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São
Paulo, domingo, 07 de dezembro de 1997
MARIO VITOR SANTOS
''Quando milicianos mal e porcamente armados arriscam sua pele em
enfrentamentos com marginais da pior espécie, nas periferias das
grandes cidades, ocorrendo morte de algum pária, somos brindados
pelos repórteres da Folha com a notícia de que supostos marginais
morreram em também supostos tiroteios com a polícia.''
O trecho acima foi extraído de uma mensagem do leitor Beneal Fermino
de Brito, delegado de polícia na cidade de São Paulo. O leitor,
em defesa da classe a que pertence, aponta falta de isenção da Folha
na cobertura das circunstâncias em torno do suposto assalto ao empresário
João Paulo Diniz.
O delegado Brito diz que os jornais nem sequer noticiaram os antecedentes
policiais/criminais do suposto assaltante morto, classificado simplesmente
como assaltante em todos os relatos.
Filho de Abílio Diniz, proprietário da rede de supermercados Pão
de Açúcar, João Paulo dirige aquele que é o segundo maior conglomerado
do setor no Brasil, com um faturamento de R$ 3 bilhões no ano passado.
No dia 20 de novembro, em confronto com seguranças de João Paulo
Diniz, foi morto José Barbosa Ferreira (que a Folha chamou
inicialmente de Joelson Ferreira), que supostamente tentava assaltá-lo.
De acordo com testemunhas citadas pela Folha, o empresário
foi abordado na esquina das alamedas Santos e Joaquim Eugênio de
Lima. Um homem carregando um ramo de flores se aproximou da janela
do veículo guiado por Diniz, tentou rendê-lo e ordenou que entregasse
o relógio. Diniz estava acompanhado por três seguranças, que viajavam
em outro carro e numa moto. Eles reagiram. No tiroteio que se seguiu,
segundo relatos de testemunhas citadas pela Folha, o assaltante
foi ferido.
Depois, apesar de desarmado, caído e sem ação, o suposto criminoso
teria sido morto por um dos seguranças. Assim declarou o pedreiro
Adilson Oliveira à Folha: ''O ladrão caiu na rua e jogou
a arma para perto da guia. O segurança pegou o revólver do chão
e deu três tiros nele''.
Dois dos guarda-costas de João Paulo Diniz foram feridos no tiroteio.
Os três seguranças têm ou tiveram vínculos com a Polícia Militar.
O cabo Edson Sini, que estava na moto, é o suposto autor dos três
tiros que mataram o suposto assaltante. Sini é subordinado ao Comando
de Policiamento de Trânsito.
De acordo com o regulamento disciplinar da Policia Militar, os membros
da corporação são proibidos de trabalhar em outras atividades.
No texto que encaminha a mim, o delegado Brito, que dá plantão no
22º Distrito Policial, em São Miguel Paulista, na zona leste de
São Paulo, aponta a existência de dois padrões na cobertura policial
da Folha. Quando a fonte das informações é a polícia, o jornal
duvida. Mas quando o envolvido é um empresário, o jornal compra
a endossa a versão.
A Folha tem por norma, que considero importante instrumento
de isenção, fazer um relato frio dos fatos dos quais só tem conhecimento
a partir de fonte policial. O jornal procura manter-se distanciado
e cético em relação aos relatos oficiais.
O que nas voz das autoridades surge como um ''tiroteio com marginais''
aparece muitas vezes noticiado na Folha como ''suposto tiroteio''
com ''pessoas suspeitas'' dos crimes tal e qual. Isso nos eventos
em que não é possível obter confirmação, independente, cruzada e
conclusiva, da versão policial.
Um assaltante morto num hipotético confronto com policiais vira
''suposto assaltante'', enquanto o investigação não é encerrada
nas instâncias judiciais.
