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São
Paulo, domingo, 14 de dezembro de 1997
MARIO VITOR SANTOS
Manipulação
de caráter ideológico ou desinformação global? Essa é a questão
a responder sobre o desempenho da cobertura da crise da economia
da Coréia do Sul, antes e depois de ela vir à tona. Não há prova
maior de que mais do que nunca informação é sinônimo de dinheiro
e poder.
Nestes dias, o mundo ainda tenta se acostumar à idéia de que os
chamados ''tigres'' asiáticos têm sérias debilidades econômicas,
diferentemente do que analistas _economistas e jornalistas_ vinham
divulgando como verdade provada ao longo de vários anos. Nem bem
a nova verdade é assimilada, surge um milagroso pacote de ajuda
do Fundo Monetário Internacional à Coréia do Sul. Mais uma vez o
noticiário assume o caminho errado, otimista, tranquilizador. Mas
os investidores vão no caminho oposto.
A moeda sul-coreana continuou se desvalorizando, os índices das
bolsas mergulharam ainda mais. Agora, descobre-se que o sistema
bancário daquele país está falido numa proporção muito superior
à informada. Os especialistas agora sabem que o pacote do Fundo
está longe de atender ao que é necessário para controlar a crise.
Os leitores demoraram alguns dias para saber das informações não
oficiais a respeito da crise coreana.
Subitamente, países da América Latina passam a ser citados como
exemplo de economias transparentes, sem práticas duvidosas acobertadas
pelos governos, libertas dos vícios do passado, os mesmos desvios
que agora acabam de derrubar as antes imbatíveis cidadelas do outro
lado do mundo.
Prevê-se para os ''tigres'' latinos _e até para o Brasil, por incrível
que pareça_ um futuro animador. Será? Se não estávamos certos antes,
por que estaríamos agora?
Ao final, talvez se constate que o tigre coreano saiu da crise mais
atrevido e ágil do que nunca. E que nós _os bons alunos aqui do
outro lado_ continuamos a combater os mesmos impasses. O ceticismo
criado pelo crash mundial testa num novo patamar as capacidades
_e a independência_ do jornalismo econômico.
França x
ABC
Na mesma semana em que se discute tão intensamente com que grau
de violência serão reduzidos os salários pagos no setor industrial
brasileiro, o Conselho de Ministros da França não se omitiu e aprovou,
com validade a partir do ano 2000, a semana de 35 horas de trabalho,
com leve redução de salários. O empresariado francês não gostou,
mas pode ser uma das saídas para o Brasil. Em alguma medida, tende
a ser aplicada cedo ou tarde, quem duvida? Segundo o leitor Guillermo
Rallo, não há explicação para o tema não ter sido nem sequer noticiado
em nenhuma edição da Folha que ele recebeu em Porto Alegre
na semana que passou.
Mundo Xuxa
Carta do leitor Bernhard Kraus, pároco da paróquia São Bonifácio
(São Paulo, SP): ''Que a Xuxa vai ter nenê não é nenhum milagre
ou coisa do outro mundo. Ao contrário do que possa parecer, desejo-lhe
uma ótima gestação, que curta bastante esse período, e que a Nossa
Senhora do Bom Parto lhe acompanhe e lhe dê uma boa hora. Agora,
fazer de um fato destes meia página de reportagem e ainda na primeira
página não lhe parece exagerado?''
O protesto do leitor resume vários outros enviados à Folha
para criticar o destaque dado pelo jornal à recém-anunciada gravidez
da apresentadora Xuxa. Algumas dessas manifestações críticas foram
publicadas no Painel do Leitor, sem comentários. A notícia da gravidez
saiu na segunda-feira passada. A primeira página da Folha estampava
um grande quadro na parte superior. ''Xuxa anuncia na TV que está
grávida'' era o título, acompanhado de uma foto da apresentadora
e do namorado Luciano Szafir no ''Domingão do Faustão'' exibido
no dia anterior.
O destaque obedece a uma tendência já antiga no sentido de acompanhar
com atenção tudo o que acontece na televisão, mais ainda na TV Globo
_especialmente aos domingos. A premissa é que os brasileiros despendem
grande parte do seu tempo assistindo televisão, o que é ainda mais
verdade nos fins-de-semana. A Folha não poderia ignorar tamanha
presença da TV na vida do público.
O argumento é questionável, pois nada assegura que as pessoas só
se interessam pelo que sabem e vivem. As edições de segunda-feira
da Folha sempre ofereceram oportunidade para que tivessem
destaque reportagens mais aprofundadas do que as das edições dos
outros dias. Nas segundas, valendo-se do vácuo noticioso dos fins-de-semana,
o jornal se permitia destacar temas especiais e arriscar enfoques
alternativos.
Era o momento de provocar encontros acidentais de leitores com notícias
que, embora relevantes, em geral não teriam condições de vencer
a competição com as manchetes quase obrigatórias (os anúncios, os
pacotes, as declarações bombásticas) dos outros dias úteis, por
assim dizer.
O que provoca agora reações dos leitores não é o abandono da publicação
de reportagens especiais das segundas-feiras; é o destaque desmedido
_e até dominante_ que o jornal dá à fofoca; é o endosso e a rendição
passiva ao jogo mercadológico das celebridades, à novelização do
noticiário.
Tanto é assim que, ao longo de todas as edições da semana, a Folha
continuou acompanhando _mais discretamente, é verdade_ os desdobramentos
do anúncio de Xuxa. Os pais do namorado criticaram o fato de ele
ser apresentado à maneira de um objeto, usado apenas como fornecedor
dos meios para que Xuxa possa ter um filho. Avaliações críticas
e distanciadas foram raridade no cômputo final. Quase nada sobre
a influência da atitude de Xuxa sobre o público, especialmente sobre
milhões de crianças e jovens que a seguem.
Apenas notícias sobre números de audiência, disputa por mercado
e fofoquinhas. No máximo, uma avaliação das estratégias mutantes
(mas nem tanto) da TV Globo para cativar o telespectador dominical.
Será que, a esta altura, a mídia ainda tem condição de exercer a
fundo uma vigilância crítica sobre ela própria?
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