmica ao publicar uma extensa entrevista com Caetano Veloso.
Na entrevista, o artista atacava a cobertura feita pela Folha
nos recentes lançamentos do seu livro "Verdade Tropical" e do disco
"Livro".
A entrevista era a continuação de um "pingue-pongue" (jargão para
a transcrição do diálogo entre repórter e fonte, na forma de perguntas
e respostas) publicado dois dias antes, no sábado. Naquela entrevista,
limitada a temas culturais, as declarações de Caetano ao jornal
pareciam estranhamente curtas para o conteúdo veemente e irritado
do que era dito.
As perguntas, provocadoras, questionavam uma suposta indulgência,
o bairrismo e o conservadorismo de Caetano ao defender a Bahia e
incorporar supostas influências da axé music a seu disco. Indagavam
se ele estava ficando mais conservador, se achava que iria aparecer
alguém para superá-lo, se havia cansaço criativo.
Dono da verdade
Em relação ao livro (''Verdade Tropicalïï), o tom era semelhante:
se Caetano se considera dono da verdade (gastou-se um considerável
espaço em torno dessa picuinha), se o livro fecha as portas à imaginação
em torno do movimento, e, novamente, se ele é ou não dono da verdade.
Na realidade, as questões pareciam tentar atingir um objetivo: a
desautorização de Caetano, de sua integridade. Em retorno, a Folha
recebeu respostas agressivas, publicadas no sábado e também na segunda-feira.
O livro de Caetano é um excelente livro. O texto é claro, informativo,
detalhista até, constitui depoimento imprescindível para quem deseja
entender a cultura brasileira na segunda metade deste século.
É um livro delicado e até contido, está longe de ser expressão de
prepotência da parte de seu autor.
Troco
Se as perguntas parecem ter mais sido destinadas a criar polêmica
do que a informar o leitor sobre a obra, é sinal de que o principal
objetivo de um meio de informação foi abandonado. Mas a polêmica,
no caso, também foi útil, porque a Folha teve o troco.
O jornalismo cultural, especialmente o da Folha, carece das
intervenções iradas de gente como Caetano.
Precisa de um enfrentamento franco, para remexer os impasses que
vive nesta década _impasses criados até pela ascensão das idéias
do artista a uma posição hegemônica.
Para essa ascensão, no terreno do jornalismo cultural, a Folha
colaborou, em especial nos primeiros anos da década passada. Foi
nesse momento que sua cobertura cultural assumiu agressivamente
alguns dos pressupostos existentes na base do ideário tropicalista:
a ruptura com o nacionalismo cultural estreito, a abertura para
as influências do que existe de melhor na moderna cena pop internacional.
Independência
Sou dos que consideram intervenções críticas de Caetano no terreno
jornalístico muito revigoradoras. Ele não procura agradar o interlocutor,
enfrenta a mídia em plano de igualdade. É das poucas figuras públicas
que têm peso, agilidade e disposição para fazê-lo.
A medida da independência para muitos jornalistas passa pelo ''desmascaramentoïï
de algum grande nome que tenha atingido uma certa unanimidade. Na
área cultural, o nome óbvio é Caetano, considerado por alguns como
um artista decadente, aburguesado e mimado pela mídia.
É uma espécie de reação ao "grande consenso que se formou em torno
do autor", na expressão usada pelo editor de Domingo desta
Folha, Marcos Augusto Gonçalves, em artigo na edição do Mais!
de novembro passado.
A capa daquele suplemento da Folha dedicado ao lançamento
do livro já evidenciava seu ânimo pretensamente desmascarador. Diziam
os títulos, em tom detetivesco: "O tropicalismo do cárcere ao poder";
"Documentos secretos mostram que o regime militar não diferenciava
a tropicália de outras manifestações culturais que agitaram o Brasil
nos anos 60".
Essa última referência baseava-se numa reportagem com o general
Antonio Bandeira, que em 1968 ocupava posto de comando na estrutura
dos organismos de repressão política.
De acordo com o general, segundo apurou o Mais!, os tropicalistas
não incomodavam tanto os militares quanto os guerrilheiros envolvidos
na luta armada.
O jornal procurava desnudar o que seria um erro na avaliação de
Caetano Veloso. Em seu livro, ele diz que acreditava que os tropicalistas
seriam os mais profundos inimigos do regime militar.
Relevância
A pergunta é: qual a relevância dessa "revelação descoberta" pela
Folha? É a isso que o livro de Caetano se dedica ao longo
de suas 524 páginas?
Pela leitura do Mais!, a resposta seria afirmativa, mesmo
porque, dentre os vários artigos daquele suplemento, não há nenhum
que trate do livro em si, que o descreva, que tente fazer uma análise
mais informativa.
Em lugar de esclarecer que, no contexto geral do livro, a afirmação
de Caetano é menor, ligeira e até aceitável, o Mais! vai
mais longe, na via oposta: associa a trajetória de Caetano à de
FHC e de Roberto Campos.
É um exercício de crítica enviesada e confusa, cuja meta é a desqualificação
do artista, de seu presente e, por essa via, também de seu passado
e de suas motivações.
Por que, por exemplo, a tropicália não é associada a Miguel Arraes
ou a Fernando Gabeira? Quer dizer que, além de não ser inimigo profundo
da ditadura, Caetano ainda se parece com FHC?
É uma analogia forçada, que não obedece a linhas fortes de coerência,
depende mais das intenções dos editores e articulistas. Parece decorrer
de uma avaliação prévia e genérica, quase que independe desse livro
ou daquele disco.
Desavenças
As picuinhas atuais com Caetano parecem ser a atualização de uma
longa série de desavenças e incompreensões iniciadas justamente
com o advento da tropicália. Naquela época, Caetano era criticado
pela mídia _e ele se insurgia_ por não aderir ao nacionalismo cívico
militante que predominava na MPB, por se abrir ao rock, ao ieieiê
e a Roberto Carlos.
Agora, sofre restrições indignadas e desconfiadas da Folha
por insistir em manter a sensibilidade aberta a influências da axé
music e de gente como Netinho, por exemplo. Naquela época, como
agora, transpor determinadas fronteiras culturais implicava riscos
de críticas e de isolamento.
O uso da mídia sempre fez parte do projeto tropicalista, como relata
o próprio Caetano a respeito da repercussão que o movimento criou
ao surgir:
''Enquanto a reação da estudantada de esquerda era francamente desfavorável
_e muitos colegas compositores torciam o nariz_ a imprensa, embora
criticamente dominada por posição semelhante, tinha no espalhafato
das apresentações (e nas próprias discussões que elas geravam) um
prato cheio para sua produção diária de reflexão, sensacionalismo
e intrigas. Nesse caso, como em outros mais frequentes do que se
imagina, era exatamente sua venalidade que a salvava. Pelo menos
do moralismo estreito e do tradicionalismo tacanhoïï.
As obras de Caetano devem obviamente ser criticadas pelo que são
em si, por suas vantagens e insuficiências, mas sem preconceitos
e analogias descabidas. O passado do artista pode ser examinado,
por que não?
Para tal, porém, é preciso seriedade na ponderação das informações.
Elas devem receber destaque equivalente a sua real importância.
Caso contrário, à nossa produção diária de reflexão continuaremos
acrescentando doses inaceitáveis de sensacionalismo e intrigas.
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