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São
Paulo, domingo, 28 de dezembro de
1997
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Juan Esteves - 16.set.1993/Folha Imagem
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Mario
Vitor Santos foi o ombudsman
da Folha, pela segunda vez,
de 6/1/97 a 28/12/97 |
MARIO
VITOR SANTOS
Esta é a última coluna que escrevo na condição de ombudsman. O segundo
período como ''representante dos leitores do jornal'' permitiu-me
acompanhar o desenvolvimento de importantes progressos e ameaças
para o jornalismo.
Mais do que nunca antes, o jornalismo propriamente dito ameaça tornar-se
uma atividade cercada por outros interesses assumidos pelas empresas
jornalísticas. A competição mais acirrada, a ação de preferências
econômicas e ideológicas sobre o noticiário, o poder do governo,
a pressão avassaladora provocada pela televisão na cultura brasileira
e o atraso educacional impõem graves restrições ao nível médio do
jornalismo que aqui se pratica.
O terreno árduo da reportagem investigativa, o trabalho isolado
de questionamento dos poderes estatais e privados, a missão pública
de prestação de serviços informativos à sociedade encontram-se pressionados
pelo retorno mais fácil propiciado pelo jornalismo de entretenimento
e da adesão à ''maioria''.
As injunções voltadas à satisfação de interesses comerciais põem
o jornalismo na defensiva.
No Brasil de hoje, a mídia apóia o governo. Não apenas nos editoriais
e colunas, onde a opinião é livre.
Também na divulgação acrítica das ações e, principalmente, das intenções
oficiais. Aí o governismo serve-se do jornalismo adesista e preguiçoso.
A diferença entre os diversos veículos está no grau de entusiasmo
existente. Influi também a cultura de cada veículo.
No passado também foi assim. Esse governo, porém, tem conseguido
manter a adesão da mídia por mais tempo, apesar da crise, do aumento
das desigualdades e da previsão de que os problemas vão se agravar.
O mercantilismo exagerado e sem princípios gera questionamentos
a respeito da mídia. Discute-se a erotização envolvendo jovens e
adolescentes, a invasão de privacidade, a importação pelos jornais
de qualidade de um estilo de cobertura jornalismo típico da imprensa
sensacionalista.
Como afirma o economista carioca Carlos Eduardo Martins, um dos
mais assíduos amigos desta coluna, a mídia gastou boa parte do ano
falando de fenômenos que ela própria impôs ao público. Ocupou parcela
significativa das atenções com temas como princesa Diana, a ex-sem-terra
Débora Rodrigues, Carla Perez, Xuxa, Luciano Szafir.
Alguns desses ''fatos'' talvez não chegassem ao conhecimento de
muitos leitores de jornal. Mas, como diz o economista Martins: ''Se
você não tomou conhecimento, acaba sendo obrigado a esse contato
pela mídia, a Folha inclusive. Há um jogo de espelhos e máscaras.
A mídia se realimenta do supérfluo e do vazio''.
Muitos desses ''fatos'' recebem destaques nas primeiras páginas
de todos os jornais, inclusive a Folha, em muitas edições
em seguida. Viram seriados, o que indica muito a respeito daquilo
que o jornal considera relevante recomendar a seus clientes, numa
espécie de diálogo implícito: ''Mas como? Você ainda não sabe disso?''...
O leitor Martins acha que esse processo vicioso pode gerar um afastamento
dos indivíduos, que se perguntam: o que eu tenho a ver com isso?
O que isso tem a ver comigo?
O jornal pauta a leitura de milhões de cidadãos. Isso implica enorme
responsabilidade ética.
Ética é, porém, matéria de escassa consideração nas redações, premidas
pela competição e o ''serviço ao mercado''. Nas escolas, seu ensino
é inexistente. Nos cursos de comunicação, a disciplina é ministrada
com legislação de imprensa. Ninguém dá a mínima. Não se ensina ética
aos jornalistas brasileiros.
As chamadas técnicas de redação e de reportagem _a espinha dorsal
do curso_ são inteiramente esvaziadas de qualquer reflexão ética.
Essa é a principal razão para o baixo nível médio dos cursos de
comunicação, com a qual o governo tem sido conivente até agora.
Vamos ver se o provão do meio do ano contempla algum exame de questão
ética ligada ao jornalismo.
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