Há um sentido nessa forma de tratamento, que obedece a determinações
do ''Novo Manual da Redação'' do jornal, como a do verbete denominado
''acusação criminal''. Diz ele: ''A Constituição garante que todos
devem ser considerados inocentes até que sua culpa seja estabelecida
pela Justiça. A Folha não endossa acusação criminal, mesmo
da polícia, enquanto não for confirmada por sentença judicial definitiva''
(pág. 49).
O mesmo verbete esclarece: ''Essa norma não vale para flagrante
delito ou confissão espontânea'', embora até a esse respeito o texto
aconselhe cuidado, pois há flagrantes forjados e confissões forçadas.
O objetivo do ''Manual'' é tentar evitar a divulgação de versões
incorretas emitidas pela corporação policial a partir de relatos
dos próprios agentes envolvidos nos conflitos. O preceito segue
a atitude adotada pela Justiça em sua busca pelos fatos.
Ademais, em vários países nem sequer os nomes dos suspeitos de crimes
são publicados antes de que o processo tenha a sentença final estabelecida.
Chama a atenção, porém, na cobertura que a Folha fez do caso
de João Paulo Diniz, a total ausência do adjetivo ''suposto'' para
qualificar o morto. É por isso que o delegado de uma área problemática
da periferia de São Paulo reclama.
Também é notável a falta de acompanhamento jornalístico do inquérito
que apura os fatos. É um dos nossos vícios jornalísticos mais graves,
o de não perseguir a verdade até o final. Investigações periciais,
autópsias, número de perfurações de balas, reconstituições, depoimentos,
apuração da história de vida do suposto assaltante, nada mais veio
a público.
Desde o dia 21 de novembro, ou seja, dois dias depois do confronto
da alameda Santos, fez-se silêncio absoluto.
Esquecimento
Outro caso esquecido pela mídia na fase de investigações policiais
é o do assassinato de Elisangela Rodrigues Cardoso, 19, grávida
de sete meses. Ela foi assassinada com dois tiros na cabeça no dia
12 de novembro, entre São Bernado do Campo e Diadema. O bebê não
sobreviveu.
De acordo com o marido, que estava com ela na hora do crime, dois
assaltantes teriam abordado o carro deles num sinal de trânsito,
em Diadema (SP), e entrado no banco traseiro.
A um dado momento, quando o marido, na direção, olhou para trás,
um tiro foi dado. Um segundo tiro teria sido disparado momentos
depois, quando o carro já se encontrava no acostamento da via Anchieta.
Em seguida, de acordo com o depoimento do marido de Elisangela,
os dois homens teriam fugido a pé.
Com base em declarações de uma testemunha, a polícia vinha investigando
outras possibilidades para o crime, quando o fluxo de notícias foi
minguando até interromper-se de vez. Troféu ''Pastel de Vento''.
Por sugestão do leitor Carlos Eduardo Martins, economista, do Rio,
fica denominado ''Pastel de Vento'' o concurso das notícias irrelevantes
mais exageradamente destacadas pela mídia no ano de 97.
Além dos casos aqui relacionados em coluna anterior (Bandido da
Luz Vermelha, Dolly, Faustão x Gugu, Vera Fisher, Sérgio Motta,
Pathfinder, Ronaldinho, Diana e promessas na área de habitação),
o leitor Martins sugere mais um: a celeuma em torno dos lançamentos
do livro (''Verdade Tropical'') e do novo CD (''Livro'') de Caetano
Veloso.
Martins considera que dificilmente a cobertura para a segunda vinda
de Cristo ganharia tanto destaque como o que vem sendo dado a Caetano
Veloso na Folha.
Ele protesta: ''Já houve réplica, tréplica e quadréplica. Tem-se
a impressão de que nada mais está acontecendo na cultura desse país.
Nunca vi um desvario midiático tão grande''.
Para a leitora Ana Moreira de Souza Barreto, um assunto encabeça
a lista do troféu: a nudez da sem-terra Débora Rodrigues.
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